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“Sou um milagre vivo”: a história da mineira que ajudou italiano a virar santo

Belo Horizonte – A cidade de Passos, no Sul de Minas, se prepara para celebrar o centenário da morte de Santo Aníbal Maria di Francia, fundador da Congregação dos Rogacionistas. A história da enfermeira Gleida Danese, de 50 anos, liga a cidade mineira ao Vaticano, pois foi em Passos que ocorreu o primeiro milagre oficialmente reconhecido pela Igreja e que foi decisivo para o processo de beatificação de Aníbal.
“Sou um milagre vivo&#8221. A frase resume uma trajetória iniciada em julho de 1985, quando, aos nove anos de idade, Gleida enfrentou uma doença grave: a Síndrome de Guillain-Barré, um distúrbio autoimune raro. Os nervos periféricos são atacados pelo sistema imunológico, causando fraqueza muscular e formigamento.
A enfermeira diz que não consegue definir exatamente o que sentia aos nove anos, mas sabe que sua formação religiosa já estava sendo construída desde muito cedo, especialmente pela convivência com a avó paterna, Maria Aparecida Amparado Danese. Muito próximas, as duas mantinham uma relação marcada pela espiritualidade.
Segundo Gleida, a avó era presença constante na vida dos netos e uma católica profundamente praticante, e devota de Padre Aníbal. Durante sua doença, ela intensificou as orações pediu a intercessão do Padre na cura da neta.

1851 – Nasceu em Messina, na Itália.
1882 – Fundou os Orfanatos Antonianos, oferecendo acolhimento, formação e um ambiente familiar para crianças em situação de vulnerabilidade
1887 – Fundou a congregação das Filhas do Divino Zelo
1897 – Fundou a congregação dos Rogacionistas do Coração de Jesus. Seu trabalho uniu evangelização, promoção das vocações e serviço aos pobres, inspirando iniciativas que mais tarde influenciaram toda a Igreja
1º de junho de 1927 – Faleceu, deixando um legado de caridade, oração e cuidado com as vocações
1990 – No dia 07 de outubro, foi proclamado Bem-aventurado pelo Papa João Paulo II
2004 – Em 16 de maio, canonização de Aníbal Maria Di Francia

 Durante o tratamento
A primeira imagem que lhe vem à memória é a do centro cirúrgico da Santa Casa de Misericórdia de Passos. Ela recorda que o ambiente hospitalar parecia frio, mas nunca se sentiu sozinha.
“Hoje a sensação é de ser abençoada. Na época, eu certamente não saberia descrever. Lembro do centro cirúrgico, dos focos de luz, dos corredores, do quarto e até do jardim que eu via da janela&#8221. recorda Gleida.
Durante a internação, Gleida sofreu cinco paradas cardiorrespiratórias, permaneceu em coma por mais de um mês, foi submetida a uma traqueostomia e passou por um longo período de tratamento intensivo e fisioterapia.
O quadro clínico se agravou durante a internação na Unidade de Terapia Intensiva da Santa Casa de Misericórdia de Passos. Em uma das noites consideradas mais críticas, uma interrupção no fornecimento de energia elétrica atingiu o hospital, que, segundo os relatos, não possuía um sistema de geração capaz de atender às necessidades da unidade. Em meio à emergência, médicos e profissionais de saúde atuaram para manter a paciente viva.
O pai de Gleida, médico pediatra, acompanhava os procedimentos e havia sido informado sobre a gravidade do quadro. De acordo com o relato, diante da perda progressiva dos sinais vitais, a equipe médica comunicou aos familiares que havia poucas possibilidades de reversão da situação.
“Eu estava desacreditada, desenganada, por uma equipe médica do Brasil e alguns médicos estrangeiro. Não havia mais nada a ser feito&#8221. relembra Gleida.
Enquanto isso, na Capela do Educandário Senhor Bom Jesus dos Passos, a avó da menina, Maria, participava de orações pela recuperação da neta e pedia a intercessão do então Venerável Padre Aníbal Maria Di Francia. Mesmo após receber a informação de que o estado da criança era considerado praticamente irreversível, ela permaneceu em oração e solicitou que os demais continuassem rezando.
Segundo os relatos que posteriormente integraram o processo canônico, durante as orações na capela, a criança recuperou os sinais vitais na Santa Casa. A melhora ocorreu de forma súbita e, conforme registrado no processo, sem explicação médica compatível com a gravidade do quadro clínico.
“Eu hoje sou curada de Guillain-Barré sem nenhuma sequela, então eu sou um milagre viva de Santo Aníbal&#8221. celebra Danese.
A descoberta de que sua história faria parte da Igreja
Apesar da recuperação, Gleida afirma que jamais imaginou, ainda criança, que sua cura seria considerada um milagre. Essa compreensão só veio anos depois, quando a Igreja Católica iniciou oficialmente o processo que reconheceria o caso. Foi o padre Guido Montinelli quem lhe apresentou a dimensão do que havia acontecido.
“Meu entendimento veio quando o processo começou a ser montado. Foram cerca de 2.000 páginas. Não foi fácil, mas foi quando compreendi por que havia sido milagrosamente curada. Desde então não existe dúvida na minha vida de que sou um milagre vivo por intercessão de Santo Aníbal&#8221. afirma Gleida.
De acordo com o reitor do Santuário Santo Aníbal, padre Silas de Oliveira, durante a investigação conduzida pela Igreja, mais de 30 testemunhas foram ouvidas.
“A documentação médica descreveu o caso como uma combinação de ruptura traumática da aorta, Síndrome de Guillain-Barré, traqueostomia, anemia pós hemorrágica grave e choque hipovolêmico. Ainda de acordo com o processo, a recuperação foi considerada cientificamente inexplicável e reconhecida como o milagre atribuído à intercessão de Santo Aníbal Maria Di Francia, que contribuiu para seu processo de beatificação&#8221. explica o reitor.
Após o reconhecimento do milagre, a antiga Capela do Educandário passou a receber visitantes de diversas cidades. O local se consolidou como ponto de peregrinação de fiéis que buscam oração, agradecimento por graças alcançadas e fortalecimento da fé.

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