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Morar junto com alguém pode estar ‘contaminando’ sua boca (e isso não é necessariamente ruim)

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Dividir a casa, os talheres e, sobretudo, os beijos com alguém tem um efeito que vai muito além do afeto: também redesenha, de forma mensurável, a comunidade de bactérias que habita a boca e o intestino.

É o que mostra um estudo publicado no periódico Cell Press Blue em junho de 2026, conduzido por pesquisadores da Universidade de Trento, na Itália, em colaboração com instituições da Espanha e da própria Itália.

Ao analisar 1.644 amostras pareadas de saliva e fezes de 808 pessoas, os cientistas encontraram evidências de que pessoas que moram juntas compartilham significativamente mais cepas bacterianas —tanto orais quanto intestinais— do que pessoas de domicílios diferentes, e que os casais são o grupo com maior compartilhamento de microbiota oral entre todos os tipos de relação familiar estudados.
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O que o estudo mediu
A equipe não analisou apenas quais espécies de bactérias existem no organismo de cada pessoa, mas foi além: usando uma ferramenta de reconstrução genética chamada StrainPhlAn, os pesquisadores identificaram cepas específicas —variantes de uma mesma espécie bacteriana— e verificaram quando duas pessoas carregavam exatamente a mesma cepa. Essa abordagem permite diferenciar uma simples coincidência taxonômica de um evento real de transmissão entre indivíduos.
O resultado: pessoas que compartilham domicílio apresentaram uma taxa mediana de compartilhamento de cepas intestinais de 19%, contra 6% entre pessoas de casas diferentes.

Na microbiota oral, a diferença foi ainda mais acentuada —25,8% entre coabitantes contra praticamente zero entre não coabitantes.
Parceiros trocam mais bactérias orais do que intestinais
Um dos achados mais chamativos da pesquisa diz respeito especificamente aos casais. Entre todos os tipos de relação analisados —pais e filhos, irmãos e parceiros românticos—, apenas os casais apresentaram uma proporção maior de compartilhamento de bactérias orais do que intestinais: uma mediana de 44,4% de cepas orais compartilhadas, contra 19,5% de cepas intestinais.

Os autores atribuem esse padrão à troca de saliva por meio do beijo, um comportamento que classificam como fator central na formação do microbioma bucal ao longo da vida adulta —reforçando achados de estudos anteriores sobre o tema.
Gastroenterologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Rogério Alves explica que essa dinâmica é esperada e não representa, por si só, um risco à saúde.

"É natural que haja transmissão de bactérias entre pessoas, porque elas estão por toda parte —no ar, nos alimentos, nas superfícies. Existe uma troca constante entre esses micro-organismos, e nada mais normal do que pessoas próximas apresentarem uma transmissibilidade maior entre si", afirma.
Segundo ele, o compartilhamento de talheres e copos também contribui para essa troca, já que o processo digestivo começa na boca.

"Pessoas com higiene bucal mais precária tendem a ser mais suscetíveis a essas trocas", acrescenta.
Mais do que uma curiosidade sobre hábitos de casais, o achado abre uma via de investigação sobre como a transmissão de bactérias entre pessoas pode influenciar diretamente o risco de doenças metabólicas, ampliando o entendimento de que o microbioma não é uma característica fixa e individual, mas um sistema em constante troca com quem nos cerca.
Um microbioma que nunca para de mudar
O estudo também constatou que as bactérias da boca são substituídas com muito mais frequência ao longo do tempo do que as do intestino.

Em voluntários acompanhados por cerca de três meses e meio, a taxa de substituição de cepas orais foi de 14,7%, contra apenas 5,8% no intestino —indício de que a cavidade oral, por estar mais exposta ao ambiente externo, recebe um fluxo constante de novos micro-organismos concorrentes.
Para Rogério Alves, esse dinamismo é uma característica central do microbioma humano.

"O microbioma é algo dinâmico: nós o construímos e o modificamos dia após dia. Embora exista um componente importante herdado na primeira infância, ele permanece mutável ao longo de toda a vida, conforme nossa alimentação, nossa imunidade e o contato com diferentes bactérias", diz.
Ainda não existe, segundo ele, uma forma de intervir clinicamente sobre essa composição de maneira precisa —mas esse é um dos principais horizontes de pesquisa da área.

"Sabe-se hoje que algumas bactérias estão mais associadas a doenças, à piora da obesidade e da saúde cardiometabólica. Por isso, discute-se a possibilidade de modular o microbioma no futuro, favorecendo bactérias benéficas por meio de alimentação rica em fibras, probióticos e atividade física regular", explica.
Nem toda bactéria transmissível é boa notícia
Um dos pontos mais relevantes do estudo é a associação entre transmissibilidade e saúde.

Ao cruzar os dados de compartilhamento domiciliar com rankings de saúde cardiometabólica, os pesquisadores descobriram que as bactérias intestinais mais facilmente transmitidas entre coabitantes tendem a ser justamente aquelas associadas a pior perfil metabólico —e não as benéficas.

Entre as espécies mais transmissíveis identificadas está a Sellimonas intestinalis, fortemente associada a marcadores de diabetes tipo 2, enquanto bactérias ligadas à boa saúde cardiometabólica raramente figuram entre as mais transmitidas.
Isso indica que bactérias associadas a doenças parecem ter mecanismos mais eficientes de disseminação —ou talvez enfrentem menos resistência à colonização— do que as espécies benéficas, que teriam mais dificuldade em se estabelecer em um novo hospedeiro.
Alves reforça, entretanto, que a chegada de um micro-organismo ao corpo não determina, sozinha, o adoecimento.

"Quando um agente chega ao organismo, ele será combatido ou não a depender da nossa imunidade. Pessoas mais debilitadas tendem a apresentar infecções mais graves mesmo diante de micro-organismos pouco agressivos", pontua.
A descoberta de uma bactéria que só vive na boca
O estudo identificou, ainda, uma subespécie até então pouco caracterizada da Bifidobacterium longum —uma bactéria amplamente estudada por seus benefícios à saúde intestinal— que parece colonizar exclusivamente a cavidade oral.

Batizada provisoriamente de B. longum subsp. nexti, essa variante nunca foi encontrada com a mesma cepa tanto na boca quanto no intestino das mesmas pessoas, ao contrário do que ocorre com a maioria das espécies que habitam os dois ambientes simultaneamente.

Segundo os pesquisadores, sua baixíssima abundância pode explicar por que ela passou despercebida em levantamentos anteriores.

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