Chef Renata Vanzetto fala sobre furtos frequentes em seus restaurantes em SP
A denúncia da chef Renata Vanzetto sobre furtos frequentes em seus restaurantes em São Paulo, feita em vídeos publicados nas suas redes sociais em maio deste ano, chamou atenção para uma prática que, segundo profissionais do setor, é mais comum do que parece.
Nos vídeos, Renata relatou que clientes já levaram itens como talheres, pratos, livros, cinzeiros, porta-contas e até luminárias de mesa. Segundo a chef, que comanda 11 estabelecimentos, os furtos acontecem com frequência mesmo sendo em locais de alto padrão.
"Vocês sabiam que quanto mais restaurante eu tenho, quanto mais clientes eu atendo, mais roubo a gente tem? Mais talher some, mais prato some [.] As pessoas roubam. É assustador, é triste. Pessoas que vão em restaurante caro e tem condições, e não estão furtando por questões de sobrevivência, que chegam num carrão, que pedem um vinho caro e enfia quatro talheres de prata na bolsa", desabafou.
Lisandro estima que cerca de 100 unidades tenham sido furtadas. Para reduzir as perdas, a equipe precisou alterar a dinâmica de atendimento. Segundo ele, a adaptação passou a fazer parte da rotina para evitar novos prejuízos.
“Eles são pequenininhos, muito fáceis de levar e muito bonitinhos. Então, agora faz parte do treinamento dos garçons que, na hora que vai oferecer a sobremesa, ele limpa a mesa e tira o saleiro e o pimenteiro."
Chef Lisandro Laurett
Divulgação
Outro caso que chamou a atenção do chef foi o furto de saboneteiras de inox instaladas nos banheiros dos restaurantes. “Era uma saboneteira pequena, de inox escovado, superbonita. Ficava presa em um suporte na parede. Ela foi levada mais de uma vez, o que fez com que a gente trocasse.” Apesar dos casos recorrentes, o chef afirma que nunca registrou boletim de ocorrência. Para ele, a solução está em se adaptar ao cenário. “Você vai chegar à delegacia por causa de um guardanapo, por causa de um talher, por causa de uma saboneteira? Não vai resolver. Então você vai adaptando e colocando coisas que as pessoas não querem ter em casa.”
Na avaliação de Lisandro, há casos em que o cliente enxerga o furto como uma espécie de lembrança ou brincadeira, sem considerar o prejuízo causado ao estabelecimento. Ele, no entanto, diferencia esses episódios de situações em que há intenção deliberada de causar prejuízo, como no furto de garrafas de vinho.
“Eu tento dizer que o brasileiro tem um pouco essa cultura de um furto quase desqualificado, no sentido de que é uma brincadeira, uma diversão. A pessoa não pensa de fato no que está fazendo. Mas eu vejo que quem leva uma garrafa de vinho, por exemplo, é pior porque a gente está falando de uma intenção única e exclusiva de lesar [o estabelecimento]."
Canecas, baldes de gelo e potinho de água para pet
Caneca do drink Moscow Mule é um dos objetos furtados de restaurantes
Divulgação
Rafaella Wallner é sócia de um bar junto com o marido e afirma que furtos também fazem parte da rotina do estabelecimento, que funciona há 20 anos no Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Segundo ela, diversos itens já foram levados por clientes ao longo dos anos.
“São diversos os itens que já foram furtados, principalmente copos em formatos diferentes e copinhos de dose, as canecas de cobre do Moscow Mule [drinque à base de vodca, limão e gengibre], almofadas, mantinhas, pois no inverno levamos para nossos cliente, cinzeiro, saleiro, pimenta, até potinho de água para cachorro já levaram. Podia passar a noite listando tudo", ressaltou.
Entre os casos que mais chamaram a atenção, Rafaela cita o furto de um balde de cerveja. “O que mais chamou a atenção foi quando levaram um balde, nosso gerente viu, e a pessoa negou. Um balde de cerveja. Gigante. Não tinha nem como disfarçar.”
Segundo a empresária, a principal medida adotada foi orientar a equipe a redobrar a atenção.
“Orientamos nossos colaboradores a ficarem mais atentos. Mas nenhuma medida além dessa foi adotada. Nunca são feitas acusações ou revistam a bolsa dos clientes. Mesmo a pessoa errada, ela não vai aceitar a abordagem numa boa."
Rafaella afirma que, quando a situação é muito evidente, a equipe tenta abordar o cliente de forma cuidadosa. “Por exemplo, a pessoa indo embora com uma mantinha, eles abordam de forma bem simples, e a pessoa devolve normalmente.”
O que diz a Abrasel
Setor de bares e restaurantes Divulgação/Abrasel
Segundo Gabriel Pinheiro, líder executivo da Abrasel, as redes sociais popularizaram recentemente como "furto fofo" quando o cliente leva para casa um item de restaurante, como a caneca de cobre de um Moscow Mule, um ramequim de cerâmica, um saleiro ou um talher de design diferente.
"Muitas vezes, isso não nasce de uma má intenção, mas do desejo do cliente de estender a experiência. Ele acha a peça linda, a encara como uma 'lembrancinha' inofensiva daquela noite e a coloca na bolsa. O problema é que precisamos traduzir essa brincadeira para a realidade do balanço financeiro", afirmou.
Conforme Gabriel, na economia real de um bar ou restaurante, as margens de lucro são muito estreitas, historicamente na casa de um dígito. Quando um item que custa R$ 40 ou R$ 60 some da mesa, o custo para repor esta única peça muitas vezes engole 100% do lucro que o estabelecimento teve com aquela mesa inteira.
"Ou seja, o empresário vendeu, atendeu bem, mas fechou a conta no prejuízo", enfatizou.
Ele ressalta que a Abrasel não tem uma estatística isolada apenas para esses casos, mas tem ouvido os associados e os chefs, e notou que é um problema diário e crescente.
"Com a cultura das redes sociais, onde exibir o item levado do restaurante virou uma espécie de tendência ou validação de 'estive naquele lugar da moda', o volume de reposição disparou, especialmente nas casas focadas em coquetelaria e alta gastronomia."
Mesa posta em restaurante da Zona Sul de São Paulo
Fabiano Correia/ g1/Arquivo





