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Como Jô Soares construía o humor? Tese de pesquisador sorocabano ganha reconhecimento internacional

"Ela também é importante porque este ainda é um trabalho em construção, deliberadamente aberto. As artes da cena já contam com métodos amplamente consolidados, como o de Stanislavski ou a biomecânica de Meyerhold, mas minha pesquisa segue outra lógica. Não pretendo afirmar um método definitivo, e sim propor uma leitura possível sobre o processo criativo de Jô Soares", completa Tozi.
Pesquisador de Sorocaba é premiado internacionalmente por pesquisa sobre processo criativo de Jô Soares
Reprodução/Arquivo pessoal
Segundo ele, a escolha também representa um convite para que outros pesquisadores ampliem ou até contestem sua interpretação. "Meu desejo é que a tese não seja um ponto final, mas um ponto de partida para que a obra de Jô seja cada vez mais estudada", diz.
Entre os procedimentos identificados estão a leitura coletiva do texto, a escuta entre os atores, o estudo individual das falas, a identificação das chamadas "frases fundamentais", a busca pela "chave" de cada frase e a construção das pausas e ênfases responsáveis pelo efeito cômico.
Mais de uma década ao lado de Jô
Pesquisador de Sorocaba é premiado internacionalmente por pesquisa sobre processo criativo de Jô Soares
Reprodução/Arquivo pessoal
A relação entre pesquisador e artista começou em 2012, quando Giovani passou a integrar a equipe de Jô Soares. Ao longo dos anos, acompanhou ensaios, montagens e processos criativos, experiência que acabou se transformando primeiro em uma dissertação de mestrado e, posteriormente, na tese de doutorado.
"Jô abriu seus arquivos, concedeu entrevistas e acompanhou todo esse percurso com enorme entusiasmo. Receber esse reconhecimento poucos meses após defender a tese é algo que jamais imaginei", conta.
Segundo o pesquisador, a tese procura demonstrar que a comicidade não acontece apenas por inspiração, mas também é construída por meio de escolhas conscientes de linguagem, ritmo e comunicação entre ator e público.
"O artigo nasceu da convivência direta com Jô Soares durante mais de dez anos. Tive o privilégio de acompanhar ensaios, leituras de mesa e montagens. Mais do que isso, tive a honra de ser seu amigo", afirmou.
Ao final da apresentação na conferência, o pesquisador relembrou uma frase escrita por Jô Soares em sua autobiografia, na qual o apresentador dizia que gostaria de ter seu patrimônio medido em sorrisos. "Espero que essa pesquisa ajude a manter viva essa corrente de sorrisos que ele criou ao longo da vida", diz a frase.
Inspirado por uma das últimas reflexões de Jô, Giovani também fez uma adaptação da frase do humorista.
"Jô dizia que só o humor pode salvar o Brasil. Depois desta semana convivendo com pesquisadores do mundo inteiro, ouvindo sobre novas mídias e IA, eu ouso fazer uma adaptação: só o humor pode salvar a humanidade", finaliza.
Humor além da espontaneidade
Pesquisador de Sorocaba é premiado internacionalmente por pesquisa sobre processo criativo de Jô Soares
Reprodução/Arquivo pessoal
Ao longo da pesquisa, Giovani afirmou ter descoberto que a comicidade construída por Jô Soares estava longe de depender apenas do improviso ou do talento natural.

"O que mais me surpreendeu foi perceber a enorme precisão que existia por trás de uma aparência de espontaneidade. Quanto mais eu estudava, mais percebia que o humor de Jô não era construído apenas pela piada. Ele era construído pela inteligência com que organizava o caminho até ela", afirmou o pesquisador.

"Também me chamou atenção a coerência que atravessa toda a sua trajetória. Mesmo trabalhando em linguagens muito diferentes, como televisão, teatro, literatura e entrevistas, reaparecem os mesmos princípios: curiosidade, escuta, domínio da linguagem, atenção ao detalhe e uma compreensão muito sofisticada da expectativa do público", completou.
Bastidores dos ensaios
Pesquisador de Sorocaba é premiado internacionalmente por pesquisa sobre processo criativo de Jô Soares
Reprodução/Arquivo pessoal
Durante o período ao lado de Jô Soares, Giovani acompanhou de perto o processo de criação do humorista. Segundo ele, os ensaios aconteciam em um espaço construído especialmente para esse fim, onde o diretor chegava diariamente com profundo domínio do texto, mas sempre disposto a experimentar novas ideias.
Uma das histórias lembradas pelo pesquisador aconteceu durante os ensaios de uma peça, em 2012. Na ocasião, o ator Marcos Veras sugeriu utilizar a prótese da perna de seu personagem para aplicar um golpe de capoeira durante uma cena.
"A sala inteira caiu na gargalhada. Jô riu muito e imediatamente disse: 'Vamos manter isso'. Aquela invenção acabou se tornando o momento de maior riso do espetáculo. Isso mostra como ele tinha a inteligência e a humildade de incorporar imediatamente uma ideia melhor quando ela surgia", relembrou.

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