EUA renovam ataques ao Irã e ameaçam bombardear instalação nuclear subterrânea
A trégua negociada entre EUA e Irã em junho já era. Com a troca cada vez mais intensa de bombardeios, drones e mísseis, a questão já não é mais se a guerra foi retomada, e sim se o conflito está se transformando em uma disputa sem prazo para terminar, que nenhum dos lados pode vencer.
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Pode ser mais uma "guerra sem fim", afirma Kelly Grieco, pesquisadora sênior do centro de estudos Stimson Center, sediado em Washington. O termo descreve conflitos que se arrastam por anos, com ações militares recorrentes e sem uma solução política duradoura.
"Você acaba adotando uma abordagem de 'aparar o gramado', na qual as capacidades do Irã crescem até determinado nível. Então você decide que não está disposto a tolerar esse grau de ameaça e volta a realizar uma nova rodada de ataques com mísseis e bombardeios. E depois repetimos esse ciclo indefinidamente", explica.
A aviação militar dos EUA intensificou os ataques contra alvos em todo o Irã, que, por sua vez, segue atacando posições americanas e aliados regionais.
As forças iranianas atingiram locais em vários países do Golfo e voltaram a interromper a navegação no Estreito de Ormuz, por onde antes passava cerca de um quinto do petróleo e gás exportados ao mundo.
Do outro lado do Golfo, os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, impuseram um bloqueio naval à Arábia Saudita no Mar Vermelho, ameaçando estrangular uma segunda rota estratégica crucial para o tráfego marítimo na região.
Os esforços diplomáticos não cessaram. O ministro do Interior do Irã, Eskandar Momeni, viajou ao Paquistão, um dos principais mediadores do conflito, numa tentativa de retomar as negociações. Mas as perspectivas de um avanço parecem pequenas.
O presidente dos EUA, Donald Trump, manifestou pouco entusiasmo por novas negociações, afirmando na terça-feira que os norte-americanos "não têm interesse em se reunir". Pelo contrário: a campanha aérea americana poderia ser intensificada. Mais tarde, a ênfase passou a ser a degradação das capacidades militares do país.
Hoje, o objetivo mais imediato parece ser a reabertura do Estreito de Ormuz e a proteção de uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.
Ainda assim, uma pergunta permanece sem resposta: se os Estados Unidos têm ampla superioridade militar e realizaram centenas de ataques em todo o Irã, por que então Teerã ainda é capaz de interromper o tráfego em Ormuz?
É que para isso não é preciso ter um grande arsenal ameaçador de mísseis ou drones, explica Grieco.
"Mesmo que os Estados Unidos consigam destruir, digamos, hipoteticamente, 95% dos lançadores de mísseis, dos mísseis e dos drones iranianos, o Irã ainda manteria uma capacidade residual de 5%. E esses 5% geralmente seriam suficientes para que os iranianos conseguissem interromper o tráfego pelo Estreito de Ormuz."
"Chega um ponto em que se torna realmente difícil localizar alguns desses alvos. Eles são móveis, numerosos e estão amplamente distribuídos pelo país — como os drones Shahed, por exemplo."
Missão cumprida?
Pessoas caminham perto de um mural anti-EUA em Teerã, Irã , 13 de julho de 2026
Majid Asgaripour/WANA via Reuters
Para alguns observadores, a guerra contra o Irã começa a evocar lembranças desconfortáveis das intervenções militares americanas no Iraque (2003–2011) e no Afeganistão (2001–2021).
Esses conflitos mostraram que a superioridade militar não se traduz necessariamente em uma campanha bem-sucedida.
Sob o governo do presidente George W. Bush, as forças americanas derrotaram rapidamente o Talibã no Afeganistão e o governo de Saddam Hussein no Iraque. Da mesma forma, ataques dos EUA e de Israel mataram muitos dos principais líderes iranianos no início da guerra e rapidamente estabeleceram domínio militar no espaço aéreo.
No entanto, como em conflitos anteriores, o sucesso inicial no campo de batalha não produziu um resultado claro em terra.
As guerras anteriores dos EUA também mostram como adversários mais fracos podem se adaptar. No Afeganistão e no Iraque, insurgentes utilizaram bombas caseiras à beira de estradas e atentados suicidas para compensar a superioridade militar americana.
No Irã, as Forças Armadas têm usado drones relativamente baratos e pequenas lanchas de alta velocidade para interromper a navegação no Estreito de Ormuz, apesar das grandes perdas sofridas no mar.
"A comparação que eu faria não é com o Afeganistão ou o Iraque, porque lá havia tropas terrestres", pontua Grieco.
"A comparação que eu realmente faria é com o Iraque durante toda a década de 1990 e até a guerra de 2003. Foi quando os Estados Unidos impuseram uma zona de exclusão aérea sobre partes do Iraque, usando poder aéreo para mantê-la e, em alguns momentos, realizando ataques", diz.
"Acho que o resultado acaba se parecendo com isso: algo fortemente centrado no uso da força aérea. Estamos falando de um compromisso de longo prazo, sem perspectiva de término."
O dilema de Ormuz
Embarcações circulando pelo Estreito de Ormuz
Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS
Ainda é possível desescalar e evitar outra "guerra sem fim", acredita Sutcliffe. "Embora isso pareça relativamente improvável neste momento, não é algo sem precedentes", diz, citando a mudança de rumo adotada por Trump ao declarar um cessar-fogo com o Irã.
Grieco concorda que o conflito terá de ser resolvido na mesa de negociações. "O centro da divergência agora gira em torno do Estreito de Ormuz. Essa é a questão mais urgente, porque toda a economia global está sendo mantida refém. E precisamos chegar a algum tipo de acordo."
Mas, para Teerã, a capacidade de ameaçar a navegação pelo estreito continua sendo uma das poucas formas eficazes de penalizar os Estados Unidos e a seus aliados, apesar da esmagadora superioridade militar americana.
Os líderes iranianos podem ver poucos motivos para abrir mão dessa vantagem sem concessões significativas em troca. Enquanto ambos os lados continuarem escolhendo a força em vez da negociação, o conflito poderá se arrastar por anos, transformando-se em mais uma "guerra sem fim" americana.
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