Os registros de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil cresceram 25% no Brasil em 2025, segundo análise de registros policiais publicada no 20° Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O anuário foi divulgado no dia 23.
Foi a primeira vez que o estudo avaliou esse tipo de crime, revelando a dinâmica própria de uma violência que ocorre no meio digital. Um dos dados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi que um terço das ocorrências envolve autores adolescentes.
Para Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, os dados sobre a idade dos autores mostram uma dessas características específicas, em que tanto vítimas quanto algozes são adolescentes.
"A gente percebe que é uma violência entre pares", diz o pesquisador.
34,2% dos registros de produção, posse ou distribuição de abuso sexual infantil envolvem autores adolescentes.
Jornal Nacional/ Reprodução
O estudo mostra que, em 34,2% dos casos, ou seja, em 1 a cada 3, os autores são adolescentes. Em 86,5% dos registros, havia apenas autores do sexo masculino. Casos com apenas autoras representaram 9,1%, enquanto 4,4% dos casos envolveram autoria múltipla.
O relatório destaca o que pode explicar o envolvimento de adolescentes nos crimes praticados em ambientes digitais. "É um fenômeno associado à ampliação do acesso às redes sociais, plataformas de mensagens e comunidades virtuais que difundem misoginia, sexualização precoce, discursos de dominação masculina e outras formas de radicalização online", diz o texto.
Quanto às vítimas, embora as ocorrências sejam registradas em todas as faixas etárias, a incidência cresce na entrada da adolescência. Segundo o estudo, 84,2% das vítimas são meninas e 78,3% têm entre 12 e 17 anos.
Vítimas por faixa etária
9 a 11 anos: 13,9%;
12 e 13 anos: 26,8%;
14 e 15 anos: 30%;
16 e 17 anos: 21,5%.
Em 2025, foram registrados 4.063 casos envolvendo vítimas de até 17 anos, um aumento de 25,3% em relação a 2024, com 3.280 ocorrências. Entre jovens de 18 e 19 anos, os registros passaram de 181 para 265, crescimento de 49%.
"A gente está diante de uma violência de gênero, que tem a ver com a disseminação de discursos de ódio contra as mulheres, com a sexualização precoce e com discursos de dominação masculina", diz Martins.
Segundo o Anuário, a expansão das tecnologias digitais mudou as formas de socialização de crianças e adolescentes e as dinâmicas da violência sexual. "Nesse novo contexto, modalidades de violência como o aliciamento, a produção, a posse e a distribuição de material de abuso sexual infantil passaram a ocupar lugar central entre os desafios contemporâneos da proteção integral de crianças e adolescentes", diz o relatório.
O enfrentamento desse fenômeno, na avaliação dos pesquisadores, exige uma compreensão mais ampla das transformações e a regulação das big techs. "A demora na construção de mecanismos regulatórios [.] permitiu a consolidação de espaços virtuais marcados pela difusão de violências persistentes contra crianças, adolescentes e mulheres", conclui o relatório.
Crescem registros de violência contra crianças e adolescentes nos lares
Os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública também mostram aumento nos crimes cometidos dentro do ambiente familiar contra crianças e adolescentes. As ocorrências de maus-tratos, abandono de incapaz e abandono material, praticamente dobraram desde 2021.
O crime de maus-tratos apresentou o avanço mais expressivo. Foram 38.986 registros em 2025, alta de 14,6% em relação ao ano anterior e de 106,1% na comparação com 2021. Mais da metade das vítimas (59,1%) tinha entre 0 e 9 anos.
O crescimento ocorreu em todas as faixas etárias:
0 a 4 anos: 16,3%;
5 a 9 anos: 14,9%;
10 a 13 anos: 10,9%;
14 a 17 anos: 17,2%.
Os registros de abandono de incapaz chegaram a 14.815, crescimento de 18,5% em relação a 2024. Já os registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra vítimas de até 17 anos passaram de 20.911 para 21.811, alta de 5,5%. Entre jovens de 18 e 19 anos, houve queda, de 10.566 para 10.194 casos.
Para Martins, os dados refletem a permanência de uma cultura que usa a violência física como forma de disciplina, apesar dos avanços trazidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).





