Jovem ficou isolado e agressivo, relata mãe
De acordo com a mãe, Rafael era um menino doce, generoso e irradiava alegria por onde passava. Mas depois das apostas recorrentes e perdas financeiras, começou a ficar isolado, agressivo e já não saía mais com os amigos.
A mudança, segundo ela, aconteceu de forma silenciosa. No início, Rafael dizia que estava ganhando dinheiro. A família aconselhava que ele parasse, mas as apostas deixaram de ser uma diversão para se tornarem uma rotina.
Ainda segundo a professora, o filho trabalhava muito, mas já não conseguia construir patrimônio nem realizar os próprios sonhos. "Ele tinha uma moto linda e perdeu. Já não comprava mais nada para si. Trabalhava muito, mas eu ficava indignada porque todo o dinheiro ia para o vício. Ele não conseguia guardar nada."
Noites em claro dedicadas às apostas
Vânia contou que, com o agravamento da dependência, passou a encontrar o filho acordado de madrugada jogando no celular. Ela pedia que ele desligasse a tela, tentava convencê-lo a parar, mas as conversas quase sempre terminavam em discussões.
"Quando percebi que a situação estava se agravando, comecei a conversar com ele. Só que ele não aceitava que tinha um problema. Passava noites inteiras jogando e eu acordava de madrugada, implorava que ele parasse. Quando perdia dinheiro, ficava extremamente nervoso", relatou.
Em uma dessas brigas, Rafael deixou a casa da mãe e foi morar com a avó. Ainda de acordo com a mãe, o jovem chegou a perder o emprego porque passava as noites apostando e começou a faltar ao serviço.
Vânia de Souza e o filho Rafael
Arquivo pessoal
Sonhos foram interrompidos
Ainda de acordo com a família, ele vendeu uma motocicleta seminova avaliada em R$ 8 mil, perdeu suas economias e passou a esconder da família a gravidade da dependência.
Pouco antes de morrer, segundo a mãe, Rafael havia enviado um áudio a um amigo dizendo que já não conseguia controlar o vício em apostas online, além de relatar as recorrentes perdas financeiras.
"Depois descobri que, naquela madrugada, ele fez transferências para plataformas de apostas. Foi quando concluí que provavelmente perdeu tudo o que tinha conseguido economizar."
Ela afirmou ter obtido junto a um banco digital a informação de que, às 1h48 do dia da morte, Rafael realizou uma transferência de R$ 30 para uma conta vinculada à empresa responsável pelo chamado "Jogo do Tigrinho".
A partir dessas informações, Vânia acredita que o filhoperdeu nas apostas o recurso que dizia estar guardando para abrir um lava a jato.
Segundo ela, as instituições financeiras nas quais Rafael mantinha contas negaram o acesso aos extratos bancários completos sob alegação de sigilo. Por isso, afirma que ainda não conseguiu calcular quanto o filho perdeu em plataformas de apostas e outros jogos online.
Tentativas de responsabilização frustradas
Após a morte do filho, Vânia procurou inicialmente a Promotoria Criminal de Uberlândia. O promotor responsável na época entendeu que a questão não possuía natureza criminal e encaminhou a demanda às promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde.
Posteriormente, em maio de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais determinou o arquivamento da investigação.
Na carta enviada ao MP, Vânia alegou que também procurou a Polícia Civil de Minas Gerais para solicitar a abertura de inquérito, mas recebeu a informação de que "nada podia ser feito".
Também foram encaminhados pedidos de esclarecimento à Polícia Civil de Minas Gerais sobre eventual instauração de inquérito. Mas não houve respostas até a última atualização desta reportagem.
Desde a morte do filho, Vânia de Souza Borges transformou o luto em uma busca por respostas e responsabilização sobre os impactos das apostas online
Reprodução/Redes Sociais
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