O cheiro do polvilho espalhado pela casa, os fornos acesos desde cedo e as quitandas feitas à mão fazem parte da rotina de Conceição dos Ouros, no Sul de Minas Gerais. Conhecida como a “Capital Nacional do Polvilho”, a cidade de cerca de 12 mil habitantes construiu a própria identidade em torno da produção artesanal, tradição que atravessa gerações, sustenta famílias e hoje também impulsiona o turismo e pequenos negócios.
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Segundo dados do IBGE, o município produz cerca de 15 mil toneladas de mandioca por ano, em uma área plantada superior a 405 hectares. Já o Sebrae Minas aponta que mais de 30 fábricas artesanais de polvilho funcionam na cidade, mantendo viva uma cadeia produtiva que vai do campo às quitandas e aos pratos criativos servidos a turistas.
Essa história começa dentro das casas. Em muitas delas, o polvilho sempre esteve presente nas mesas e nas memórias familiares, como na vida de Maria Rita Ribeiro de Souza, a Tia Rita, referência local na produção de sequilhos feitos com fécula, ovos caipiras, manteiga e leite gordo.
Entre fornos e quitandas, polvilho sustenta histórias, renda e identidade em cidade do Sul de Minas
Acervo Pessoal
“Lembro da minha mãe fazendo biscoito assado, biscoito frito, pastel e pão de queijo. Éramos 17 irmãos e todos gostávamos de nos reunir no café da manhã e da tarde para comer e ajudar minha mãe a fazer as quitandas”, contou.
A produção começou como complemento de renda, mas ganhou reconhecimento pelo sabor e pela fidelidade às receitas tradicionais. Para Tia Rita, ver o interesse de visitantes e das novas gerações representa continuidade.
“Me sinto realizada. É como se estivéssemos resgatando o tempo que passou. Representa tudo para mim, desde que me conheço por gente só víamos polvilho nas redondezas. Me sinto próxima da minha mãe, dos meus irmãos e emocionada em poder passar adiante os sabores e receitas da minha infância”, afirmou.
Tradição que também nasce no campo Na zona rural, a produção artesanal é, além de herança cultural, fonte de autonomia e renda. Na comunidade da Cachoeira, a Associação das Biscoiteiras de Ouros reúne mulheres que transformam receitas à base de polvilho em biscoitos, quitandas e outras iguarias típicas mineiras.
Integradas à Rota do Polvilho, elas recebem visitantes, apresentam o processo artesanal e promovem degustações. Entre elas está Angélica Maria de Carvalho Prado. “Participar do turismo abriu portas. Hoje, além de mostrar nossa cultura, isso também se tornou uma fonte de renda e trouxe mais autonomia para a gente”, relatou.
Entre fornos e quitandas, polvilho sustenta histórias, renda e identidade em cidade do Sul de Minas
Arquivo Pessoal
Segundo Angélica, o trabalho coletivo foi essencial para consolidar a atividade. “A gente está junto há 10 anos. No começo, trabalhava fora e vinha para a roça, mas depois conseguimos montar nossa própria cozinha com apoio da prefeitura. Hoje temos uma agroindústria e seguimos trabalhando juntas”, afirmou.
“É uma forma de preservar o que aprendemos com nossos pais e avós”, completou.
Produção artesanal resiste à modernização Mesmo com a modernização da indústria, Conceição dos Ouros segue como referência nacional na produção de polvilho azedo. O processo mantém etapas tradicionais, como a fermentação natural e a secagem ao sol, responsáveis pelas características do produto.
É o caso da empresa Maxmil, que atua há mais de 30 anos no setor e nasceu da tradição familiar ligada à mandioca. Ao longo do tempo, a empresa investiu em tecnologia e controle de qualidade, mas preservou práticas artesanais.
“O polvilho azedo é um produto muito característico da nossa região e possui um processo natural e artesanal”, explicou Matheus Freitas, engenheiro químico e integrante da gestão da empresa. “Mesmo com a modernização da indústria, fazemos questão de manter etapas fundamentais dessa tradição.” Entre fornos e quitandas, polvilho sustenta histórias, renda e identidade em cidade do Sul de Minas
Acervo Pessoal
No meio desse movimento de valorização cultural, a tradição passou também a ser vista como estratégia de desenvolvimento. Segundo o prefeito Luís Fernando Rosa de Castro, a cidade aposta na inovação gastronómica e no turismo para ampliar oportunidades económicas.
“O polvilho já fazia parte da nossa história. O que fizemos foi transformar essa tradição em uma experiência capaz de gerar renda e turismo”, afirmou.
Polvilho além da quitanda Com apoio do Sebrae Minas, desde 2021 empreendedores locais passaram a receber capacitações voltadas ao turismo e à gastronomia. A ideia era mostrar que o polvilho poderia ir além do produto tradicional e se tornar um diferencial para pequenos negócios.
“Percebemos que o polvilho já fazia parte da cultura e da economia local, mas também tinha potencial para gerar novas oportunidades de renda e fortalecer pequenos negócios ligados ao turismo”, explicou a analista do Sebrae Minas, Myrian Sousa.
Entre os exemplos está o taco de polvilho criado por Sandro Maciel Mendes. A receita surgiu após a participação dele em um dos cursos oferecidos pelo Sebrae. “O taco de polvilho surgiu depois do curso. A partir dele comecei a criar receitas para os recheios”, contou. Segundo ele, a procura por experiências gastronómicas aumentou e se tornou uma importante fonte de renda.
Entre fornos e quitandas, polvilho sustenta histórias, renda e identidade em cidade do Sul de Minas
Acervo Pessoal
Outra receita que chamou a atenção foi o bolo de pão de queijo com linguiça, criado por Leila Cristina Barbosa Carvalho. “A ideia do bolo de pão de queijo veio justamente do desafio de ressignificar sabores e texturas que as pessoas já conheciam”, disse. A receita conquistou o segundo lugar no concurso gastronómico do festival.
Rota do Polvilho e reconhecimento Criada há cerca de dois anos, a Rota do Polvilho atrai, em média, 280 turistas por ano e permite acompanhar todas as etapas da produção, do cultivo da mandioca às quitandas. Em 2025, essa herança ganhou reconhecimento institucional: um projeto de lei passou a tramitar na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para transformar o modo artesanal de fazer polvilho em patrimônio cultural de relevante interesse do estado.
Entre fornos e quitandas, polvilho sustenta histórias, renda e identidade em cidade do Sul de Minas
Arquivo Pessoal
A prefeitura também trabalha na criação do Memorial do Polvilho, voltado à preservação da história local. Mesmo com novas receitas, festivais e turistas, o polvilho segue com o mesmo significado para quem sempre conviveu com ele.
“Quando uma tradição é passada de geração em geração, ela nunca deixa de existir”, resumiu Tia Rita.





