João Bosco lança hoje, 31 de julho, EP com seis das 17 faixas do álbum 'Amigos novos e antigos'
Victor Correa / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: João Bosco
Artista: Amigos novos e antigos – Parte I
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ Dois fatores valorizam o álbum revisionista de duetos com que João Bosco celebra os 80 anos completados em 13 de julho. O primeiro é que o cantor, compositor e violonista mineiro nunca tinha gravado um disco calcado em feats – e o time de convidados das 17 faixas inclui nomes do quilate de Anitta, Bruna Black, Caetano Veloso, Cesar Camargo Mariano, Chico Buarque, Hamilton de Holanda, Ivete Sangalo, Jota.Pê, Mart'nália, Mestrinho, Tiago Iorc e Zeca Pagodinho.
O segundo fator é que, ao reformatar a obra sob a direção artística da filha Julia Bosco, idealizadora do projeto em parceria com o pai, João chamou o trombonista Rafael Rocha para dividir a produção musical e os arranjos do álbum intitulado “Amigos novos e antigos”.
Os arranjos de cordas e sobretudo os de metais criados por Rafael Rocha – ele mesmo um dos amigos recentes por ser expoente da nova geração de músicos e arranjadores da música brasileira – deram um sopro de novidade às músicas, afastando o perigo do déjà vu. Pelo menos é o que se conclui com a audição da primeira amostra do álbum, um EP com seis das 17 faixas, apresentado hoje, sexta-feira, 31 de julho (o álbum completo tem lançamento previsto para 25 de setembro).
Ideal, o título do álbum “Amigos novos e antigos” reproduz o nome da composição de João Bosco e Aldir Blanc (1946 – 2020) lançada em 1974 por Maria Alcina e regravada no ano seguinte por Vanusa (1947 – 2020) como música-título do álbum em que a cantora tentou se aproximar do universo da MPB.
E por falar em Maria Alcina, a cantora mineira foi a intérprete original de “Kid Cavaquinho” (João Bosco e Aldir Blanc, 1974), invocado samba que ora desliza macio em salão de gafeira, conduzido pelos sopros de Rafael Rocha, em gravação que junta Bosco com Mart'nália, cantora esperta, sagaz, talhada para esse samba que exige astúcia dos intérpretes.
João Bosco programa o lançamento do álbum completo para 25 de setembro
Leo Aversa / Divulgação
“Kid Cavaquinho” abre o EP “Amigos novos e antigos – Parte I”, seguido por outro samba, “Nação” (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, 1982), exuberante na anti-exaltação do Brasil da fome da boca do lixo. Em “Amigos novos e antigos – Parte I ”, Hamilton de Holanda dá a esse Brasil o contorno ágil e expressivo do bandolim de 10 cordas do músico. Somente após o segundo dos quase seis minutos da gravação é que Bosco começa a cantar “Nação”, redesenhando o samba como o único intérprete capaz de encarar o antológico registro original da cantora Clara Nunes (1942 – 1983).
Única faixa do EP sem convidados, “Boca de sapo” (João Bosco e Aldir Blanc, 1979) é reaberta com o gagabirô do canto de Bosco, evocando a África contida na voz de Clementina de Jesus (1901 – 1987), cantora com a qual Bosco gravou o samba em 1979.
Com a ginga carioca aprendida pelo mineiro na vivência no Rio de Janeiro (RJ), João Bosco também repõe na panela “Siri recheado e o cacete” (João Bosco e Aldir Blanc, 1980) com o tempero de Zeca Pagodinho, escolha sagaz porque a crônica de Aldir nesse samba dialoga com o universo também cronista do pagode carioca da geração Fundo de Quintal da década de 1980 em que Zeca emergiu em 1983 como partideiro de alta sagacidade. Os sopros são a pimenta da iguaria.
Já “Perfeição” (João Bosco e Francisco Bosco, 2009) – grande surpresa da seleção dessa primeira parte – vem embalada por cordas condizentes com o clima ameno dessa composição em que Bosco também se mostra herdeiro da bossa de outro João, o gênio baiano João Gilberto (1931 – 2019).
Convidado da faixa, Tiago Iorc se ambienta naturalmente no clima à beira-mar de “Perfeição” no momento mais surpreendente de “Amigos novos e antigos – Parte I”.
Arrematando o EP, João Bosco reconstrói “Casa de marimbondo” (João Bosco e Aldir Blanc, 1975) com os teclados de Cesar Camargo Mariano. Assim como na faixa com Hamilton de Holanda, a voz de Bosco é ouvida somente por volta do segundo minuto da gravação, cujo arranjo é naturalmente calcado nas teclas virtuosas de Mariano.
Enfim, a julgar por essa primeira parte, o álbum “Amigos novos e antigos” resulta exuberante, com sons e cantos afinados percorrendo alamedas na memória da pele e da música atemporal do octogenário João Bosco. Capa do álbum 'Amigos novos e antigos – Parte I', de João Bosco
Victor Correa / Divulgação





