A tendência incentiva as pessoas a declararem abertamente seus limites de gastos e suas prioridades financeiras seja nas redes sociais ou fora delas.
David Spohn, professor da Lynn University, nos Estados Unidos, e pesquisador do tema, observa que os jovens de hoje rejeitam o consumo de luxo como aspiração e comunicam abertamente suas restrições em relação ao dinheiro para evitar pressões sociais.
Em vez de sentir vergonha por não poder gastar ou ir a algum lugar, ele diz que essa geração trata a limitação financeira como algo natural: algo que simplesmente não está (ou não cabe) no orçamento.
"Muita gente vê as redes sociais como o centro da questão, mas, nesse contexto específico, elas não são o foco. O que importa é que a Geração Z as usa para obter informação e tomar decisões mais acertadas", afirma Spohn.
Pesquisas que ele participou apontam que metade da educação financeira dos entrevistados vinha da escola, e a outra metade, da família.
Quando a família não aborda o tema, Spohn diz que a Geração Z busca preencher essa lacuna na internet, onde assuntos como salários, dívidas, desigualdade de gênero e investimentos são discutidos abertamente.
A realidade financeira dos jovens
Para o professor, isso também reflete o cenário econômico herdado pelos mais jovens: "O mundo está muito caro. Para sobreviver e ganhar dinheiro, eles passaram a se envolver nessa conversa entre si e com qualquer pessoa disposta a conversar, de outras gerações inclusive, para aprender a navegar por essas águas turbulentas".
É o que também aponta a planejadora financeira Priscilla Mundim. Para ela, no país, a migração da ostentação digital para conteúdos mais autênticos é motivada, sobretudo, pelo cenário de endividamento das famílias brasileiras.
"A superexposição, o luxo, carro, casas, viagens, não têm combinado com o padrão de vida do brasileiro", afirma Mundim.
"Estamos no momento de maior endividamento de toda a história, e isso é um fator real dentro das famílias. Mesmo quem está em dia com todos os contratos tem um comprometimento elevado do orçamento mensal. Por isso, aquele consumismo hoje gera menos identificação entre os jovens", completa.
"Quando encontramos vozes reais e genuínas, a conexão e a empatia com quem está do outro lado com certeza vai ser maior e isso acaba aproximando as pessoas", acrescenta a planejadora.
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Uma geração com menos perspectiva de ascensão social
Enquanto os jovens usam as redes para desabafar sobre a própria situação financeira, pesquisas apontam o peso da crise do custo de vida sobre as gerações mais novas — e a percepção de que dificilmente atingirão o mesmo patamar social dos pais, seja na compra da casa própria, do carro ou em outras conquistas.
Um levantamento da consultoria Deloitte com mais de 22 mil pessoas da geração Z e da geração millennial em 44 países mostrou que o custo de vida é a principal preocupação de ambos os grupos, à frente de temas como criminalidade, desemprego e geopolítica.
Segundo a mesma pesquisa, 51% da geração Z e 40% dos millennials afirmam não ter condições financeiras de comprar um imóvel.
Um estudo de 2026 do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, conduzido pelos pesquisadores Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, comparou as condições econômicas e sociais da geração X (nascidos entre 1965 e 1980) e da geração millennial (1981–1996) aos 30 anos de idade.
O levantamento mostrou que a geração millennial chega à vida adulta com renda maior e mais acesso à educação do que a geração anterior teve na mesma idade, mas esse avanço não se traduziu em melhoria real nas condições de vida.
Os autores chamam esse fenômeno de ausência de "mobilidade intergeracional plena", indicador que mede a probabilidade de os filhos superarem a renda real dos pais.
O fim do tabu sobre o 'fracasso financeiro'?
Para a parcela dos jovens que escolhem compartilhar os relatos, mostrar vulnerabilidades financeiras virou uma forma de trocar o sentimento de culpa pelo endividamento por um caminho para a resolução e até para encontrar jovens em situações similares.
A ideia é mostrar "a vida real", que inclui contratempos financeiros, e não mais a ideia de ostentação ou vida inatingível.
"Cheguei a dever para agiota, bancos, tudo que vocês imaginarem. Juntando tudo, dava mais de R$ 150 mil. Hoje eu não devo isso tudo, mas ainda devo uma quantidade grande", diz outro vídeo do Tiktok de uma usuária chamada Jardielly.
Dados do Mapa da Inadimplência da Serasa referentes a maio deste ano mostram que dos 83,5 milhões de brasileiros inadimplentes, 11% tinham entre 18 e 25 anos.
Embora o percentual de jovens inadimplentes nessa faixa etária tenha oscilado pouco, o valor médio das dívidas desse grupo aumentou de R$ 2 mil em maio de 2020 para R$ 3,6 mil em maio de 2026, segundo a Serasa.
Riscos e benefícios de expor as finanças nas redes
Uma pesquisa do Santander no Reino Unido com 2 mil jovens de 18 a 21 anos mostrou que quase um terço deles (31%) recorre a influenciadores digitais em busca de orientação financeira.
Embora a conversa sobre dinheiro tenha migrado das famílias para as plataformas digitais — e se ampliado para temas como endividamento e planejamento orçamentário —, especialistas alertam para os riscos de se informar sobre o tema nas redes sociais.
"Uma das coisas que me preocupa como educador é: você está seguindo o conselho correto? Algumas dessas postagens ou personalidades das redes sociais não precisam necessariamente seguir restrições porque não estão atuando como conselheiros pessoais de ninguém. Portanto, há muita informação disponível que pode ser correta para algumas pessoas, mas não para todas", diz o professor.
Para a planejadora financeira, esse tipo de exposição tem dois efeitos. O primeiro é positivo: ajuda o público a perceber que dificuldades financeiras são um problema real. O segundo é o risco de normalizar o endividamento ou usá-lo como justificativa para negligenciar as próprias finanças.





