Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Navio africano segue atracado com tripulantes no Ceará há 3 meses após resgate em alto-mar e morte de capitão

Sem visto, nove tripulantes permanecem em navio africano atracado no Porto de Fortaleza
Um navio africano permanece há 3 meses atracado no Porto do Mucuripe, em Fortaleza, com a tripulação que se nega a voltar para casa sem o navio. Nove tripulantes estão morando dentro da embarcação, mas já conseguiram autorização para circular pela cidade. O barco só será liberado para retornar ao país de Senegal pela Marinha do Brasil quando todos os problemas forem reparados.
A embarcação NW Aidara fazia uma viagem costeira de 500 km do Porto de Dakar, no Senegal, para Guiné-Bissau, na África Ocidental. A previsão era que a viagem durasse dois dias. No entanto, o barco, por conta de falhas mecânicas e hidráulicas, ficou 50 dias à deriva do oceano Atlântico. O navio-tanque atracou em Fortaleza em 27 de março após ser resgatado pela Marinha.

✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp
Desde então, o grupo segue na cidade. Os africanos chegaram com problemas de saúde e precisaram ser levados à Unidade de Pronto Atendimento (UPA). O então capitão da embarcação, o ganense Charles Ray Annam, de 68 anos, foi destituído do cargo ainda com o barco à deriva no oceano, em razão da saúde fragilizada. Quando o grupo chegou em terra firme, ele precisou de atendimento hospitalar e morreu dias depois, em 9 de abril, na UPA onde foi atendido.

O destino do corpo de Charles também virou um impasse. A informação inicial era de que a família dele teria pedido para que fosse feito o enterro na capital cearense. No entanto, o judiciário emitiu atestado de óbito apenas no dia 3 de junho, para o corpo voltar a Gana.

De acordo com Anchieta, a empresa segue prestando todo apoio aos tripulantes. Ele cita que a alimentação e a acomodação foram as primeiras garantias asseguradas. O advogado fala ainda que uma televisão foi instalada dentro do navio para que os navegantes acompanhem a Copa do Mundo de Futebol.

A Capitania dos Portos do Ceará, da Marinha do Brasil, afirma em nota que ainda não recebeu do proprietário ou de qualquer integrante da tripulação do navio NW Aidara a informação de que o sistema de governo/propulsão do navio tenha sido reparado.
Segundo a Capitania, tão logo a embarcação esteja apta para navegar, bem como as deficiências apontadas pelo Grupo de Vistoria e Inspeção tenham sido sanadas, o navio poderá retornar ao seu país de origem, no que tange à responsabilidade da autoridade marítima.
Sobre os reparos, o advogado cita que tudo o que a Marinha pediu está sendo feito e que a maioria das peças vem de fora do estado. O barco salva-vidas e a embarcação auxiliar do navio precisam de reforma e de um certificado que é emitido no Rio Grande do Norte.

Anchieta diz ainda que os fogos de sinalização já foram comprados em São Paulo e que buscam uma transportadora para trazê-los. Segundo ele, há uma dificuldade diante da periculosidade dos explosivos. O advogado afirma ainda que os direitos trabalhistas, como o salário, seguem garantidos mesmo os marinheiros estando em terra. As famílias, segundo ele, recebem 500 dólares da empresa mensais, descontado do salário dos funcionários.

Diante da alegação de abandono da embarcação, o Ministério Público do Trabalho no Ceará (MPT-CE) ajuizou uma Ação Civil Pública para investigar a garantia de direitos dos migrantes e da empresa responsável pela embarcação e pela tripulação. Uma audiência está marcada para 16 de julho e será realizada pela 5ª Vara Trabalhista.
Tripulantes foram atendidos em UPA.
Reprodução/TV Verdes Mares
Morte do comandante
O comandante do navio africano que ficou à deriva no Oceano Atlântico por quase dois meses morreu no dia 9 de abril, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Praia do Futuro, segundo a Secretaria de Direitos Humanos do Estado (Sedih). Ele era natural de Gana e tinha 68 anos.
Jamina Teles, gestora de Política Estadual para Migrantes, Refugiados e Apátridas e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Sedih, informou ao g1, em entrevista concedida no dia 8 de abril, que a tripulação foi informada por psicólogos sobre a morte do idoso, no dia seguinte.

Segundo ela, o homem já chegou a Fortaleza com quadro de saúde debilitado e confusão mental, depois de quase 2 meses em alto-mar. Ele também foi substituído no comando do navio antes de a embarcação ser rebocada ao porto da capital cearense pela Marinha do Brasil, devido a situação de saúde.
Retorno ao país de origem
Jamina revelou também ao g1 que o holândes que estava junto da tripulação voltou ao país de origem esta semana. O restante da tripulação – oito ganeses e um albanês – permaneceram embarcados no navio.
“Nós oferecemos abrigo para a tripulação, mas eles optaram por ficar todos juntos. Eles estão aguardando o conserto da embarcação”, destacou a porta-voz do Programa Estadual de Atenção ao Migrante, na entrevista.
Conforme Jamina , também foi oferecida ajuda junto aos órgão competentes pra repatriação dos tripulantes, que também foi recusada. A expectativa do Estado era que técnicos da empresa viessem ao Brasil para consertar os problemas que resultaram na pane do navio.

“Nós oferecemos apoio logístico junto aos consulados. Nenhum teve interesse em voltar ao país de origem. A tripulação quer consertar o navio e seguir a rota de viagem rumo à Guiné-Bissau”, comentou Jamina à época.

Tripulação
O navio de origem africana, que ficou à deriva no Oceano Atlântico e precisou ser rebocado para o Porto de Fortaleza em 27 de março, tinha uma tripulação de 11 pessoas, das quais 9 são naturais de Gana, na África; um é dos Países Baixos e outro da Albânia, na Europa.

Dos 11 tripulantes, apenas os dois europeus têm visto para circular no Brasil, por isso, eles podem andar na capital cearense. Já os 9 ganenses não possuem visto e, por esse motivo, só podem transitar por território brasileiro na companhia de uma autoridade.
Conforme apuração da TV Verdes Mares, o tripulante holandês ficou hospedado em um hotel, com recursos próprios, antes de viajar para o seu país de origem.
O navio é de propriedade de uma empresa da Mauritânia, mas partiu do país vizinho, Senegal, com destino a Guiné-Bissau, onde seriam providenciadas atualizações documentais relacionadas ao novo proprietário do navio. A viagem deveria durar cerca de 48 horas.

À TV Verdes Mares, o capitão do navio, John Wesley Stuart, contou que o navio teve um problema hidráulico após deixar o Porto de Dacar (capital de Senegal) e a tripulação encontrou dificuldades técnicas para se comunicar.
A única forma de contato com o navio era por Very High Frequency (VHF) – ou seja, era possível apenas receber informações de navios próximos. A embarcação passou mais de 50 dias em alto-mar e, em alguns momentos, conseguiu se comunicar com outros navios que ofereceram algum tipo de ajuda.

Quando estavam no meio do Oceano Atlântico, eles conseguiram contatar um navio holandês, que não conseguiu rebocá-los, mas ofereceu ajuda para acionar a Marinha do Brasil para rebocá-los, uma vez que naquele momento a costa brasileira já era mais próxima a qual o navio africano poderia recorrer.

O resgate do navio
No dia 9 de março, o Navio-Patrulha Oceânico Araguari, da Marinha do Brasil, foi enviado para interceptar o navio africano, a fim de estabelecer comunicações, avaliar o estado da tripulação e, caso necessário, prestar apoio com suprimentos.
Ao mesmo tempo, o navio Corveta Caboclo saiu de Salvador (BA) e chegou em Fortaleza (CE) para também encontrar o navio africano.

Alguns dias depois, o Navio Rebocador de Alto-Mar Triunfo desatracou do porto de Natal (RN), resgatou o navio estrangeiro e o levou para o Porto de Fortaleza. A embarcação chegou a capital cearense dia 27 de março.

"As ações referentes às atividades de Busca e Salvamento desenvolvidas pela Marinha do Brasil resultaram no salvamento do navio, na manutenção da segurança da navegação e na prevenção da poluição hídrica. Porém, o êxito no cumprimento da missão reside na integridade física e psicológica dessas 11 vidas que poderão, em breve, voltar para os seus lares”, afirmou o Comandante do 3º Distrito Naval, Vice-Almirante Jorge José de Moraes Rulff.
De acordo com a Polícia Federal, os tripulantes foram resgatados com condições mínimas de higiene, restrições no acesso à água potável, elevado nível de estresse psicológico e falta de comunicação com familiares.
Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

Tags:

Gostou? Compartilhe!

Mais leitura
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore