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Poeira de mineradoras afeta saúde e pesa no bolso de moradores em MG

Belo Horizonte – Crises de rinite, sinusite e alergias provocadas pela poeira da mineração fazem parte da rotina da farmacêutica Tamara Castro Santos, de 36 anos, desde a infância. Moradora de Congonhas, na região Central de Minas, ela afirma que o problema piora durante o período de estiagem. “É frequente, principalmente nos meses mais secos, como julho e agosto&#8221. relata.
“Quando morei fora de Congonhas, para trabalhar e estudar, as crises diminuíram e os episódios de sinusite, que eram frequentes, pararam. Mas basta voltar para a cidade que as crises voltam com tudo&#8220. contou Tamara, acrescentando que o pai usa “bombinha” para aliviar a falta de ar nos meses mais secos do ano.
No último domingo (12/7), Prefeitura de Congonhas determinou  a paralisação temporária das atividades das mineradoras CSN, Vale, Ferro+ e Gerdau após uma grande nuvem de poeira atingir a cidade.
Segundo o município, as empresas são responsáveis por mais de 96% das emissões de poeira na região. Durante o episódio, os equipamentos que monitoram a qualidade do ar registraram níveis de poeira de até quatro vezes acima do limite permitido pela legislação brasileira.
As empresas já voltaram operar após medidas emergenciais como molhar os caminhos por onde circulam veículos com minério.

Linha do tempo da crise em Congonhas

23 de junho – Prefeitura alertou as mineradoras sobre o período de seca e cobrou reforço no controle da poeira;
3 de julho – Com previsão de ventos fortes, pediu a intensificação das medidas preventivas;
7 de julho – Novo ofício reforçou a cobrança por ações de controle ambiental;
12 de julho – Após uma grande nuvem de poeira atingir a cidade, a prefeitura determinou a paralisação temporária das mineradoras;
Ainda em 12 de julho – Durante fiscalização, a prefeitura confirmou que as empresas haviam interrompido as atividades. Com a redução dos ventos, as operações foram retomadas no início da noite.

Saúde afetada, gastos maiores
Paulo Vitor Silva Augusto, de 30 anos, mora na cidade desde que nasceu e diz que a poeira da mineração piorou nos últimos anos. “Principalmente, no pós-pandemia. Desde então, percebo um aumento ainda maior. As nuvens são frequentes, algumas mais fortes, outras mais fracas, mas facilmente observáveis em diversos pontos da cidade&#8221. afirmou.
Ele diz que o problema também pesa no bolso da família: “Os gastos com soro fisiológico para a lavagem nasal dos meus filhos, da minha esposa e minha não são pagos pela mineração. A troca de óleo e dos filtros de ar dos veículos precisa ser mais frequente, assim como a limpeza de computadores e da casa.”
Para Paulo, porém, o maior impacto, também, é na saúde. “O que mais incomoda é que afeta nossa saúde, e todos fingem que não. Já participei de diversas audiências públicas em que foram apresentados dados científicos mostrando que a poeira prejudica a saúde e até o desenvolvimento cognitivo de crianças, mas as autoridades ‘fingem de égua'&#8221. criticou.
Mineração como principal atividade
Os dados do Tesouro Nacional mostram que a maior parte do dinheiro recebido pela Prefeitura de Congonhas vem da mineração. Entre 2025 e 2026, foram R$ 306,4 milhões em royalties pagos pelas mineradoras, mais de três vezes os R$ 93 milhões repassados pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) mostram que a CSN Mineração concentra cerca de 80% dos royalties gerados no município, seguida pela Vale (15%) e pela Ferro+ Mineração (6%). Praticamente toda essa arrecadação é proveniente da extração de minério de ferro.
A Gerdau, também notificada pela prefeitura, não aparece na lista de mineradoras com atuação em Congonhas. No entanto, segundo o município, um empreendimento da empresa localizado nas proximidades também contribui para a poluição do ar na cidade.
“Convivo diariamente com a poeira”
Carlos Henrique Barbosa Braga, de 28 anos, é técnico em automação e mora na cidade desde 2011 e trabalha em uma das mineradoras da cidade. “Desde que me mudei para cá convivo diariamente com a poeira&#8221. afirmou. Segundo ele, o episódio registrado no domingo é recorrente. “Esse problema costuma se agravar nesta época do ano&#8221. disse. Vídeos gravados em setembro do ano passado ilustram bem a situação. (Veja abaixo)
“Eu e minha esposa somos extremamente afetados por essa situação. Moramos no bairro Casa de Pedra, onde a poeira chega diretamente. É comum apresentarmos problemas respiratórios nesta época do ano, justamente quando a intensidade da poeira aumenta&#8221. relatou.

Médica explica riscos
A poeira da mineração pode provocar desde irritação no nariz, na garganta e nos olhos até falta de ar e piora de doenças respiratórias já existentes. Segundo Michele Andreata, médica pneumologista, quanto menores as partículas, maior a capacidade de atingir os pulmões.
“Em situações de exposição intensa, como uma grande nuvem de poeira, podem surgir sintomas imediatos. Já a exposição repetida ou prolongada aumenta o risco de doenças respiratórias crônicas e de redução progressiva da capacidade pulmonar&#8221. explica a doutora.
A médica afirma que crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias são os mais vulneráveis e podem sofrer agravamento dos sintomas após a exposição.  “Quando a exposição é prolongada, as partículas podem desencadear um processo inflamatório persistente, levando à formação de fibrose, perda da elasticidade pulmonar e redução da capacidade respiratória&#8221. afirma.
A especialista acrescenta que, quando a poeira contém sílica (comum comum na poeira gerada pela mineração), também há risco de desenvolvimento da silicose. “Uma pneumoconiose caracterizada por inflamação e fibrose pulmonar permanente. Além disso, a exposição crônica pode aumentar a suscetibilidade a infecções respiratórias e comprometer progressivamente a função pulmonar&#8221. disse.
Congonhas aciona outras prefeituras
Além de querer suspender as atividades, Congonhas quer unir forças com outras cidades mineradoras para enfrentar o problema. Em um ofício enviado nessa segunda-feira (13/7), o município convidou as prefeituras de Itabira, Conceição do Mato Dentro, Ouro Preto, Itabirito e Nova Lima para discutir regras mais rígidas de controle ambiental e ações para melhorar a qualidade do ar.
O que dizem as mineradoras
O Metrópoles procurou as mineradoras citadas. Em nota, a Vale afirmou que suas atividades operacionais “em Viga e Fábrica já se encontravam suspensas em decorrência do extravasamento ocorrido em janeiro de 2026. A companhia se coloca à disposição para prestar os esclarecimentos necessários”.
Já a CSN afirmou que “interrompeu temporariamente e preventivamente suas operações, focando suas atividades no reforço das ações de controle de poeira, com intensificação da umectação de vias e áreas expostas por meio de sistemas de aspersões fixas e móveis, aplicação de polímeros, fechamento de vias internas e acompanhamento contínuo das condições climáticas e ambientais”.
A Gerdau disse que não possui operações de mineração no município de Congonhas e que, portanto, não há qualquer indício de relação das suas atividades com a informação do material particulado lançado na atmosfera da cidade. “A companhia reforça, ainda, que a sua operação no município de Ouro Preto é distante dos limites do município de Congonhas”, diz o texto.
Outro caso
Conforme mostrou o Metrópoles no último fim de semana, famílias que afirmam viver “presas” pela operação da Sigma Mineração, no Vale do Jequitinhonha, obtiveram uma vitória parcial na Justiça.
O TJMG determinou que a empresa regularize o acesso às comunidades vizinhas, enquanto o pedido do Ministério Público de aplicação de multa de R$ 15 milhões por supostas atividades noturnas irregulares foi negado.
 

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