🔎A disforia de gênero é o sofrimento ou desconforto que algumas pessoas podem sentir quando há uma diferença entre o gênero com o qual se identificam e características do corpo ou o gênero atribuído ao nascer. Esse sentimento pode estar relacionado a aspectos físicos, sociais ou à forma como a pessoa é percebida pelos outros. Nem todas as pessoas trans vivenciam disforia de gênero, e a experiência varia de pessoa para pessoa.
Depois desse período, três anos mais tarde, o casal conseguiu engravidar. Gisele conta que a confirmação da gravidez veio de uma forma inesperada e que não imaginava que Daniel conseguiria engravidar tão rapidamente.
"A gente combinou de fazer o exame de urina juntos. Só que aí teve um dia em que o Daniel, com a ansiedade muito alta, foi à farmácia e fez. Eu estava trabalhando, ele fez, e aí deu positivo. Aí ele pegou, comprou uma fralda, embrulhou a fralda como um presente, colou o exame de urina e fez uma surpresa, falou que tinha um presente para mim. Quando eu abri, era uma fralda e o exame positivo. Então, foi uma emoção muito grande. Eu não esperava que ele fosse engravidar tão cedo", explicou.
Daniel iniciou o pré-natal em Campina Grande, mas o casal passou a buscar uma unidade que oferecesse um ambiente de maior acolhimento e segurança para o nascimento de Iara. Foi nesse processo que eles conheceram o Hospital da Mulher, em João Pessoa, onde a bebê nasceu em junho de 2026.
A escolha pela unidade também levou em consideração o atendimento oferecido a pessoas trans. O casal descobriu que o hospital realizava cirurgias de mastectomia em homens trans, o que indicava uma equipe preparada para acolher esse público. A experiência positiva relatada por uma amiga também ajudou na decisão pela maternidade, inaugurada há pouco mais de um ano.
Com o apoio do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, em João Pessoa, Daniel conseguiu uma vaga e transferiu o pré-natal para o Hospital da Mulher no oitavo mês de gestação.
"Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer”, afirmou o pai de Iara.
Os desafios
Daniel e Gisele durante gestação
Gisele Castro/Arquivo pessoal
Durante a gestação, Daniel Valentim recebeu o diagnóstico de trombose, o que fez com que a gravidez fosse considerada de risco. Além da preocupação com a saúde, ele relata que as mudanças físicas provocadas pela gestação e pela interrupção da terapia hormonal intensificaram a disforia de gênero, trazendo impactos emocionais ao longo do período.
“Eu não conseguia me olhar no espelho porque eu via meu quadril mais largo, a barriga crescendo. Mesmo sendo mastectomizado, o meu peito cresceu, inclusive vou ter que refazer essa cirurgia, porque cresceu bastante, e chegou o momento da situação em que a barriga estava grande e eu não conseguia mais sair de casa pelos olhares”, disse o estudante de agronomia.
Com a gravidez e a pausa no uso dos hormônios, características físicas começaram a se modificar, o que gerou desconforto para Daniel. Ele conta que encontrava forças ao lembrar que as mudanças faziam parte do caminho para a chegada da filha.
“Quando eu olhava para o meu corpo, que eu via o quadril alargando, o peito crescendo, eu olhava para a barriga e fazia assim: ‘é pela minha filha, isso vai passar, depois eu resolvo isso’. Então, até me emociono quando eu falo essas coisas”, relatou.
Gisele Castro também precisou interromper a terapia hormonal após mais de 15 anos de tratamento. Segundo ela, as alterações provocadas pelo uso dos hormônios podem ser acompanhadas e revertidas com acompanhamento médico.
“O sistema reprodutor se modifica após a utilização dos hormônios, mas essa modificação pode ser revertida a partir de um acompanhamento médico; foi o que aconteceu com a gente. Eu tinha mais de 15 anos de hormonioterapia e consegui reverter", explicou.
Além das mudanças físicas, Daniel relata que enfrentou situações de estranhamento durante a gestação. Segundo ele, os olhares de curiosidade e preconceito em espaços públicos marcaram o período e evidenciaram os desafios de viver uma gravidez como homem trans.
Daniel também relata que enfrentou situações de estranhamento durante a gestação. Segundo ele, olhares de curiosidade e preconceito em espaços públicos marcaram esse período e evidenciaram os desafios vividos por um homem trans gestante.
“Eu me recordo de uma situação em que eu fui comprar pão e a barriga já estava bem aparente. E aí a moça da padaria olhou para mim, olhou para a barriga e fez um olhar bem assim estranho. Isso me atravessou de uma forma grande”, disse.
Para Gisele, compartilhar a história da família também é uma forma de mostrar que diferentes configurações familiares podem oferecer amor, cuidado e segurança para uma criança. Ela afirma que a construção de uma família está ligada ao respeito e ao vínculo entre as pessoas.
"Então, às vezes, você tem um casal que a gente chama de heteronormativo, mas que tem violência, que tem traição, que tem várias coisas ruins e que deixa a desejar no sentido do amor, no sentido da fraternidade, no sentido da união e do respeito. E que a gente quer mostrar que não precisa ser heterossexual e cis, homem cis e mulher cis, para ter uma família", finalizou.
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