A Irlanda assumiu a Presidência rotativa do Conselho da União Europeia por seis meses nesta quarta-feira (1º/7). O Taoiseach (primeiro-ministro) Micheál Martin anunciou, no Castelo de Dublin, o programa que consiste em priorizar três pilares no bloco: competitividade, valores e segurança.
Entre os principais desafios estão a negociação do próximo orçamento do bloco até o fim do ano e a tentativa de estabilizar as relações com os Estados Unidos.
Mundo União Europeia anuncia 266 milhões de euros em investimentos no Brasil Vida & Estilo União Europeia atualiza regras que protegem direitos dos passageiros aéreos Sob o mote “a força está na união”, a Irlanda assume o comando do bloco europeu em um momento crítico, marcado por desafios geopolíticos e econômicos intensos. Já neste primeiro dia da presidência irlandesa, Bruxelas dobra a tarifa de importação do aço para 50%, para proteger a indústria siderúrgica europeia.
Na terça-feira (30/6), na Cúpula do Mercosul realizada no Paraguai, o anfitrião da reunião criticou as “assimetrias” do acordo de livre comércio com a União Europeia. A distribuição de cotas de exportação com preferências tarifárias no bloco regional para os produtos destinados à UE é um peso sobre os ombros do Mercosul, que precisa decidir como repartir esse volume entre seus países integrantes.
Nesse cenário de tensões comerciais e negociações delicadas com parceiros estratégicos, a Irlanda está comprometida a “entregar” uma presidência bem-sucedida, e a previsão de gastos é bastante elevada, em torno de €300 milhões.
Quase metade desse orçamento deve ser destinada a protocolos de segurança, já que o país é neutro e precisa reforçar sua capacidade para receber uma série de visitas de alto nível. Em novembro, por exemplo, líderes de 47 países devem participar de uma reunião da Comunidade Política Europeia em território irlandês.
Desafios
As negociações sobre o próximo Quadro Financeiro Plurianual, ou seja, o orçamento do bloco para o período de 2028 a 2034, são um dos grandes desafios desta que é a oitava vez em que a Irlanda assume a presidência rotativa da UE.
Dublin terá de intermediar negociações ferozes que opõem os países que menos gastam aos maiores contribuintes comunitários.
Os irlandeses deverão preparar uma “caixa de negociação” a ser discutida pelos líderes do bloco em outubro, com o objetivo de alcançar um acordo global até dezembro.
A proposta orçamentária da Comissão Europeia, estimada em quase €2 trilhões, orienta os principais investimentos do bloco – da agricultura à defesa – para os próximos sete anos.
Outro dossiê sensível será o possível alargamento da União Europeia. Montenegro é o país com mais chances de aderir ao seleto grupo de Bruxelas, enquanto Albânia, Moldávia e Ucrânia também devem registrar progressos nas negociações. No que se refere à guerra na Ucrânia, a Irlanda deve manter o apoio à Kiev e pode anunciar o 21º pacote de sanções contra a Rússia.
Mediação
Dublin deve tentar usar a tradicional ligação com os EUA para restabelecer as relações entre Washington e Bruxelas, estremecidas pela administração Trump. “Existe uma boa vontade em relação à Irlanda nos Estados Unidos; por isso, talvez possamos maximizar os nossos canais com a Casa Branca”, afirmou a embaixadora da Irlanda junto à UE, Aingeal O’Donoghue.
Os irlandeses querem mais estabilidade na relação transatlântica, “mais progressos” nas trocas comerciais e soluções para questões relacionadas à indústria farmacêutica.
Gigantes do setor, como Pfizer, Eli Lilly, AstraZeneca, Novartis e Sanofi, operam em solo irlandês e geram milhares de empregos.
Nas últimas décadas, o país se consolidou como um dos maiores hubs farmacêuticos e de biotecnologia do mundo. Recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, criticou a Irlanda por atrair empresas norte-americanas com baixos impostos e “roubar” receitas fiscais que, segundo ele, deveriam ter sido pagas ao Tesouro dos EUA.
Aliás, a partir desta quarta-feira, dia 1º, Bruxelas vai eliminar tarifas sobre produtos americanos, em virtude do acordo firmado no ano passado com Washington.
O acordo estabelece tarifas de, no máximo, 15% sobre a maioria das exportações da União Europeia para os EUA e taxas zero para produtos industrializados americanos que entrarem no bloco europeu.
Maior polo de inovação da UE
Tecnologia é uma área vital para a Irlanda, e o país ficou conhecido como o “Vale do Silício da Europa” por abrigar a sede europeia de gigantes do setor, atraídos por incentivos fiscais, como Google, Meta, Apple, Microsoft e OpenAI, entre outros.
No segundo semestre deste ano, quando os irlandeses estiverem no comando do bloco, um impasse deve ganhar força: as regras de tecnologia e inteligência artificial (IA) da União Europeia estarão sendo renegociadas.
E, segundo o jornal britânico The Guardian, a Irlanda, por seu peso no setor e pelos interesses econômicos envolvidos, pode adotar uma postura mais cautelosa nessas discussões, evitando avançar em propostas que ampliem a soberania tecnológica e digital do bloco.
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