Sob a luz fria da sala de audiência, sentado próximo aos advogados do homem acusado de matar sua filha — a soldado da PM Gisele Alves Santana, morta aos 32 anos com um tiro na cabeça —, José Simonal Teles de Santana precisou de poucas palavras para rejeitar a versão de suicídio apresentada pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso pelo feminicídio.
“Jamais a minha filha iria se matar, ela gostava muito de viver”, afirmou o pai da PM Gisele.
De fala simples, José se emocionou em diferentes momentos do depoimento prestado à Justiça no último dia 1º (assista acima). O choro veio com mais força quando ele recordou a noite em que viu Gisele viva pela última vez. O pai interrompeu a fala e permaneceu em silêncio por alguns instantes, até conseguir continuar.
Geraldo Neto está preso desde 18 de março, exatamente um mês após a morte da esposa. Ele é réu por feminicídio e fraude processual. A defesa sustenta que Gisele tirou a própria vida. A Polícia Civil, no entanto, concluiu que os laudos e demais provas tornaram essa hipótese inviável.
“Ela gostava de viver”
Logo no início do depoimento, José foi questionado se a filha apresentava algum sinal de que pudesse cometer suicídio. “Jamais”, respondeu, acrescentando que Gisele era alegre, tinha planos e amava a filha de 7 anos, de outro relacionamento. Ao final, o pai voltou espontaneamente ao assunto.
“Ela era uma moça feliz, cheia de paz. Gostava de viver. Ela só queria viver”, disse.
A declaração dialoga com o depoimento prestado logo depois por Marinalva Vieira Alves de Santana, mãe da policial. À Justiça, ela também negou qualquer comportamento suicida e afirmou que a filha “gostava de viver” e tinha na filha seu maior amor.
5 imagensFechar modal.1 de 5Pai de soldado Gisele chora em audiênciaReprodução/TJSP2 de 5Ele se emocionou ao se lembrar do último dia em que viu a filha vivaReprodução/TJSP3 de 5Pai falou à Justiça em audiência de instruçãoReprodução/TJSP4 de 5José Simonal, pai da soldado Gisele, morta com um tiro na cabeça em fevereiro deste anoReprodução/TJSP5 de 5Reprodução/TJSP
O último encontro com a filha
José contou que, na sexta-feira anterior à morte, Gisele ligou chorando e pediu que os pais fossem buscá-la no apartamento onde vivia com o coronel, no Brás, região central de São Paulo.
Preocupado, ele decidiu não esperar pelo dia seguinte. Pegou o carro com Marinalva e foi até o prédio. Gisele desceu acompanhada da filha e conversou com a mãe durante cerca de 15 minutos, mas decidiu permanecer no apartamento. Ao recordar aquele momento, José não conseguiu conter as lágrimas.
“Foi a última vez que eu vi ela viva”, disse, antes de fazer uma pausa. “Depois, só no caixão.”
Segundo o pai, a casa da família continuava disponível para Gisele. Ele já havia dito à filha que ela poderia voltar caso o casamento terminasse. “Não deu certo [o casamento], a vida continua”.
Salário, carros e apartamento
Antes mesmo de conhecer pessoalmente os futuros sogros, Geraldo os adicionou no WhatsApp e começou a enviar mensagens sobre seu patrimônio, segundo José. O oficial teria mostrado fotos do apartamento e dos carros, além de informar sua profissão e quanto recebia.
“Sem conhecer a gente, já mandou: ‘Eu moro nesse apartamento, eu tenho isso, carro’. Falou até do salário dele, quanto ele ganhava”, declarou o pai.
A atitude incomodou principalmente Marinalva, que bloqueou o coronel. José decidiu manter o contato para observar o comportamento dele.
“Como é que você vai conhecer uma família e já vem falando: ‘Eu tenho isso, minha profissão é essa, eu ganho tanto’?”, questionou. Para o pai, parecia que Geraldo queria se mostrar “melhor que os outros” por causa das posses.
A preocupação com dinheiro também aparece nos depoimentos prestados pelo coronel durante a investigação. Como mostrou o Metrópoles, Geraldo descreveu o casamento como uma “vida precária” e apresentou Gisele como financeiramente dependente dele.
José ainda afirmou ter presenciado uma discussão em que o oficial humilhou a esposa ao dizer que pagava todas as despesas.
“Ele falava que bancava tudo. ‘Quem banca tudo aqui é papai’”, relatou. Segundo o pai, o coronel batia no peito e no bolso enquanto falava.
Controle sobre Gisele
O pai afirmou que a filha mudou depois de iniciar a convivência com Geraldo e passou a se afastar da família e dos amigos.
6 imagensFechar modal.1 de 6PM Gisele: novos depoimentos podem levar à expulsão de tenente-coronelArquivo Pessoal2 de 6Reprodução/TJSP3 de 6Tenente-coronel teve prisão decretada por morte da esposa, a PM GiseleArquivo pessoal4 de 6Soldado era casada com tenente-coronel, que estava no apartamento no momento do tiroArquivo Pessoal5 de 6Gisele foi encontrada morta em fevereiroRedes Sociais/Reprodução6 de 6Reprodução/Polícia Civil
Segundo ele, o coronel telefonava para saber onde Gisele estava, observava o celular dela durante encontros familiares e demonstrava ciúme quando a policial conversava com outras pessoas.
“O negócio dele era controlar ela”, afirmou José.
Gisele teria tentado terminar o relacionamento cerca de quatro vezes. Segundo o pai, quando visitava a família sem o marido, ela falava sobre agressividade, gritos e o desejo de se separar.
“Esse casamento não vai dar certo. Isso aí não vai acabar bem”, José disse ter alertado a filha.
Mensagens recuperadas pela perícia posteriormente mostraram que Gisele havia decidido pedir o divórcio. A Polícia Civil afirma que parte dessas conversas foi apagada do celular do coronel depois do disparo.
Nenhuma ligação depois da morte
Apesar de telefonar frequentemente para José enquanto Gisele estava viva, Geraldo não procurou o sogro depois da morte da esposa. “Quando ele precisava de mim, ele ligava direto”, contou o pai.





