Joseph Stiglitz foi economista-chefe do Banco Mundial e ganhador do prêmio Nobel de Economia em 2001
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Para o economista americano Joseph Stiglitz, ganhador do Nobel de Economia e professor da Universidade Columbia, as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil são motivadas por uma tentativa de punir o país por buscar maior independência digital e por resistir a pressões políticas externas.
Em entrevista à BBC News Brasil, ele afirma que o governo de Donald Trump se opõe ao avanço da autonomia tecnológica e financeira brasileira e, mais especificamente, ao PIX.
Segundo Stiglitz, Washington "não gosta da ideia de que o Brasil tenha seu próprio sistema de pagamentos, independente da Visa e da Mastercard", e está, na prática, defendendo os interesses corporativos americanos ao incluir o PIX na lista de motivos para taxar as exportações brasileiras.
Apesar da escalada das tensões, ele avalia que os custos econômicos das tarifas tendem a ser limitados e faz uma defesa enfática do PIX, afirmando que os benefícios proporcionados pelo sistema de pagamento brasileiro são "quase certamente muito maiores" do que os prejuízos decorrentes das medidas americanas.
O Nobel de Economia afirma ainda que o presidente americano está usando barreiras comerciais para pressionar países que resistem aos seus interesses políticos e econômicos, entre eles o Brasil.
"Na visão de Trump, é uma audácia se levantar e dizer 'não vamos abrir mão da nossa democracia só para obter melhores condições tarifárias, não vamos capitular'. E ele espera que todos, internacionalmente e internamente, capitulem", diz o economista.
"E eu preciso parabenizar o Brasil por não ter capitulado."
Preciso parabenizar o Brasil por não ter cedido às pressões de Trump, disse Nobel de Economia
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Na conversa com a BBC News Brasil, Joseph Stiglitz ainda classificou as justificativas apresentadas pelo governo de Donald Trump como uma "farsa desonesta" e sustentou que a estratégia tarifária americana pode acabar enfraquecendo a posição dos Estados Unidos e fortalecendo a influência da China na economia global.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil – Na sua visão, as tarifas implementadas pelos Estados Unidos contra o Brasil são baseadas nas conclusões pragmáticas obtidas por meio das investigações sobre práticas comerciais e combate ao trabalho forçado ou existem também motivações políticas?
Joseph Stiglitz – É tudo uma questão política. Não se trata, especialmente, da suposta questão do trabalho forçado, que é uma vergonha para os Estados Unidos. Enquanto alguns países tiveram aumento de 1%, outros tiveram redução de 1% ou 2% [em relação às tarifas impostas previamente, derrubadas pela Suprema Corte]. É incrível que haja esse grau de correlação entre o extenso trabalho forçado ao redor do mundo e as tarifas que Trump impôs, que não têm nada a ver com trabalho forçado. É uma farsa. Uma farsa desonesta que deveria ser motivo de vergonha.
Há outros aspectos interessantes: grande parte do trabalho forçado está associado à importação de mercadorias da China, na região de Uigur, mas a China não teve um aumento significativo ou maior que o de outros países, foi de 1% ou 2%. Seria de se esperar que, se a preocupação fosse realmente com o trabalho forçado, as tarifas mais altas fossem contra a fonte do trabalho forçado na China. Mas não foi o caso.
Há ainda mais constrangimento: os Estados Unidos submetem cidadãos americanos a trabalho forçado em larga escala, utilizando prisioneiros. Isso é permitido pela 13ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, e é algo muito extenso e significativo. No entanto, ele [Trump] não está fazendo nada a respeito. Portanto, fica muito claro: não se trata de trabalho forçado. Trata-se da agenda política de Trump associada à imposição de tarifas em todo o mundo.
Agora, no caso do Brasil, há alguns aspectos específicos. Ele [Trump] não gosta da ideia de que o Brasil deseje ter, digamos… independência digital. Ele não gosta da ideia de que o Brasil tenha seu próprio sistema de pagamentos, independente da Visa e da Mastercard. Ou seja, ele está simplesmente servindo aos interesses corporativos americanos. Novamente, é constrangedor.
[As tarifas] não se baseiam nos princípios comerciais estabelecidos há muito tempo, são apenas um ataque ao Brasil porque, assim como a Índia e vários outros, o país decidiu que é bom ter meios de pagamento de baixo custo disponíveis para seus cidadãos.
Há outro elemento no Brasil, que remonta às tarifas impostas originalmente e que é totalmente político. Trump queria apoiar Jair Bolsonaro, que em 8 de janeiro [de 2023] fez algo análogo ao que ele fez em 6 de janeiro [de 2021], tentando impedir a transição pacífica de poder, o elemento essencial de uma democracia. Então, Trump está mais uma vez dizendo que não acredita realmente na democracia.
BBC News Brasil – Essa combinação de fatores também fez com que o Brasil fosse o primeiro país a ser atingido por essa nova onda de tarifas?
Stiglitz – Sim, acho que demonstra animosidade contra o Brasil. Pode-se dizer que, na visão dele [Trump], é uma audácia se levantar e dizer 'não vamos abrir mão da nossa democracia só para obter melhores condições tarifárias, não vamos capitular'. E ele espera que todos, internacionalmente e internamente, capitulem. Nos Estados Unidos, minha própria universidade capitulou. Harvard não. Alguns escritórios de advocacia capitularam, outros não. E eu preciso parabenizar o Brasil por não ter capitulado.
BBC News Brasil – Nas redes sociais, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que as tarifas seriam consequência do comportamento do presidente Lula, que teria priorizado o seu próprio ego em detrimento de um acordo. Qual a sua opinião sobre esses comentários?
Stiglitz – Bem, Rubio está defendendo Trump. Mas, de certa forma, [as tarifas] foram uma consequência do Brasil se opor a Trump. E Trump não gosta que as pessoas o enfrentem. Ele atacou [a universidade de] Harvard quando ela se opôs, quando não capitulou.
Mas, por outro lado, ele não atacou a China, porque a China estava disposta a enfrentá-lo e, pode-se dizer, tinha as cartas na manga no controle das terras raras e minerais, e estava disposta a usar essas vantagens estratégicas.
Mas eu acho que o mundo como um todo, a União Europeia [UE], o Reino Unido, o Japão, cometeram um grande erro ao capitular aos caprichos de Donald Trump. Isso é ruim para a nova ordem nacional. Aqui na Europa, o único país que não capitulou fortemente foi a Espanha. Ele ameaçou aplicar tarifas especiais, mas não o fez, pois é muito difícil para ele fazer isso, por causa da participação da Espanha na UE. Mas esse tipo de protesto contra aqueles que não capitulam é o que se espera de uma figura autoritária como Donald Trump.
"Os benefícios do sistema de pagamentos que ele quer destruir [Pix] são quase certamente muito maiores do que os custos que estão sendo impostos ao Brasil", diz Stiglitz sobre tarifas dos EUA
Marcello Casal Jr/Agência Brasil
BBC News Brasil – Quais poderiam ser as consequências econômicas dessa nova onda de tarifas para o Brasil?
Stiglitz – Na maior parte dos casos, não acho que haverá um impacto tão grande quanto os Estados Unidos esperam e quanto Trump deseja. O motivo é que grande parte das exportações brasileiras são commodities e, quando um país aplica tarifas contra commodities, estas são redirecionadas. Então, se os EUA não compram determinada commodity do Brasil, o Brasil envia mais para outro país, e esse país compra um pouco menos de um terceiro país. Portanto, trata-se de um rearranjo dos fluxos comerciais. Isso interfere na eficiência global, mas o efeito líquido é relativamente pequeno. E é por isso que o Brasil não deve se preocupar demais.
E os benefícios do sistema de pagamentos que ele quer destruir [PIX] são quase certamente muito maiores do que os custos que estão sendo impostos ao Brasil. E não há a menor possibilidade de um país abrir mão da sua democracia simplesmente porque uma figura autoritária como Donald Trump diz que, a menos que você faça isso, ele vai impor tarifas. A democracia é muito mais importante. E sabemos que Donald Trump está atropelando o Estado de Direito e a democracia, tanto em âmbito nacional quanto internacional.
BBC News Brasil – E considerando que agora outros 59 parceiros comerciais dos EUA também foram alvo de tarifas, quais poderiam ser as consequências em todo o mundo?
Stiglitz – Se observarmos o padrão das tarifas impostas, veremos que, com algumas exceções, como o Brasil, há pouca diferença em relação ao que já existia antes, o que não representará um trauma adicional para a ordem global.
Trump minou a arquitetura econômica global e a ordem global, e acho que isso tem um custo enorme. Aliás, devo acrescentar que não apenas as tarifas originais foram declaradas ilegais nos Estados Unidos pela Suprema Corte, mas também as tarifas que ele impôs posteriormente, que expiraram agora, e para as quais as novas tarifas servem de substitutas, também foram declaradas ilegais. E eles persistiram porque o processo piloto continuou.
Mas, assim como as primeiras tarifas tiveram que ser reembolsadas, as segundas tarifas também terão que ser reembolsadas. E há muitos questionamentos, processos já foram movidos. É muito claro que essas tarifas não seguem as intenções da Seção 301, ele está usando isso como uma lenda. Mas espero que os tribunais percebam que, ao fazer isso, ele não está realmente administrando a lei da maneira correta. É mais um exemplo de Trump atropelando o Estado de Direito.
BBC News Brasil – A atual estratégia americana pode estar empurrando os parceiros comerciais dos EUA para a China?
Stiglitz – Ela está mudando a ordem global, não apenas a econômica, mas também a política, e está fortalecendo a posição da China, sem dúvida. Os Estados Unidos não são mais um aliado confiável ou um parceiro comercial confiável. Quanto mais dependente dos Estados Unidos um país está, mais vulnerável se torna aos caprichos de Donald Trump. Portanto, nenhum país racional desejaria se tornar dependente dos Estados Unidos, seja para insumos, produtos ou qualquer outro propósito. Ironicamente, na área de relações internacionais, a China provou ser mais estável e mais aderente ao Estado de Direito.
BBC News Brasil – O fato de essas tarifas serem relativamente menos agressivas do que as que ele anunciou no ano passado diz algo sobre o poder e os limites da estratégia do governo Trump?
Stiglitz – A maioria dos americanos agora acredita, corretamente, que as tarifas são pagas pelos próprios consumidores americanos. Isso significa que, ao contrário de Trump, que diz que são os outros países que estão pagando, eles sabem que estão pagando por isso. Considerando o aumento de preços resultante da guerra com o Irã, os americanos não estão satisfeitos com as políticas econômicas do governo Trump.
Portanto, obviamente houve uma ampla reação negativa. Da mesma forma, o Congresso, pela Constituição, tem o direito exclusivo de impor impostos — e tarifas são impostos, são impostos para produtos importados. E ele [Trump] está tentando fingir que essa autoridade foi delegada a ele, o que não é verdade. Isso também limita seu poder.
Então, acho que tanto a economia quanto a política estão militando contra esse abuso de poder presidencial por Donald Trump.
Por que o PIX, meio mais usado por pequenos negócios, virou pretexto dos EUA no tarifaço





