Há quase quatro décadas na estrada, o Rosa de Saron se consolidou como um dos maiores nomes do rock cristão brasileiro.
Formada por Bruno Faglioni, Rogério Feltrin, Eduardo Faro e Wellington “Grevão” Silva, a banda conseguiu um feito raro: ultrapassar as barreiras do público religioso e conquistar ouvintes de diferentes estilos musicais.
Ao longo da carreira, emplacou sucessos como Do Alto da Pedra, Rara Calma, Sem Você, Menos de um Segundo, Aurora e Sol da Meia-Noite, músicas que seguem presentes em playlists e apresentações pelo país.
Nova fase
Agora, o grupo vive uma nova fase com o lançamento de Rua dos Regressos, primeiro álbum inteiramente de inéditas em cinco anos.
Em conversa com a coluna Fábia Oliveira, os músicos abriram o jogo sobre a ansiedade pelo novo trabalho, revelaram como é a convivência entre eles nos bastidores, detalharam as referências da cultura pop que inspiram suas composições e relembraram histórias emocionantes de fãs que tiveram suas vidas marcadas pelas canções da banda.
Eles também falaram sobre as mudanças na rotina ao longo da trajetória e revelaram o ritual que nunca fica de fora antes de subir ao palco.
4 imagensFechar modal.1 de 4Banda Rosa de SaronReprodução/Internet.2 de 4Banda Rosa de SaronReprodução/Internet.3 de 4Banda Rosa de SaronReprodução/Internet.4 de 4Banda Rosa de SaronReprodução/Internet.
Confira o bate-papo completo
Depois de cinco anos sem um projeto 100% inédito, como foi o processo de segurar a ansiedade de vocês e dos “rosarianos” para o lançamento de Rua dos Regressos?
Rogério Feltrin: Foram cinco anos sem um projeto de inéditas, mas, nesse tempo, muitos projetos aconteceram de outras formas. Além de alguns singles, a gente fez um DVD, o “In Concert”. no Theatro Municipal com uma orquestra sinfônica, que foi um trabalho muito grandioso. Nesse meio tempo, aconteceram outras coisas que alimentaram o público e também o nosso desejo de criar e lançar novidades.
Mas um projeto de inéditas sempre gera uma ansiedade, porque a gente não sabe como as pessoas vão receber essas músicas. Quando estava tudo pronto, a gente ficou muito curioso para saber como seria a reação do público e o que as pessoas comentariam. O álbum já estava finalizado, mas ainda não era a data do lançamento que tínhamos programado. Isso gerou uma ansiedade boa, tanto na gente quanto nos fãs. No fim, valeu a espera. As pessoas estão curtindo muito o trabalho, e isso faz tudo valer a pena.
Vocês já estão juntos há muito tempo na estrada. Quem do grupo é o mais focado e quem é o que mais vive “no mundo da lua” ou traz descontração para as viagens?
Bruno: O Duzinho, o Eduardo Faro, é o mais pé no chão, com certeza. Não é à toa que é ele quem cuida do financeiro. Já o Rogério é um cara mais emotivo, mais sensível. Também é o mais velho da banda, então já viu de tudo nessa vida, nosso “Matusalém”. Mas, apesar desses traços mais sérios, tanto o Duzinho quanto o Rogério sabem dar muita risada.
O Duzinho é o cara das piadas surpreendentes. Você não espera, mas ele está sempre ligado para pegar alguma coisa na curva e brincar com a situação. Já arrancou muitas gargalhadas nossas com isso. Não dá para bobear na frente dele, porque ele percebe os detalhes.
O Rogério já é mais sarcástico e irônico. As piadas dele até doem mais em mim, porque ele sabe pegar no calcanhar das pessoas. É muito bom nisso. É a boa crueldade do Rogério Feltrin.
O Wellington Greve, o Grevão, é o “tiozão do churrasco”. É o cara que ri mais fácil das coisas, está sempre fazendo uma tirada. É o mais “gente como a gente”. está sempre dando risada de tudo.
E, com certeza, eu sou o mais no mundo da lua.
Mas também temos nossos momentos de guardar a brincadeira no bolso e sermos sensíveis à dor do outro, especialmente quando entra alguém no camarim precisando de uma palavra de apoio ou de um abraço. E, na hora de planejar alguma coisa importante, sabemos dar espaço ao nosso lado mais profissional e menos bem-humorado.
No álbum vocês trazem uma referência ao universo de O Senhor dos Anéis na música “Mordor”. Quais outras referências de livros, filmes ou séries fazem a cabeça de vocês nas horas vagas?
Bruno: Cara, por sermos todos bons consumidores de cultura pop, eu acho que tudo pode virar música. Mas é claro que a gente sempre coloca toda forma de arte e expressão sob exame para ver se aquilo faz sentido para a nossa missão.
A gente já absorveu muita coisa de anime, por exemplo. Eu mesmo já trouxe referências de Dragon Ball, principalmente musicalmente. Temas de anime vivem tocando na minha cabeça, então é comum que, em algum momento, uma música do Rosa de Saron tenha alguma influência desse universo. Em “A Fênix”. por exemplo, chega um momento em que a música passa para o inglês. As trilhas de Dragon Ball fazem muito isso: de repente muda a língua. Essa ideia de, no ápice da música, trazer algumas palavras em outro idioma inspirou o trecho “You’re Gonna See Me Fly”.
Para compor “Baile das Máscaras”. o riff principal, que criei lá em 2021, nasceu de uma trilha sonora do filme Mortal Kombat (1995), mais especificamente do tema de um dos vilões. Eu queria trazer algo mais sinistro, que transmitisse uma sensação de incômodo, porque a música fala de algo muito cruel: as pessoas perdendo a vida durante a Covid. Ela também faz uma alusão a A Máscara da Morte Rubra, de Edgar Allan Poe, outra obra que serviu de inspiração, inclusive para o clipe.
Tem um filme chamado Questão de Tempo que sempre me vem à cabeça quando penso em algo mais saudosista. Quando fui compor “Terra do Nunca”. lembrei muito dele. É um filme lindo, em que o protagonista descobre que pode voltar no tempo, assim como o pai, e tenta consertar acontecimentos do passado. No fim, percebe que o mais importante não é mudar o que passou, mas aprender a viver melhor o presente. Essa ideia também influenciou alguns trechos da letra de “Terra do Nunca”.
Poderia ficar falando sobre essas inspirações até depois de amanhã, porque realmente são muitas. A própria música “Pra Descobrir” tem um aspecto que remete à série Dark, tanto no clipe pela paisagem e pela floresta quanto na própria música, nas falas que aparecem ao longo dela.
Enfim, a gente bebe muito da cultura pop e procura transformar essas referências em algo que também agregue à nossa mensagem do Evangelho.
As músicas de vocês falam muito sobre cura, superação e fé. Qual foi a história mais emocionante ou inusitada que vocês já ouviram de um fã sobre como uma música do Rosa mudou a vida dele?
Eduardo: Ao longo de todos esses anos, muitas pessoas se aproximaram da gente para contar suas histórias, seja em visitas ao camarim, por e-mail ou pelas redes sociais, compartilhando experiências que tiveram com as nossas canções.
São relatos de todos os tipos: pessoas que passaram por um luto profundo, como a perda de uma filha assassinada; famílias com filhos pequenos enfrentando doenças graves, alguns que conseguiram se curar e outros que não. Em muitos desses casos, as músicas, por levarem uma mensagem de esperança e fé, acabaram sendo um suporte importante na vida dessas pessoas.
Mas uma das histórias que mais me marcou envolve uma música antiga chamada “Muitos Choram”. A letra diz: “Hoje muitos choram, mas não desistem de viver. Hoje muitos choram sorrindo.”
Uma pessoa nos contou que havia decidido tirar a própria vida. Ela esperava os pais dormirem para colocar esse plano em prática. Enquanto esperava a casa ficar em silêncio, começou a passar os canais da televisão e nos viu tocando justamente essa música. Naquele momento, a letra a emocionou profundamente. A mensagem entrou no coração dela e fez com que desistisse de tirar a própria vida. Depois, essa pessoa nos escreveu contando toda a história. É um relato que já compartilhamos algumas vezes justamente para levar um pouco mais de esperança às pessoas.
É por isso que fazemos o que fazemos. Nem sempre falamos de Jesus de forma explícita nas músicas, mas falamos daquilo que Ele ensinou, daquilo que pregou e espera de nós: perdão, misericórdia, compaixão, amor e esperança. Essa é a nossa maneira de evangelizar: às vezes falando diretamente sobre Ele, outras vezes trazendo Seus ensinamentos para que as pessoas possam refletir sobre eles.
O som de vocês transita entre baladas tranquilas e o rock intenso. Olhando para trás, o que mudou na rotina de vocês como artistas e como pessoas nesses últimos cinco anos?
Rogério Feltrin: A rotina muda naturalmente. Afinal, são quase 40 anos de trajetória, uma longevidade muito grande. Com o passar do tempo, a gente amadurece, envelhece, e a vida passa a ter outras demandas.
Começamos como um grupo de adolescentes. Hoje somos pessoas com família, filhos; no caso do Grevão, filhos adultos. Então, claro que as rotinas mudam. Mas, de alguma forma, muita coisa permaneceu igual: o sentimento de descontração, o amor pelo que faz, o desejo de criar coisas novas, o prazer de estar junto, o compromisso de evangelizar, de falar sobre Deus às pessoas e de buscar Deus dentro do próprio trabalho o tempo todo. Isso tudo se manteve.
O que mudou ficou mais na rotina e nos aspectos do dia a dia. Na essência, acho que a banda permanece há tanto tempo justamente porque continua muito leal e fiel aos seus princípios.
O que não pode faltar de jeito nenhum no camarim de vocês antes de subir ao palco e qual é o principal costume que vocês têm juntos antes de cada show?
Grevão: Não podem faltar as baquetas! Kkkkk. Além disso, temos a nossa reunião de repertório. Trabalhamos com um setlist já definido, do qual tiramos ou acrescentamos algumas músicas depois de entender qual é o perfil do público presente no evento. Sempre que contamos com a presença de uma autoridade religiosa, também pedimos uma bênção antes de subir ao palco. É assim que seguimos para o show.





