Festa do Divino em Laranjal Paulista nasceu de promessa após surto de febre amarela
A Festa do Divino Espírito Santo, tradição mantida há mais de 200 anos em Laranjal Paulista (SP), reúne fé, história e cultura em uma peregrinação pelo Rio Tietê. A festividade termina neste sábado (25), com várias atividades programadas para começaram a partir das 16h, no Distrito de Laras.
Ao g1, Fábio de Camargo, de 49 anos, participante da irmandade, conta que a celebração teria começado por volta de 1800, após um surto de febre amarela em Laras, antigo vilarejo às margens do rio Tietê, e hoje distrito do município.
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"Naquele tempo não tinha acesso a nada, não existia estrada, o caminho era só por água. E daí teve esse surto de febre amarela, e não tinha cura, né? As pessoas foram pegando a doença, foi se alastrando mais rápido. Não dava nem tempo de fazer caixão. Muitas pessoas eram enterradas em lençóis", conta.
Festa do Divino revive tradição iniciada no século XVIII às margens do rio Tietê
Prefeitura de Laranjal Paulista/Divulgação
De acordo com a tradição, uma moradora pediu ao Divino Espírito Santo o fim da doença na região e prometeu levar a imagem do santo pelas casas da população ribeirinha, caso tivesse o pedido atendido.
"Ela alcançou a graça e aí se formou um grupo de três homens pra levar a imagem no mês de julho. Foram obter a primeira pernigração, ou como diz na minha região, a primeira viagem do rio", relata Fábio.
A promessa deu origem às primeiras viagens feitas em canoas, levando bênçãos aos moradores que viviam às margens do Tietê. Com o passar dos anos, a devoção cresceu e deu origem à irmandade.
"Muitas pessoas ingressaram juntos, os devotos do Divino. Até que chegou o momento que eles precisaram montar a irmandade. Como eram muitas pessoas, eles derrubaram duas peróbas [árvore] grandes pra fazer uma embarcação maior, para caber 30, 40 homens", descreve.
A comitiva sai do Distrito de Laras com duas canoas, percorre o trajeto pelo rio e por terra, e retorna ao ponto de encontro no Rio Tietê, para festa de encerramento
Prefeitura de Laranjal Paulista/Divulgação
A procissão teve uma pausa
Segundo Fábio, a tradição da Festa do Divino Espírito Santo passou por um período de interrupção na década de 1830. Com a redução dos casos da doença que motivou a promessa inicial, os devotos decidiram suspender a peregrinação.
"Como a doença tinha sumido, eles resolveram parar. Achavam que a promessa tinha sido cumprida. E nessa época de 1832, 1833, a doença voltou mais forte. Aí eles se reuniram de novo. Nessa época, já havia a irmandade, com diretoria, já tinha terço cantado, folião."
Pouso e alimentação
A chamada “Viagem do Rio” ocorre cerca de 30 dias antes da festa e percorre comunidades de Laranjal Paulista, Piracicaba, Saltinho, Conchas e Pereiras. Durante o trajeto, os devotos levam a imagem do Divino de casa em casa.
"O trecho que a gente percorre é basicamente o mesmo todo ano, são as mesmas casas que a gente visita. Mais ou menos umas oitocentas residências são visitadas dentro de 20 dias. O trajeto é pelo rio e por terra. Você embarca pelo rio, você sobe ou desce até um determinado ponto. A mesma coisa que os ancestrais faziam, a gente faz na nossa região", relata.




