A Ambipar e o Opportunity, de Daniel Dantas, travam uma disputa na Justiça norte-americana, onde a reorganização sob o Chapter 11 de uma subsidiária da Ambipar, a Ambipar Emergency Response (AER), é discutida em paralelo à recuperação judicial do grupo no Brasil.
De um lado, o Opportunity, que é um dos principais acionistas minoritários da AER (com aproximadamente 24% das ações) e tem uma cadeira no conselho de administração, alega que a Ambipar falta com transparência e está utilizando o processo nos EUA apenas como uma manobra tática para paralisar credores.
Do outro, a Ambipar acusa a gestora de tentar tumultuar o processo de recuperação judicial e alega que Dantas é um “litigante sofisticado” com um longo histórico de disputas judiciais e que sua gestora é um acionista “out-of-the-money”. o que significa que o valor de suas ações é nulo diante da magnitude das dívidas que têm prioridade de pagamento.
A Ambipar entrou em recuperação judicial no Brasil em 20 de outubro de 2025 após alegar risco às operações devido ao vencimento antecipado de dívidas que superaram R$ 10 bilhões, causado por uma chamada de margem de R$ 60 milhões feita pelo Deutsche Bank em contratos de derivativos.
Depois disso, o fundo Everest FIP, que tem o Opportunity como cotista e detinha participação de 23,8% no capital da Ambipar, passou a executar ações de propriedade de Tércio Borlenghi, sócio majoritário e controlador da Ambipar. O Bradesco, que é credor da empresa, fez o mesmo. O empresário relaciona essa grande oferta de ações da companhia à queda drástica no valor do papel e conseguiu que a Justiça barrasse essas vendas.
A disputa entre Opportunity e Ambipar seguiu e chegou ao processo de Chapter 11 que corre na Corte de Falências do Distrito Sul do Texas. Lá, o veículo de Daniel Dantas tenta acesso a documentos que, no Brasil, foram colocados sob sigilo pela justiça do Rio de Janeiro, como relatórios gerenciais de fluxo de caixa, dados bancários e fiscais das empresas e a relação detalhada de salários de funcionários.
O Opportunity alega que até agora a Ambipar não explicou o paradeiro de R$ 4 bilhões em liquidez que constavam em balanços públicos de junho de 2025 e que teriam “sumido” antes do pedido de recuperação, citando o risco de potencial fraude ou apropriação indébita por parte dos controladores. Para a gestora, a Ambipar está usando o processo nos EUA apenas como manobra tática para suspender ações de credores internacionais enquanto busca prejudicá-los no plano de recuperação brasileiro.
Enquanto o Opportunity pede acesso a documentos da Ambipar e de transações bancárias granulares dos executivos Tércio e Guilherme Borlenghi, a empresa responde que o Opportunity já possui acesso a informações privilegiadas via sua cadeira no conselho e reclama que Daniel Dantas tenta, na verdade, realizar uma “expedição de pesca” (fishing expedition) para obter provas indevidas para litígios no Brasil.
Citando reportagens que tratam o banqueiro como “bad boy” das finanças brasileiras, a Ambipar acusa o Opportunity de tentar interromper as negociações de reestruturação que estão perto de um desfecho. Para a Ambipar, Dantas não se importa em “destruir valor” da companhia pertencente aos detentores de títulos (bondholders), já que, como acionista “out-of-the-money”, ele não teria nada a recuperar financeiramente
Citando um histórico de “má conduta”, incluindo uma condenação por tentativa de suborno em 2008 (posteriormente anulada), a Ambipar ainda diz que Dantas tem o potencial de “instrumentalizar” ou “usar como arma” informações confidenciais para prejudicar a empresa na recuperação judicial brasileira.
Na quarta-feira (8), após o fechamento do mercado, a Ambipar informou ter fechado acordo apoio à reestruturação com credores detentores de uma parcela majoritária dos green notes com vencimentos em 2031 e 2033, emitidos por uma subsidiária. Pelo acordo, Tércio Borlenghi (CEO) e Thiago da Costa Silva (CFO), continuarão a liderar as operações após sua implementação. A Ambipar também informou terem sido alcançados termos satisfatórios para a assinatura, de um financiamento com o Itaú BBA International.
Nesta sexta, o Valor revelou detalhes do que havia no caixa da Ambipar no final do ano passado. De acordo com o jornal, dos R$ 2,5 bilhões em caixa na ocasião, R$ 1,2 bilhão era relativo a um fundo que tinha como ativo um pré-precatório federal contabilizado a valor de face – mesma manobra usada pelo Master para inflar seu caixa. Outros R$ 247 milhões eram investimentos em um banco em recuperação judicial, provavelmente o Master. Caixa, equivalentes de caixa e investimentos em bancos de primeira linha somavam apenas R$ 295 milhões, segundo o Valor.
Procurada pela coluna, a Ambipar não quis comentar. O Opportunity não respondeu.





