Participação de adolescentes nas urnas tem reduzido ao longo dos últimos 32 anos em Uberlândia
Heloise Hamada/G1
Enquanto o número de eleitores idosos cresce em Uberaba, os mais jovens seguem na direção oposta. O grupo formado por adolescentes de 16 e 17 anos, que têm permissão para votar, mas ainda não são obrigados a participar do pleito, tem reduzido ao longo dos últimos 32 anos.
O movimento chama atenção porque ocorre justamente em meio ao crescimento geral do eleitorado na cidade. Enquanto o número total de votantes dobrou em Uberaba, a participação dos adolescentes encolheu.
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Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que apresenta o eleitorado por faixa etária a partir de 1994, mostram que para as votações de 2026, Uberaba terá:
1.420 eleitores com menos de 18 anos,
que representam 0,6% do eleitorado,
e 0,4% da população uberabense.
O número absoluto é quatro vezes menor que o quantitativo dos adolescente na mesma faixa etária cadastrados para votar em 1994, quando esse público somava:
5.279 eleitores com menos de 18 anos,
que representam 3,3% do eleitorado,
e 2,5% da população.
Representação dos adolescente no eleitorado de Uberaba no últimos 32 anos
As bases de dados para comparações com a população são das estimativas anuais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Nesta semana, a dois meses do primeiro turno das Eleições 2026, o g1 publica uma série de reportagens sobre o perfil do eleitorado de Uberaba com análises de especialistas sobre as mudanças no perfil dos eleitores, como:
o crescimento do eleitorado mais acelerado que da população;
o envelhecimento dos eleitores,
a participação dos jovens, o peso do voto feminino
e o impacto das abstenções.
Quase 95% dos adolescente eleitores chegaram ao Ensino Médio
Quase 95% dos adolescentes eleitores em Uberaba chegaram ao Ensino Médio, de acordo com os dados do TSE. Sendo que 92,7% ainda estão cursando esta etapa e 2% já completaram.
Além disso, apenas 0,14% desse grupo é analfabeto. Por outro lado, 0,5% já ingressaram no Ensino Superior.
Escolaridade dos eleitores adolescentes em Uberaba
Adolescentes – e muitos eleitores – não conhecem a dinâmica dos cargos eletivos
Os números mostram que Uberaba está assistindo a uma mudança significativa no perfil dos eleitores. Enquanto o peso dos idosos cresce a cada eleição, os adolescentes de 16 e 17 anos ocupam um espaço cada vez menor nas urnas.
Para especialistas, o desafio não está apenas em convencer os jovens a votar, mas em fazê-los perceber que a política tem impacto direto em questões que já fazem parte do dia a dia deles, como educação, trabalho, tecnologia e perspectivas de futuro.
A socióloga e cientista política Alecilda Oliveira leciona sociologia para adolescentes do Ensino Médio e convive, diariamente, com a dificuldade em abordar política com os alunos. Segundo ela, um dos problemas é os eleitores não saberem como funcionam os três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
"Vejo uma grande confusão em saber o que os representantes políticos fazem e, às vezes, até uma rejeição dos adolescente em falar sobre a política. Confundem os papéis de prefeitos, governadores e presidente com os de vereadores, deputados estaduais e deputados federais. Não entendem o sistema bicameral, a questão do Senado ter mandatos de 8 anos, além do senador parecer uma figura mais distante. A gente precisa formar cidadãos que estejam mais conscientizados com o que é a participação política. E a escola é um caminho", explicou.
🔎O mandato de um senador no Brasil tem duração de 8 anos, o que corresponde a duas legislaturas (já que cada legislatura na Câmara e no Congresso dura 4 anos). A renovação parcial ocorre a cada 4 anos. Portanto, em uma eleição renova-se um terço das cadeiras: elege-se um senador por estado. Na eleição seguinte, renova-se dois terços: elege-se dois senadores por estado.
Desinteresse ou descrença?
Para a socióloga e cientista política Alecilda Oliveira, a redução da participação dos adolescentes nas eleições não pode ser explicada apenas por falta de interesse dos jovens. Segundo ela, há momentos históricos em que os adolescentes se sentem mais motivados a participar da política e outros em que prevalece a sensação de que o voto tem pouco impacto na vida cotidiana.
"Os jovens tendem a perguntar qual mudança direta aquilo vai provocar na vida deles. Quando não conseguem enxergar essa transformação, acabam entendendo que participar da eleição não é algo importante", afirmou a especialista.
A pesquisadora avalia que o cenário atual pode refletir uma espécie de desgaste da confiança nas instituições políticas, fazendo com que parte dos adolescentes não veja motivos para tirar o título eleitoral assim que completa 16 anos.
Apesar do recuo no número de adolescentes registrados para votar no pleito deste ano, o professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Moacir de Freitas Júnior relembra dos grandes e importantes movimentos jovens que ajudaram a mudar o rumo histórico e político do Brasil.
"Em todos os momentos políticos chave da história do Brasil a juventude se fez presente e foi a principal força. Então, é o contrário: mais vezes os jovens se fizeram presentes do que não. São bons exemplos: campanha 'O Petróleo é Nosso'; luta contra a ditadura militar; redemocratização; caras-pintadas; luta contra as privatizações; movimentos de 2013, entre muitos outros."
Campanha do 'Petróleo é Nosso': foi um grande movimento cívico e nacionalista ocorrido no Brasil entre o final da década de 1940 e 1953, que exigia o controle estatal da exploração e do refino do petróleo e culminou na criação da Petrobras.
Ditadura militar no Brasil: foi um regime autoritário que durou 21 anos, marcado pela cassação de direitos políticos, pela censura e pela repressão violenta aos opositores. O período começou em 31 de março de 1964, com o golpe que depôs o presidente João Goulart, e terminou em 15 de março de 1985, com a transição para governos civis.
Redemocratização: foi o processo de retorno à democracia e aos direitos do povo após o período da ditadura militar.
Caras-pintadas: famoso movimento estudantil brasileiro ocorrido em 1992, que teve como principais características a exigência do impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello e os rostos pintados com as cores verde e amarela.
Luta contra as privatizações: é um movimento social e sindical que defende a manutenção de empresas, serviços públicos e recursos naturais sob a administração do Estado.
movimentos de 2013: as manifestações iniciaram contra o aumento da tarifa do transporte público e expandiram para uma insatisfação geral com os serviços públicos, com pedidos por melhorias na saúde e na educação, combate à corrupção, e críticas aos elevados gastos públicos na organização da Copa do Mundo (que o Brasil sediou em 2014). Os movimentos abalaram a popularidade da então presidente Dilma Rousseff (PT) e inauguraram um ciclo de instabilidade, polarização política e reconfiguração da direita e da esquerda que influenciou os cenários eleitorais subsequentes no país.
Falta interesse na política institucional e sobra engajamento coletivo
Já na percepção do historiador político e diretor do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fernando Perlatto, a queda da representatividade dos adolescente no eleitorado nos últimos anos pode ser explicada pelo desinteresse em relação à política institucional – que envolve partidos, eleições e o funcionamento do Estado. Contudo, não necessariamente é um desinteresse pela política.
"A gente percebe o engajamento dos jovens, muitas vezes nas redes sociais, em coletivos, em diversos espaços. Inclusive, o engajamento não apenas à esquerda, ou seja, o engajamento progressista, mas também o engajamento conservador. A gente tem observado um crescimento significativo de jovens que participam do debate político, que se engajam nas redes sociais, mas não necessariamente existe uma conversão desse engajamento político para o engajamento institucional", afirmou Perlatto.
Redes sociais e desinformação entram na equação
Um dos desafios, segundo os especialistas, é o consumo de informação política em ambientes digitais.
Alecilda Oliveira ressalta que adolescentes também estão sujeitos à desinformação e à influência dos algoritmos, que tendem a mostrar conteúdos alinhados às preferências já existentes dos usuários. Nesse cenário, a busca por informações confiáveis e o desenvolvimento do pensamento crítico tornam-se fatores importantes para estimular uma participação mais ativa dos novos eleitores.
Para Moacir de Freitas Júnior, ao mesmo tempo em que o jovens têm acesso a um enorme conjunto de informações sobre tudo, a toda hora, também estão expostos a fake news, mentiras, agressões e violências políticas e pessoais nas redes.
"Isso afeta mais diretamente os jovens, não só porque são mais suscetíveis, mas porque se informam muito mais pelas redes sociais. A polarização política pela qual estamos passando também não ajuda a atrair os jovens para a política, porque eles sabem que a escolha 'por um lado' trará consequências com as quais eles não querem – e nem deveriam – ter de lidar neste momento."
'Afastar os jovens da política enfraquece a democracia', diz especialista
Conforme Moacir de Freitas Júnior, o afastamento dos mais jovens das eleições e dos assuntos políticos reflete diretamente no enfraquecimento da democracia e põe em risco tudo o que foi conquistado desde a redemocratização, nos anos 1980.
"Se não renovarmos os compromissos democráticos, logo estaremos nos perguntando por que precisamos da democracia. E aí será tarde. A democracia não é um ente acabado: ela é uma construção constante e que precisa de construtores o tempo todo. Este é o principal problema do afastamento dos mais jovens e da população em geral da política: romper os laços democráticos."
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