O funcionamento cardíaco pode ter uma relação mais direta com a saúde bucal (e a gengiva) do que se imaginava. Um estudo apresentado durante a reunião anual de Ciências Cardiovasculares Básicas da American Heart Association (AHA), realizada entre 13 e 16 de julho, em Boston (EUA), apontou uma possível conexão biológica entre a doença periodontal crônica e a estenose aórtica calcificante, uma condição em que a válvula aórtica se torna gradualmente mais rígida, espessa e calcificada, o que dificulta o fluxo de sangue do coração para o restante do corpo.
O estudo laboratorial investigou o tecido cardíaco de ratos e humanos, e concluiu uma possível ligação entre doença gengival (periodontite) e estreitamento das válvulas aórticas.
Ainda hoje, não existe um medicamento ou um tratamento específico disponível para atuar na prevenção da estenose da válvula aórtica.
Apesar disso, os resultados da pesquisa sugerem que, quando associados o tratamento da doença gengival e da inflamação gengival, a prevenção da forma mais comum de doença da válvula cardíaca tem maiores chances de ter êxito.
Por meio de experimentos realizados com tecidos cardíacos de camundongos e amostras humanas examinadas em laboratório, os pesquisadores puderam perceber que a partir da bactéria, houve o desencadeamento de processos inflamatórios e o estímulo do acúmulo de cálcio nas células da válvula aórtica.
Médico reforça que o estudo está em fase inicial
O médico cardiologista da Amplexus saúde especializada Fabrício Da Silva comentou destacou que o estudo ainda está em fase inicial, e reforçou a importância de se ter um olhar mais amplo ao se analisar as doenças cardiovasculares.
“O envelhecimento aumenta a frequência de alterações degenerativas nas válvulas cardíacas, mas isso não significa que todos os mecanismos envolvidos estejam completamente esclarecidos. A possibilidade de uma inflamação crônica, originada em outro local do organismo, participar desse processo é biologicamente plausível e merece investigação. No entanto, é importante destacar que este estudo ainda não permite afirmar que a gengivite ou a periodontite causem estenose aórtica em seres humanos”, aponta Fabrício.
A análise do médico enfatiza que a descoberta deve ser interpretada com cautela, já que a pesquisa ainda está em seus estágios iniciais. A execução dos experimentos foi feita em tecidos e modelos laboratoriais, e não em pacientes vivos. Ademais, o estudo foi divulgado em formato de um resumo científico durante o congresso e ainda necessita passar pela revisão por pares, processo no qual especialistas independentes se aprofundam no assunto e analisam a qualidade do método utilizado e a precisão das conclusões.
Segundo o médico, a pesquisa ainda é inicial e requer cautela
Portanto, os resultados disponibilizados pela equipe de Chenyang Li não comprovam com total certeza que a doença periodontal provoque o endurecimento da válvula aórtica. Ainda é necessário que a pesquisa passe por etapas importantes para que haja uma conclusão mais efetiva.
O que o estudo mostra é uma potencial conexão biológica que pode ajudar a responder como a inflamação associada à bactéria Porphyromonas gingivalis poderia participar de processos de calcificação das células valvares.
Para Fabrício, o maior aporte que o estudo traz neste momento é o incentivo a uma apuração mais detalhada sobre o assunto.
“A pesquisa não muda, por enquanto, a conduta clínica estabelecida para a estenose aórtica, nem substitui os exames cardiológicos e o acompanhamento médico. Ela levanta uma possibilidade relevante: a de que processos inflamatórios crônicos, inclusive aqueles relacionados à saúde bucal, possam participar de doenças cardiovasculares degenerativas. Essa hipótese precisa ser confirmada em estudos clínicos bem desenhados”, afirma o cardiologista.
Para saber mais, siga o perfil de Vida&Estilo no Instagram.





