O Sistema Cantareira já estaria à beira do volume morto sem a água bombeada do Rio Paraíba do Sul e a gestão de demanda noturna (GDN, a redução de pressão). O cenário é preocupante, tanto que a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) ampliou o limite da transposição até o fim do ano e manteve a faixa de alerta, que restringe a captação dos reservatórios.
O Cantareira encerrou o mês de julho com 36,7% de seu volume útil, o equivalente a 360 bilhões de litros. Sem água da transposição e GDN, a estimativa da Sabesp é que o Cantareira tivesse hoje cerca de 16% do volume útil, algo em torno de 157 bilhões de litros, restando ainda cerca de dois meses para o fim estação seca.
Minimizar os problemas causados por períodos secos no Cantareira não é paliativo que tenha sido desenhado agora e já se sabe que qualquer solução parece distante diante de um cenário de mudanças climáticas. A transposição das águas do Rio Paraíba Sul, por exemplo, só é possível por causa das obras realizadas logo após a grande crise hídrica de 2014 e 2015.
Inaugurada em março de 2018 ao custo de pouco mais de R$ 555 milhões à época (cerca de R$ 990 milhões, corrigidos), quando a Sabesp ainda era controlada pelo governo de São Paulo, ela permite que a água seja captada para suprir o Cantareira em momentos críticos, como agora. O caminho inverso também é possível, caso o manancial que abastece a região metropolitana do Rio de Janeiro perca a vazão.
5 imagensFechar modal.1 de 5Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema CantareiraWilliam Cardoso/Metrópoles2 de 5Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema CantareiraWilliam Cardoso/Metrópoles3 de 5Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema CantareiraWilliam Cardoso/Metrópoles4 de 5Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema CantareiraWilliam Cardoso/Metrópoles5 de 5Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema CantareiraWilliam Cardoso/Metrópoles
Atualmente, são captados até 8,5 metros cúbicos por segundo (m³/s) do Paraíba do Sul em direção ao Cantareira. Em meio ao inverno seco, esse volume tem sido equivalente a pouco mais de um terço de toda a água que entra nas represas, já que a vazão natural ficou em torno de 15 m³/s em julho, bem abaixo da média histórica do mês (26,6 m³/s).
Como não há sinais confiáveis de recuperação do sistema em plena estação seca, a ANA e demais órgãos envolvidos autorizaram em junho, “em caráter excepcional e temporário”, a ampliação do limite anual de 162 bilhões para 268,28 bilhões de litros a serem extraídos do Paraíba do Sul para o Cantareira. Até a última quinta-feira (30/7), já tinha usado 139 bilhões de litros desse “cartão de crédito”.
Redução de pressão
Durante a semana, a Sabesp anunciou que a redução de pressão no período noturno, até então das 19h às 5h (10 horas), foi responsável por uma economia de 183 bilhões de litros desde agosto do ano passado, o equivalente a praticamente a um quinto do volume útil do Cantareira. Segundo a Sabesp, a economia para o Cantareira representa cerca de 40% dos 183 bilhões de litros.
A medida tem gerado uma série de críticas por afetar o abastecimento principalmente nos bairros da periferia da Grande São Paulo.
No início da noite de sexta-feira (31/7), o governo estadual anunciou que a GDN passaria a ser de oito horas, das 22h às 6h, a partir de agosto. Às vésperas do início do período eleitoral, a justificativa apontada foram as chuvas de junho e do fim de julho na região de Extrema (MG), que interferem no Cantareira, além de o volume se apresentar acima do projetado pela própria administração estadual para o mês.
Em junho, mesmo com chuva, vale ressaltar que as vazões afluentes ficaram muito abaixo da média histórica para o mês (24,25 m³/s ante 33,2 m³/s). Julho seguiu pelo mesmo caminho, como demonstrado acima.
Escassez
Atualmente, com o sistema operando na faixa de alerta (quando fica entre 30% e 40% da capacidade útil), a captação é limitada a 27 m³/s, mais o volume de até 8,5 m³/s vindos da transposição. O cenário poderia ser pior, sem as medidas de contenção da crise, segundo o diretor de Produção, Tratamento e Manutenção Estratégica, Marco Antônio Barros.
“Hoje estaria em uma forte restrição e teríamos que operar o Sistema Cantareira como foi na crise hídrica, quando a gente ficou com 15 m³/s de captação. Então, essa percepção de que a gestão de demanda noturna (GDN) às vezes incomoda, pode ser que sim, mas ela é um mal necessário hoje para que a gente possa ter regularidade”, disse, durante apresentação nesta semana na Estação de Tratamento de Água (ETA) do Guaraú.




