Boias, robôs submersos e satélites: como cientistas medem o oceano para detectar o El Niño
Quando o Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos anunciou, no dia 14 de maio, que a chance de o El Niño se formar nos próximos meses subiu para 82%, esse número não veio de uma estimativa de qualquer.
Veio de uma rede de equipamentos espalhada pelo Oceano Pacífico e pelo resto dos mares do planeta: boias ancoradas a milhares de metros de profundidade, robôs submersos do tamanho de um extintor de incêndio e até mesmo satélites que, do alto da órbita da Terra, conseguem perceber variações de poucos centímetros no nível do mar.
E ele provocou uma seca devastadora na Indonésia e na Austrália, chuvas torrenciais no Peru e no Equador. Ao todo, prejuízos calculados em US$ 13 bilhões e milhares de mortes.
Rede internacional de boias é usada para monitorar o Oceano Pacífico e detectar sinais do El Niño.
NOAA
Em outras palavras, o fenômeno passou pela frente dos modelos climáticos como um trem sem maquinista.
Assim, essa constatação de que o mundo não tinha como enxergar em tempo real o que acontecia no Pacífico Equatorial deu origem, dentro da NOAA, a um projeto para ancorar boias permanentes ao longo da linha do equador.
Em janeiro de 1983, os pesquisadores instalaram então um primeiro protótipo de baixo custo, com termostato.
Ele era um equipamento rudimentar, que media apenas vento, temperatura do ar e temperatura da superfície do oceano. A partir daí, o modelo foi sendo gradualmente incrementado com novos sensores.
A oceanógrafa paulista Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), fez pós-doutorado entre 2005 e 2008 nos Estados Unidos, no Pacific Marine Environmental Laboratory (PMEL) da NOAA, em Seattle, onde trabalhou com Michael McPhaden, considerado o "pai" dessa rede de boias.
"De lá para cá, gradualmente, essa boia foi ficando cada vez mais incrementada", explica Regina ao g1.
Lançamento de uma boia da rede TAO, sistema mantido pela NOAA no Oceano Pacífico equatorial. As boias monitoram temperaturas e condições do oceano fundamentais para entender fenômenos como o El Niño e a La Niña.
NOAA
"Incrementada com sensores, tanto na parte aérea — que coleta várias variáveis da atmosfera — quanto na parte submersa, o que chamamos de mooring: uma linha que vai até o fundo do oceano com diversos sensores de temperatura e salinidade distribuídos ao longo da coluna d’água [ou seja, em diferentes profundidades do mar]".
"Outra característica fundamental dessas boias, segundo a pesquisadora, é que elas transmitiam dados via satélite em tempo real — algo que para os padrões da época era um avanço considerável.
Os protótipos foram testados em 1984, em resposta direta ao fiasco da previsão do El Niño anterior, e a rede foi sendo expandida até ficar completa em 1994. Antes disso, equipamentos oceanográficos costumavam gravar as medidas internamente, e os pesquisadores precisavam recuperar o aparelho meses ou anos depois para acessar os dados.
A previsão da chuva no Sudeste na próxima semana, os alertas de ciclones no Sul do Brasil, ondas de calor na Europa e até projeções agrícolas dependem, em algum nível, das informações medidas por essas boias, robôs e satélites.
Além do vandalismo, outro problema preocupa os pesquisadores atualmente: o custo para manter toda essa estrutura funcionando.
As campanhas de manutenção exigem navios, equipes especializadas e viagens que podem durar semanas em alto-mar. Ao mesmo tempo, parte das redes internacionais já enfrenta cortes de orçamento.
Para Regina, existe uma contradição nesse cenário.
Empresas privadas desenvolvem cada vez mais sistemas de previsão baseados em inteligência artificial, mas dependem justamente dos dados produzidos por uma infraestrutura pública global que agora começa a perder recursos.
"Em vez de a gente avançar, a gente vai voltar para trás, porque IA não faz milagre", resume a pesquisadora. "Você tem que alimentar e treinar a inteligência artificial com bons dados."
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