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Casal homoafetivo do Acre celebra adoção do filho por meio da entrega voluntária: ‘Enche nossos dias de amor’

Casal homoafetivo do AC celebra adoção do filho por meio da entrega voluntária
A ligação que mudou a vida da empreendedora Manueli Lima Dias e da psicóloga Francisca Rarianne da Silva Lima, ambas de 34 anos, aconteceu em uma sexta-feira, próximo ao meio-dia. Do outro lado da linha, a assistente social informou que havia um bebê de apenas sete dias de vida compatível com o perfil cadastrado por elas no Sistema Nacional de Adoção.
Nove meses após entrarem na fila, o sonho de formar uma família estava prestes a se tornar realidade. O menino era Luís Antônio. Aos 15 dias de vida, ele deixou o Educandário Santa Margarida, em Rio Branco, e passou a viver com as duas mães.
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Atualmente com cinco meses, Antônio transformou a vida das duas e a rotina da casa, além de concretizar um desejo que ambas carregavam muito antes de se conhecerem: a maternidade.
Casal realiza sonho da maternidade após bebê ser entregue voluntariamente para adoção no Acre
Gleilson Miranda/ Secom TJAC
As duas estão juntas há seis anos e afirmam que a adoção sempre esteve presente nos planos do casal.
"Logo no início do relacionamento, quando conversamos sobre filhos, descobrimos que compartilhávamos o mesmo sonho: construir nossa família por meio da adoção e não da gestação. Antes mesmo de nos conhecermos, esse já era um desejo de ambas”, conta Manueli.

Rarianne conta ainda que, quando chegaram ao local, a assistente social mostrou uma foto de Antônio e explicou que ele já estava no Educandário e a psicóloga entraria em contato para agendar o primeiro encontro deles.
“A partir daquele momento, o fim de semana foi tomado por ansiedade, lágrimas de felicidade, medo e uma alegria imensa. Recebemos essa informação [de que era adoção por entrega voluntária] ainda durante a ligação da assistente social. [.] Naquele momento, tudo o que conseguimos pensar foi que o nosso filho havia chegado”, relata.
Juntas há 6 anos, elas aguardaram apenas nove meses na fila de adoção
Gleilson Miranda/ Secom TJAC
Nova rotina
Ainda de acordo com Rariane, o primeiro encontro com Antônio permanece vivo em suas memórias. Segundo ela, quando pegou o filho no colo sentiu uma mistura de emoções que nunca havia experimentado.
“Foi como se, por alguns segundos, o mundo tivesse silenciado. Saí de casa muito nervosa e ansiosa. Quando ele entrou na sala, fiquei apenas observando aquele bebê tão pequeno, tão lindo e tão esperado. Demorou um pouco para a ficha cair de que aquele bebê era, de fato, meu filho”, acrescenta.
Atualmente com 5 meses, o menino se desenvolve bem e recebe carinho em um ambiente acolhedor
Arquivo pessoal
Para Manueli, o sentimento também foi imediato com uma conexão que ela não consegue explicar em palavras. “[.] Mas que reconheço com a alma. No instante em que ele esteve em meus braços, me senti mãe. É um sentimento que nunca caberá em uma única frase ou explicação”, relembra.
De acordo com a empreendedora, os primeiros dias de convivência foram marcados pela adaptação à nova rotina e descobertas da maternidade. Ela destaca que Luís sempre foi um bebê tranquilo, mas que tudo era novidade para elas.
"Havia momentos em que não sabíamos identificar se o choro era de fome, sono ou algum desconforto. Além disso, ele teve alguns episódios de dificuldade para respirar e algumas madrugadas foram bastante assustadoras”, lembra.
Manueli Lima Dias, de 34 anos, é empreendedora e conheceu Luís Antônio junto a companheira, a psicóloga Francisca Rarianne da Silva Lima
Arquivo Pessoal
Com o passar dos dias, segundo Rarianne, a convivência ocorreu de forma natural. Para elas, o momento mais marcante foi perceber que Antônio já reconhecia as duas e encontrava segurança nos braços das mães.
“Fomos adaptando nossa rotina e ele também foi encontrando seu espaço dentro dela. A verdade é que ele se encaixou em nossas vidas como se sempre tivesse pertencido a elas. Às vezes, é até estranho olhar para trás e pensar que ele chegou há relativamente pouco tempo”, diz a mãe.
Construção de vínculos
Ainda conforme Rariane, a construção do vínculo com o filho tem sido algo natural, com respeito e levando o tempo certo. Segundo ela, essa construção ocorre de forma espontânea, em uma troca diária de afeto.

“Em nosso relacionamento sempre existiu muito respeito pela individualidade uma da outra, e isso também se estende ao nosso filho. Ele é um bebê, mas bebês também merecem respeito, acolhimento e validação de suas emoções”, conta.
Primeiro encontro de Rarianne e Manueli com Luís Antônio ocorreu no Educandário Santa Margarida, em Rio Branco
Arquivo pessoal
Para Manueli, a rotina da família parece ter sido construída ao redor do filho desde sempre. As duas afirmam que nunca sofreram preconceito dentro da família por serem duas mães.

“Claro que houve adaptações. A Rarianne reorganizou os horários da clínica e eu reduzi parte do tempo dedicado à produção da confeitaria. Mas, no geral, ele simplesmente passou a fazer parte da nossa vida de uma forma muito natural. O Luís Antônio sempre foi muito amado, mesmo antes de chegar à nossa casa”, diz a empresária.
Rotina do casal foi adaptada de forma natural com a chegada do bebê Luís Antônio
Gleilson Miranda/ Secom TJAC
Após cinco meses da chegada da criança, as mães resumem a felicidade da família em uma palavra: amor.
“O Luís Antônio é, literalmente, uma extensão de nós. É um bebê que acorda sorrindo, muito amoroso e carinhoso. Tem um excelente desenvolvimento motor e até aprendeu a arquear as sobrancelhas igual às mães. Sorri quando nos vê, abre os bracinhos pedindo colo e enche nossos dias de amor. É impossível imaginar nossa vida sem ele”, finaliza.
O que é a entrega voluntária?
Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a entrega voluntária é um procedimento legal que permite à pessoa que gesta entregar o recém-nascido para adoção, de forma consciente e sem constrangimento.
O objetivo é proporcionar uma alternativa segura para garantir que a criança seja inserida em uma família adotiva habilitada.
Entrega voluntária para adoção: entenda o processo
Passo a passo
Procurar ajuda: pessoa que gesta pode procurar diretamente a Vara da Infância e Juventude ou ser encaminhada por hospitais, unidades de saúde, CRAS, CREAS, Defensoria Pública ou assistência social;
Receber acolhimento: ela é atendida por uma equipe especializada, sem julgamentos ou pressões. O sigilo é garantido durante todo o processo;
Ter acompanhamento jurídico e psicológico: a Justiça garante orientação jurídica e apoio psicossocial para que a decisão seja tomada de forma consciente e informada. Caso não tenha advogado, a pessoa recebe assistência gratuita;
Participar de audiência com o juiz: após o nascimento do bebê, a pessoa que gesta é ouvida pelo juiz, que verifica se ela recebeu todas as orientações necessárias e confirma sua decisão;
Prazo para mudar de ideia: mesmo após a audiência, a pessoa que gesta tem 10 dias para se arrepender e desistir da entrega voluntária;
Encaminhamento para adoção: se não houver desistência, a criança é cadastrada no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) e encaminhada para uma família habilitada pela Justiça.
Direitos garantidos
Sigilo absoluto sobre a entrega, inclusive em relação a familiares e ao suposto pai, quando solicitado pela mulher;
Atendimento humanizado e sem constrangimentos;
Acompanhamento psicológico e jurídico;
Direito da criança de conhecer sua origem biológica no futuro.
O que não é permitido?
A entrega direta do bebê para terceiros, sem participação da Justiça, é considerada irregular. O procedimento legal deve ser feito exclusivamente por meio da Vara da Infância e Juventude.
Onde buscar ajuda?
Em qualquer comarca, a porta de entrada é a Vara da Infância e Juventude, que orienta e acompanha todo o processo.
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