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Camisas de futebol viram vestidos e corsets nas mãos de estilista do interior de SP; Anitta e Rafa Kalimann aderem

Camisas de futebol viram vestidos e corsets nas mãos de estilista do interior de SP
O que para muita gente é apenas uma camisa de futebol antiga, para a estilista Ana Matos, de Campinas (SP), pode virar um vestido, um corset ou até uma saia. A proposta de reaproveitar as peças esportivas levou suas criações, nos últimos anos, ao guarda-roupa de artistas como Anitta, Valesca Popozuda e Majur.
A técnica usada por Ana é conhecida como upcycling, que reaproveita materiais descartados para criar produtos de maior valor. Ela também utiliza o rework (ou retrabalho) que modifica uma peça para mantê-la atual, preservando sua estrutura e usabilidade. O resultado são roupas que estampam o visual esportivo de forma totalmente nova.
Em seu perfil no Instagram, Ana Matos destaca tops, corsets bem estruturados, saias e outras peças feitas a partir de camisas de times – principalmente nas cores do Brasil, para seguir o clima de Copa do Mundo. Segundo ela, o trabalho, que une moda e sustentabilidade, começou no mundial de 2022, agora ganhou ainda mais força com o verde e amarelo.
✨ Neste ano, famosas como as ex-BBBs Marcela Gowan, Samira Sag, Beatriz Reis; a cantora Marvvila e MC N.I.N.A do Porte já usaram as peças para a Copa do Mundo 2026.
Anitta e Beatriz Reis estão entre famosas que já usaram as peças produzidas em Campinas
Reprodução/Redes Sociais
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Como a marca surgiu?
A marca nasceu entre o fim de 2020 e o início de 2021. Na época, Ana começou a resgatar camisas esportivas em brechós, bazares de igreja e no próprio guarda-roupa para criar peças exclusivas. "Eu peguei todo o meu acervo que eu tinha, tudo que eu tinha guardado, e comecei a criar essas peças. Eu tinha uma [camisa do Brasil] de 98, que tava toda bagaçada, criei um conjunto".
O primeiro destaque ocorreu quando a influenciadora Gio Serrano pediu e usou uma das roupas. A estilista afirma que a repercussão chamou a atenção de consultores de imagem, e a rede de contatos cresceu. “A gente vem tendo essa rede de contatos, então os stylists vêm até a gente e a gente trabalha da melhor forma", conta Ana.
Hoje, a campineira tem contato com cerca de 50 a 60 profissionais da área. O negócio funciona de duas formas: venda direta ou empréstimo de peças catalogadas. "É basicamente assim: hoje estou mandando dez corsets para um stylist, aí eles já falam entre eles: 'Vai ter peça da Matos com fulano'", resume.
A parceria com a MC N.I.N.A do Porte teve papel decisivo. O pagamento pelo projeto permitiu que Ana deixasse de vender apenas sob encomenda para criar coleções criativas a partir do próprio acervo. Dessa colaboração saíram um vestido feito com uma camisa da seleção de 2002 e uma jaqueta acolchoada (estilo puffer) com forro estampado com brasões do Flamengo.
"Quando veio o trabalho com a Nina, ela foi muito importante pra mim porque foi uma artista que valorizou o meu trabalho, que me deu uma liberdade criativa total", diz Ana. Desde então, Linn da Quebrada, Rafa Kalimann, Marvilla e a ex-BBB Beatriz Reis também já garantiram as peças de Ana em seus guarda-roupas.
Roupa usada pela MC N.I.N.A do Porte em um festival
Reprodução/Redes socias
Produção e divulgação
Ana toca a empresa praticamente sozinha. Ela é responsável pela costura, modelagem, corte, vendas e fotografias. Para promover a marca, a estratégia é emprestar as peças para criadoras de conteúdo em troca de imagens e exposição nas redes. Toda a matéria-prima é de segunda mão.
O acervo da estilista conta com camisas nacionais e internacionais garimpadas em bazares, brechós locais e em feirinhas de trocas (feira do rolo). Foi em um desses espaços que ela encontrou uma camisa da Seleção Brasileira e a transformou em moda. "Consciência sempre limpa: eu não fui no camelô comprar, eu achei no brechó", diz.
"Eu venho acumulando desde a última Copa. Eu também vou em brechós aqui do meu bairro mesmo, eu ajudo em alguns brechós também, um brechó que também é do meu bairro, e aí eu pego essas camisas lá, né, conforme a gente vai fazendo a curadoria, que é bazar de igreja, sabe, para ajudar o pessoal, e aí eu consigo comprar deles", explica.
Ana conta que, hoje em dia, todas as suas parcerias com famosos e influenciadores vêm das redes sociais. "Agora, quando, por exemplo, bomba um vídeo no TikTok ou no Instagram de gente me indicando looks para usar na Copa, esse daí umas três gravaram. E aí é venda." "No começo do mês, assim, dia 20 ali de junho, nossa, eu tava fazendo 10 corsets por dia e tendo que enviar todos os dias, finalizando, embalando, enviando, isso tipo até seis horas, porque era, tipo, furou a bolha, sabe?", contou.

Confira famosas que já usaram Matos Brexó
De Campinas a Boston com Anitta
Em maio de 2024, Ana recebeu uma grande proposta: vestir a Anitta em um dos shows de sua primeira turnê internacional.

Ana foi convidada para participar do FauFest 2024, que aconteceu nos dias 7 e 8 de maio, um evento promovido pelo Senac Lapa Faustolo, que consiste em apresentar projetos dos alunos de moda, e sua loja foi utilizada como exemplo em um dos grupos. No local da exposição, ela foi abordada por uma marca.
"Aí ela falou assim: 'ah, oi, você que é a Ana da Matos? Não era nem da Matos, é tipo, das que fazem as peças do Brasil?'. Aí eu falei que sim, que era eu, e ela falou que naquela semana a stylist da Anitta tinha entrado em contato com ela, procurando o corset do Brasil, só que ela falou que não era ela que fazia, que era outra pessoa", contou.

No mesmo momento, ela anotou o contato da stylist da cantora e a chamou no mesmo dia. "Ela, já no mesmo dia, me respondeu. Também dei a sorte com o meu acervo todo, estava em São Paulo. E aí, no mesmo dia, assim, ela já retirou as peças, já fechou mala, já fotografou, né, pra fechar a mala e mandar pra Miami".

O show aconteceu no dia 28 de maio, 20 dias após ela receber o convite. "Foi, tipo assim, muito louco, muito acaso, muita sorte, porque ela falou que ela tinha tentado achar o meu perfil, mas ela não lembrava o nome da minha marca", diz.

Sustentabilidade é a prioridade
Ana Matos, estilista e dona da Matos Brexó
Reprodução/Redes socias
Geógrafa de formação e atuante na área de negócios sustentáveis (ESG), Ana critica uma prática que virou tendência na internet: comprar camisas novas nas lojas apenas para cortá-las. A estilista diz que isso não tem nada a ver com a proposta do upcycling e do rework.
Upcycling é o conceito mais amplo. Consiste em transformar um material ou produto descartado em outro de maior valor, sem passar por um processo industrial de reciclagem. O objeto ganha uma nova função ou identidade. Exemplo: transformar uma camisa de futebol em um vestido, um corset ou uma bolsa.
Rework é uma técnica de intervenção em uma peça que já existe. A roupa continua sendo essencialmente a mesma, mas é remodelada, ajustada ou customizada para ganhar uma nova aparência ou caimento. Exemplo: encurtar uma camisa, trocar mangas, ajustar a modelagem ou adicionar detalhes, mantendo a peça como uma camisa.
♻️ Na prática, todo rework pode fazer parte de uma estratégia de upcycling, porque prolonga a vida útil da peça. Porém, nem todo upcycling é rework, já que o upcycling pode transformar completamente o objeto original.
"É muito massa que tem gente usando corset de copa, mas isso também me traz para um lugar de questionamento: é muita gente cortando camisa nova, e não é uma customização para uma cliente específica — é comprar a rodo", avalia. Para ela, o caminho é reaproveitar o que já existe: "tem camisa do Brasil descartada por aí à toa, e dá pra fazer um trabalho em cima disso".
Durante o Mundial do Catar, em 2022, ela produziu dezenas de conjuntos e corsets em três meses com a ajuda da mãe. Hoje, com uma maior valorização da marca, a lógica de dar uma nova vida a retalhos e camisas esquecidas continua a mesma. "A gente vai, claro, sempre buscando referência, mas também conseguindo linkar uma coisa na outra. No fim, é tudo uma construção daquilo que eu gosto", finaliza.

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