Famílias de pacientes relatam falhas no atendimento, falta de exames e redução de equipes
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Mãe diz que Bernardo chegou apenas com sintomas gripais
A nota da Prefeitura de São Luís também informa que Bernardo deu entrada no hospital com um quadro semelhante ao do irmão. A mãe afirma, porém, que ele apresentava apenas sintomas gripais e não tinha pneumonia quando chegou à unidade.
"E referente ao Bernardo, eles informaram que o meu filho tinha entrado com pneumonia. Meu filho não estava com a pneumonia. Meu filho entrou com sintomas gripais", disse Carla Samila.
Segundo a mãe, Bento apresentava inicialmente o quadro mais grave, com cansaço e dificuldade para respirar. A equipe médica teria informado à família que seria necessário intubar o bebê.
Bernardo, de acordo com os parentes, apresentava sintomas considerados mais leves e permaneceu por dois dias em uma sala de medicação. A família afirma que o estado de saúde dos dois se agravou dentro do hospital.
Após sofrer duas paradas cardiorrespiratórias, Bento foi levado para uma UTI, mas não resistiu. A declaração de óbito aponta insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico.
Cerca de 24 horas depois do sepultamento de Bento, Bernardo também morreu.
Prematuridade é citada pela prefeitura
Na nota, a prefeitura destaca que os irmãos tinham quatro meses e histórico de prematuridade. Para a mãe, a informação foi utilizada de forma a associar as mortes a uma suposta fragilidade anterior das crianças.
“Apesar dos meus filhos terem nascido prematuros, mas meus filhos eram meninos saudáveis. Meus filhos não viviam doentes. Meus filhos não viviam em hospitais. Meus filhos eram saudáveis”, afirmou Carla Samila. afirmou Carla Samila.
Ela classificou o conteúdo do documento como desrespeitoso e disse que a versão apresentada pela gestão municipal não corresponde ao que foi vivido pela família durante a internação.
Família de Otto contesta referência a cuidados paliativos
Pais contestam nota da Prefeitura de São Luís sobre mortes dos filhos no Hospital da Criança
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Outro caso mencionado pela prefeitura é o de Otto, de nove meses, que morreu após permanecer internado por 17 dias no Hospital da Criança.
Na nota, a gestão municipal afirma que o bebê possuía uma doença degenerativa grave, síndrome de West, microcefalia, sequelas de anóxia perinatal e encefalopatia crônica progressiva. O documento também destaca que ele tinha traqueostomia e gastrostomia e estava em cuidados paliativos.
A família não nega as condições clínicas da criança, mas afirma que elas não explicam nem justificam os problemas ocorridos durante a internação.
“A condição dele não teve culpa do que aconteceu com ele. A negligência do hospital é que teve culpa. O mau trato que ele recebeu. Porque, para mim, o que fizeram com o meu filho foi isso, porque não respeitaram ele nem na hora da morte dele. A gente já entendia que ele já estava morto. Ele estava roxo, a saturação dele estava em 0, em 2, e o médico tinha colocado adrenalina. Ele simplesmente falou para a gente que não ia tirar a adrenalina, porque a gente poderia se arrepender e processar eles”, afirmou a mãe, Leyciane Barbosa.
Segundo ela, a nota minimizou as circunstâncias da morte e desrespeitou a história do filho.
“Na hora que eu li, senti uma dor muito grande, porque, para mim, foi um desrespeito à dor que o meu filho passou. Meu filho lutou tanto para viver. Ele era muito forte, apesar de tudo o que fizeram com ele. É como se estivessem dizendo que o meu filho não era nada, que a morte dele não foi nada”, lamentou.
Pais explicam significado dos cuidados paliativos
André, pai de Otto, também contestou a forma como a prefeitura mencionou os cuidados paliativos.
Segundo ele, o acompanhamento paliativo tinha como objetivo garantir conforto, tratamento adequado e qualidade de vida, e não significava que a morte da criança fosse considerada imediata ou inevitável.
“Uma pessoa que já entra no hospital, no caso dele, já entra em cuidados paliativos, mas não em cuidados paliativos finais. Ela entra em cuidados paliativos, no cuidado da melhor maneira de atendê-lo, da melhor maneira de tratá-lo. Não em cuidados paliativos de dizer que, daqui a duas horas, ele vai morrer: ‘Vamos botar logo morfina, vamos colocar logo adrenalina nele’. Não. O cuidado paliativo em que ele estava, segundo o que falaram para a gente, era o cuidado de cuidar dele, de achar a melhor maneira possível de tratá-lo para ele receber alta”, destacou o pai.
A família relata que Otto já havia sido atendido anteriormente no Hospital da Criança. Em uma dessas internações, ele teria sido transferido da UTI para uma enfermaria mesmo sem condições clínicas, segundo a mãe. Quando foi transferido para outro hospital infantil, ele conseguiu se recuperar e recebeu alta.
Em janeiro de 2026, Otto voltou a ser internado no Hospital da Criança, desta vez com uma infecção intestinal. Os pais afirmam que exames e procedimentos básicos demoraram a ser realizados. Ele morreu após 17 dias de internação. A declaração de óbito aponta choque séptico como causa da morte.
Família relata falta de materiais e medicamentos
Os pais de Otto afirmam ainda que precisaram comprar materiais e medicamentos que deveriam estar disponíveis no hospital, entre eles luvas, sondas e um anticonvulsivante que custava cerca de R$ 600.
De acordo com Leyciane, a falta de sondas colocava em risco crianças com traqueostomia que dependem de aspiração frequente para retirar secreções.
“A falta de material não é só medicamento. É sonda, é não ter sonda para fazer uma aspiração, é não ter como salvar uma criança. Porque, se é uma criança que usa tráqueo, e são vários tipos, não é só uma criança que tem paralisia cerebral que usa tráqueo, existem vários motivos para se usar uma tráqueo, pessoas conseguem viver a vida inteira com traqueostomia, mas precisam dos cuidados, que é a aspiração. Se você está ali, ainda mais com uma criança que não sabe tossir, que não sabe colocar para fora sozinha, você precisa aspirar. Se você não aspirar, ela sufoca, ela morre. Então, a gente tinha que comprar a sonda para levar para o hospital, para o nosso filho não morrer asfixiado pela própria secreção”, afirmou a mãe de Otto.
A família também relata que precisou comprar materiais e medicamentos que deveriam estar disponíveis na unidade, entre eles luvas, sondas e um anticonvulsivante que custava cerca de R$ 600.
Famílias dizem que nota tenta descredibilizar denúncias
Na publicação, a Prefeitura de São Luís também contesta os números apresentados nas denúncias e divulgados em reportagens sobre o Hospital da Criança.
As famílias afirmam, porém, que os dados citados fazem parte de documentos e relatos investigados pelo Ministério Público do Maranhão e encaminhados ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal.
Para Leyciane, a nota da gestão municipal tenta descredibilizar os parentes e apagar a trajetória das crianças.
“Meu filho não fez mal a ninguém. Pelo contrário, só fizeram mal a ele. Para mim, é como se estivessem ferindo a honra do meu filho, tudo o que ele lutou e tudo o que ele representou. Apesar de todo o mal que fizeram, ele continuou lutando. A nota tenta apagar a história dele e diminuir a importância da vida dele. Não existem palavras que consigam explicar esse sentimento de indignação”, afirmou.
As famílias cobram a apuração das circunstâncias das mortes, das condições de atendimento no hospital e da possível falta de profissionais, medicamentos e materiais na unidade.
Hospital da Criança passa por auditoria do Ministério da Saúde
Ministério Público do Maranhão investiga o aumento de mortes nas UTIs infantis do Hospital da Criança
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Técnicos do Ministério da Saúde estiveram, na manhã dessa terça-feira (14), no Hospital da Criança Odorico Amaral de Matos, em São Luís, para apurar denúncias relacionadas ao funcionamento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas da unidade.
A auditoria é conduzida pelo Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS) e foi aberta depois que relatos sobre mortes de crianças e supostas falhas no atendimento foram encaminhados à Ouvidoria do Ministério da Saúde.
A inspeção é coordenada pelo diretor do DenaSUS, Rafael Bruxellas, e conta com a participação de outros quatro técnicos da pasta. Ao todo, cinco integrantes trabalham na auditoria. A expectativa é que o relatório com as conclusões da equipe seja finalizado nos próximos dias.
As denúncias envolvendo o hospital também são investigadas pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA), pelo Ministério Público Federal (MPF) e por outros órgãos de controle. Algumas famílias registraram ainda ocorrências na polícia.
Até o momento, não há conclusão oficial que estabeleça as causas das mortes ou uma relação direta entre os óbitos e as mudanças realizadas na gestão das UTIs.
Famílias relatam demora no atendimento e agravamento de crianças
Denúncias apontam crescimento de mortes nas UTIs no Hospital da Criança em São Luís
Entre os casos investigados está o de Kerliane, de 7 anos, que morreu após ser atendida e internada no Hospital da Criança.
Segundo a mãe, a bombeira civil Jainara Sousa dos Santos, a menina foi levada à unidade no dia 23 de abril com dor na perna. Dois dias antes, ela havia sofrido uma queda no quintal de casa e machucado a região do glúteo.
Jainara afirma que a filha realizou exames de sangue e uma tomografia. Após a identificação de um coágulo, a criança teria recebido alta sem passar por drenagem.
“Minha filha não estava tão mal, mas ela fez uns exames de sangue e deu um pouco de anemia. Se deu alguma infecçãozinha leve, eles não falaram logo e deram alta pra minha filha”, relatou Jainara.
Dois dias depois, a mãe retornou ao hospital porque a dor havia aumentado e a menina começou a apresentar vômitos. Novos exames teriam apontado uma infecção, além de alterações no pulmão, no fígado e nos rins.
Kerliane foi entubada em uma área conhecida como “grande sala”, onde permaneceu por dois dias antes de ser transferida para uma UTI. A menina morreu no dia 29 de abril.
"A perna da minha filha foi só inchando e ela (a médica) disse que era normal, que era redução de líquido. Quando eles pensaram de fazer a drenagem foi no dia 29, a minha filha faleceu”, lamentou a mãe.
No atestado de óbito constam como causas da morte parada respiratória, sepse, pneumonia hematogênica e artrite séptica, uma infecção bacteriana grave que atinge as articulações.
“Eu me sinto destruída todos os dias porque está faltando (uma filha) dentro de casa. É dolorido. É uma coisa que mata a gente todo dia, saber que você entregou seu filho bem e trouxe seu filho de volta no carro de uma funerária”, disse Jainara.
Kerliane, de 7 anos, morreu após ser atendida e internada no Hospital da Criança em São Luís.
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O caso é investigado pelo Ministério Público do Maranhão.
"Esses casos aí demonstram não somente uma negligência no atendimento, ao ter uma escala que não atende à demanda e à sobrecarga de trabalho dos médicos pediatras, como também, pelas prescrições, certamente imperícias por parte dessa equipe de profissionais do IBMED de Teresina" , explicou o promotor de Justiça Herbertb Figueiredo, da 1ª Promotoria da Saúde.
Denúncias apontam crescimento de mortes nas UTIs
MP-MA investiga denúncia de aumento de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís
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Documentos encaminhados aos órgãos de fiscalização apontam que o Hospital da Criança teria registrado 113 mortes em 2025. Desse total, 101 teriam ocorrido dentro das três UTIs pediátricas da unidade.
O número representaria um aumento de aproximadamente 159% em relação a 2024, quando, segundo os denunciantes, teriam sido contabilizados 39 óbitos nas unidades de terapia intensiva.
A Prefeitura de São Luís contesta os números apresentados nas denúncias.
Segundo informações encaminhadas pela administração municipal à produção da reportagem, o hospital teria registrado 112 mortes em 2024 e 117 em 2025.
Os dados citados pela prefeitura, no entanto, divergem dos registros disponíveis no sistema do Ministério da Saúde. Em relação a 2025, apenas 31 mortes estariam registradas no DataSUS, uma diferença de 86 óbitos em comparação com o total informado pelo município.
O material disponibilizado para a reportagem não apresenta o número do DataSUS referente a 2024, o que impede a comparação entre os dados daquele ano.
Profissionais ouvidos sob condição de anonimato afirmam que uma eventual subnotificação prejudica o planejamento de ações, a avaliação da qualidade do atendimento e a adoção de medidas para reduzir mortes consideradas evitáveis.
“Você perde os dados, você deixa de planejar coisas de saúde pública, medidas de saúde pública para evitar esse tipo de óbito, para ter um planejamento de ação, para saber porque eles estão acontecendo, para que outros não aconteçam”, destaca uma médica da unidade de saúde.





