Especialistas em paleontologia e meteoritos fazem um relato detalhado do evento catastrófico que provocou mudanças instantâneas em nosso planeta e em sua atmosfera e acabou com cerca da metade de todas as espécies que viviam em nosso planeta.
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Uma grande Tyrannosaurus rex caminha entre as coníferas de seu território, farejando o ar. Ela detecta o cheiro da carcaça de um dinossauro com chifres, o Triceratops, do qual se alimentou ontem. Ela se aproxima e arranca mais alguns pedaços de carne, mas o cheiro é repugnante até mesmo para ela.
Ela desce até um lago para beber, e pequenos crocodilos e tartarugas correm para dentro da água. Mas ela mal os vê. Mais interessante é um dinossauro blindado, o Ankylosaurus, à espreita nas proximidades. Ela sabe, porém, que esse dinossauro não será uma presa fácil e ela não está desesperada o suficiente por comida para arriscar uma luta. Mal sabe ela, no entanto, que há perigos maiores a caminho. Ela olha para cima e vê uma luz brilhante descendo rapidamente do céu, acompanhada por ruídos fracos de estalos e chiados.
Nossa T. rex tem uma audição excelente para sons de baixa frequência e fica perturbada com as vibrações que consegue sentir. Mas sua perturbação dura apenas um momento. Em um instante, ela foi carbonizada, e seu mundo mudou para sempre.
Tudo isso aconteceu há 66 milhões de anos, quando um enorme asteroide atingiu a Terra na região que hoje é o Caribe. No final do período Cretáceo, o nível do mar era de 100 a 200 metros mais alto do que hoje, de modo que as margens do Caribe se estendiam bem para o que atualmente é o interior, sobre o leste do México e o sul dos Estados Unidos. O impacto ocorreu inteiramente dentro dessas águas.
O evento catastrófico provocou mudanças instantâneas em nosso planeta e em sua atmosfera e levou à extinção dos dinossauros e de cerca de metade das outras espécies da Terra. Mas como teria sido vivenciar um impacto tão gigantesco? O que você teria visto, ouvido ou cheirado? E como você teria morrido – ou sobrevivido?
Como especialistas em meteorítica e paleontologia, montamos uma linha do tempo detalhada, baseada em décadas de pesquisa, para levá-lo diretamente até quando isso tudo estava acontecendo. Então, vamos começar viajando no tempo até o último dia do Cretáceo.
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T-menos 1 dia
Tudo está calmo e o dia no Cretáceo transcorre normalmente. No que em breve será o ponto zero do impacto, o clima é agradavelmente quente, com um temperatura de cerca de 26°C, e úmido. Costuma ser sempre assim. Há cerca de uma semana, o asteroide só é visível à noite. Como a rocha espacial gigante está se dirigindo diretamente para a Terra, ela parece uma estrela imóvel. Não há uma dramática cauda, pois trata-se de um asteróide rochoso, e não de um cometa.
Houve poucos sinais de alerta no dia anterior ao impacto.
Reprodução Fantástico
Nas últimas 24 horas, a luz no céu se tornou visível durante o dia. Mas ainda parece uma estrela ou um planeta, ficando cada vez mais brilhante nas últimas horas antes do impacto.
T-0: o impacto
Se você estivesse por perto, teria primeiro presenciado um breve espetáculo de luzes e sons. Minutos ou segundos antes do impacto, você teria visto a bola de fogo brilhante e ouvido seus estalos ou chiados. Esse som crepitante é resultado do chamado efeito fotoacústico: a luz intensa da bola de fogo aquece o solo, que então aquece o ar acima dele, causando ondas de pressão, ou som.
Em seguida, um estrondo sônico ensurdecedor, que ocorre porque o asteroide está viajando mais rápido do que a velocidade do som. Mas o asteroide é tão grande, talvez com 10 km de diâmetro, que quase certamente atinge o solo antes que qualquer ser vivo próximo à zona de impacto tenha tempo de correr para se proteger.
A enorme energia do asteroide forma uma cratera por meio de uma série de processos que, juntos, levam apenas alguns segundos para se suceder. À medida que o asteroide colide com a superfície, sua energia cinética (de movimento) é instantaneamente transferida para a superfície como uma combinação de energia cinética, térmica (calor) e sísmica (liberada durante terremotos). Isso resulta em uma série de ondas de choque que aquecem e comprimem tanto o asteroide quanto seu alvo.
À medida que as ondas de choque se propagam, as rochas se fraturam, se quebram e são ejetadas, produzindo uma depressão em forma de tigela, ou cavidade transitória, cerca de dez segundos após o impacto. O calor e a compressão também derretem e vaporizam grandes volumes de material, incluindo o próprio asteroide, liberando vapor incandescente (sua temperatura é superior a 10.000K, ou 9.726,85°C).
Nos segundos seguintes, a cavidade aumenta de tamanho até atingir muitas vezes o diâmetro do asteroide original. Simulações sugerem que, cerca de 20 segundos após o impacto, a cavidade transitória tem pelo menos 30 km de profundidade – mais profunda do que a maior profundidade atualmente conhecida na Terra, o vale de Challenger Deep, com 11 km, parte da Fossa das Marianas, no Oceano Pacífico. A borda da cratera tem mais de 20 km de altura – mais do que o dobro da altura do Monte Everest, de cerca de 8.900 m.
Mas essa enorme formação permanece menos de um minuto antes de começar a desmoronar. Em até três minutos após o impacto, o centro da cratera se elevou para formar um pico de vários quilômetros de altura. O pico também dura pouco em pé, apenas cerca de dois minutos, antes de desmoronar de volta para dentro da cratera.
Seja um dinossauro ou um besouro rola-bosta, se você estivesse perto da cavidade transitória teria sido incinerado instantaneamente pela explosão. Mas mesmo que estivesse a até 2.000 km do epicentro, provavelmente teria morrido rapidamente devido à radiação térmica e aos ventos supersônicos que agora se espalham a partir do local do impacto.
T+5 minutos
Cinco minutos após o impacto, os ventos se “acalmaram” para a intensidade de um furacão de categoria 5, arrasando tudo em um raio de cerca de 1.500 km do impacto. Isto é, destruindo tudo que ainda não tenha sido queimado. As temperaturas atmosféricas na região sobem para mais de 500 K (226,85°C). Isso seria como estar dentro de um forno – causando queimaduras, choque térmico e morte. Madeira, plantas e matéria vegetal se inflamam, criando incêndios por toda parte.
Como o asteroide atingiu o mar, a atmosfera também está repleta de vapor superaquecido, tornando os ventos com força de furacão ainda mais letais.
Em seguida vêm os maremotos, provocados pelas vastas quantidades de rochas e água deslocadas. Esses megatsunamis de 100 metros de altura atingem primeiro as margens do que hoje é o Golfo do México, engolindo a terra antes de depositar enormes quantidades de detritos à medida que recuam.
Reconstrução em ilustração de como era a vida da nova dos dinossauros
Natural History Museum, London, artwork by Mark Witton
A esse ponto, a cratera já quase atingiu suas dimensões finais – 180 km de diâmetro e 20 km de profundidade. Mas abrir um enorme buraco no solo não é o único resultado do impacto. Todas as rochas e o vapor deslocados durante a colisão precisam ir para algum lugar. Vários locais na América do Norte mostram que blocos de detritos do impacto com um metro de comprimento foram lançados a distâncias de centenas de quilômetros.
Portanto, se você estivesse a 2.000 km ou 3.000 km do epicentro e sobrevivesse aos primeiros segundos, provavelmente morreria por superaquecimento, terremotos, furacões, incêndios, inundações causadas por tsunamis ou ao ser atingido por material derretido e lançado pelo impacto.
Mas o que está acontecendo muito mais longe? Nos primeiros cinco minutos após o impacto, os dinossauros que vagavam pelas florestas do Cretáceo do que hoje é a China ou a Nova Zelândia permanecem, até então, ilesos.
Mas não demorará muito para que isso mude.
T+1 hora
As ondas de choque na terra e no mar são apenas pequenos transtornos em comparação com o fogo que ainda irradia do céu. Parte da energia do impacto foi transferida para a atmosfera, aquecendo o ar e a poeira até a incandescência.
Uma hora após o impacto, um cinturão de poeira já circundou a Terra. Depósitos de gotículas derretidas solidificadas (esferas de impacto) e grãos minerais foram encontrados em inúmeros locais desde a Nova Zelândia, no sul, até a Dinamarca, no norte. Nesses locais, você não teria percebido os tsunamis nas Américas nem os incêndios florestais, mas o céu certamente teria começado a escurecer.
T+1 dia
A esta altura, enormes tsunamis estão se movendo para o leste pelo Atlântico e para o oeste pelo Pacífico, entrando no Oceano Índico por ambos os lados.
Eles ainda têm cerca de 50 m de altura – causando morte e destruição em muitos litorais ao redor do mundo. Em comparação, o tsunami registrado logo após o Natal de 2004 no sudeste asiático atingiu alturas de até 30 metros. Os tsunamis matam peixes e vida marinha que são levados para a costa e depois depositados em terra, assim como matam árvores costeiras e afogam animais terrestres. Mas os tsunamis vão diminuindo gradualmente e provavelmente não exterminam nenhuma espécie inteira – pelo menos por si só.
Os ventos com força de furacão também diminuíram, mas ventos com intensidade de tempestade tropical ainda estão levantando detritos e causando mais caos e destruição nas áreas afetadas pelo tsunami. O céu em chamas também está provocando incêndios florestais em todo o mundo – o que, por sua vez, leva cada vez mais fuligem para a atmosfera. A marca de fuligem desses incêndios florestais foi encontrada depositada como partículas de carbono em sedimentos da chamada fronteira geológica K-Pg – uma fina camada de argila com 66 milhões de anos.
Mais adiante, no que hoje é a Europa e a Ásia, os céus continuam a se encher de poeira e fuligem, como em todos os outros lugares do planeta. As temperaturas começam a cair à medida que a luz solar é bloqueada. Árvores e plantas em geral, incluindo o fitoplâncton nos oceanos, entram em dormência como se fosse inverno, incapazes de realizar a fotossíntese. Quaisquer animais que dependam de condições de clima mas quentes acabam morrendo.
T+1 semana
Está ficando cada vez mais escuro. Simulações da radiação solar que atinge a superfície da Terra após o impacto indicam que, após cerca de uma semana, o fluxo solar (a quantidade de calor e luz recebida em uma determinada área) é de apenas um milésimo do que era antes do impacto. Isso é causado pelo bloqueio do fluxo pelas partículas de poeira e fuligem na atmosfera.
A diminuição contínua dos níveis de luz é acompanhada por uma queda global nas temperaturas da superfície de pelo menos 5°C. Isso significa que a maioria dos dinossauros e outros grandes répteis voadores e nadadores provavelmente morrem congelados ao longo dessa primeira semana (répteis menores, com metabolismos mais lentos ou dietas mais flexíveis, poderiam sobreviver por mais tempo). O resfriamento das temperaturas e a cobertura de nuvens também levam à chuva. Mas não qualquer chuva. Tempestades de chuva ácida caem sobre a Terra.
Dois mecanismos distintos geram a chuva ácida. O primeiro se deve à geologia da região do impacto. O asteroide atingiu uma área de sedimentos ricos em enxofre, que se vaporizou e fez com que óxidos de enxofre (compostos gasosos ácidos e pungentes formados por enxofre e oxigênio) fizessem parte da pluma de plasma lançada na atmosfera. Em segundo lugar, a energia da colisão foi suficiente para transformar nitrogênio e oxigênio em óxidos de nitrogênio – gases altamente reativos que podem formar névoa.
A queda da temperatura acaba permitindo que o vapor de água se condense em gotas, e os óxidos de enxofre e nitrogênio se dissolvem para formar ácidos sulfúrico e nítrico. Isso é suficiente para gerar uma rápida queda no pH. Modelos iniciais sugerem que o pH da chuva poderia ser tão baixo quanto 1 – a mesma acidez do ácido de bateria.





