Fazenda da maconha: André Fernandes volta ao local e encontra droga enterrada dias após visita do governador
Reprodução
O Partido Liberal (PL) afirmou que está avaliando uma ação de improbidade administrativa contra agentes públicos do governo estadual após as denúncias de que uma plantação com cerca de 290 mil pés de maconha, em Acopiara, no interior do Ceará, foi deixada pela Polícia sem vigilância e sem ter sido incinerada como determina a legislação, sendo apenas enterrada. As denúncias foram feitas pelo deputado federal André Fernandes (PL), nesta sexta-feira (3).
Em resposta, a Polícia Civil do Ceará afirmou que a operação de destruição e incineração da plantação de maconha foi concluída na quinta (2) e "o que o parlamentar citado na demanda encontrou foram restos da referida plantação e de outras plantas do terreno destruídas".
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Por meio de nota, o PL afirmou que pediu para seu corpo jurídico analisar o caso e que vai entrar com a ação de improbidade "caso as investigações confirmem que agentes públicos, no exercício de suas funções, deliberadamente deixaram de observar os deveres legais e funcionais impostos pela legislação".
Mais tarde, a Polícia Civil informou que a fazenda havia sido arrendada e já tinha identificado dono e arrendatário. No dia 2 de julho, o proprietário João Holanda Neto, foi preso temporariamente, enquanto familiares afirmavam que o verdadeiro responsável pela droga é Cristiano Rodrigues de Lima, o homem que arrendou a área em 2025. João Holanda foi solto nesta sexta (3). Cristiano está foragido.
Droga enterrada
Na nova denúncia publicada nesta sexta (3), André Fernandes conta ter ido à fazenda na noite da quinta-feira (2) e não ter encontrado nenhum policial no local. Na sequência, ele escavou uma área do terreno e encontrou os pés de maconha enterrados.
O deputado federal tentou chamar um trator para escavar outras áreas, mas foi interrompido por uma equipe da Polícia Civil que chegou ao local durante a gravação do vídeo.
"Comprovei que o governador mentiu. A droga não foi incinerada. Ela foi enterrada", afirma o deputado. "O governador disse que a polícia só sairia quando destruísse tudo. A destruição sendo a incineração. Não aconteceu".
📍Conforme a legislação brasileira, drogas apreendidas sem a ocorrência de prisão em flagrante (isto é, sem ninguém ter sido preso com elas ) devem ser destruídas por incineração, no prazo máximo de 30 (trinta) dias contados da data da apreensão. A legislação também determina a delimitação do local, "asseguradas as medidas necessárias para a preservação da prova".
O deputado apontou ainda que só escavou um pedaço do terreno, mas que haveria mais drogas enterradas no restante da área. Toda a área foi revolvida por tratores da Superintendência de Obras Públicas (SOP), que estavam ajudando nos trabalhos policiais.
Acampamento no Ceará continha toneladas de maconha e estrutura de trabalho
Conduta de policiais investigada
Quando a operação foi deflagrada, no dia 25 de junho, a Polícia Civil informou ter descoberta a área de plantio e também um acampamento usados pelos suspeitos, que fugiram com a chegada dos policiais. Em um dos pontos, os agentes acharam até feijão cozinhando em uma panela, o que indicava que a saída dos criminosos era recente.
Na ocasião, os agentes localizaram cerca de 160 mil pés de maconha em fase de cultivo e outros 130 mil pés já colhidos, totalizando uma estimativa de 290 mil pés da droga, com cerca de 5 toneladas do entorpecente.
Polícia encontra acampamento no Ceará com toneladas de maconha e estrutura de 'trabalho'
Após a abordagem, a Polícia Civil chegou a divulgar um vídeo da plantação de maconha sendo derrubada por tratores e incinerada no próprio local.
No entanto, o deputado federal André Fernandes mostrou que a maior parte da plantação seguia no local, e a parte que já havia sido colhido e ensacado também estava lá. Na residência do sítio, foram deixados materiais como celular e cadernos de anotações.
Cinco toneladas de maconha são apreendias no Ceará.
Divulgação/SSPDS
Após a denúncia de André Fernandes, no fim de junho, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que iria investigar a denúncia de "falha nos procedimentos na custódia". A pasta quer saber o motivo da droga ter sido mantida na área com os pés de maconha ainda plantados, sem segurança para preservar o local.
A Controladoria Geral de Disciplina do Ceará (CGD) – órgão responsável por apurar e investigar desvios de conduta de agentes de segurança pública – abriu uma investigação para apurar a conduta dos policiais responsáveis pela preservação do sítio onde a plantação de maconha estava sendo cultivada.
Por meio de nota, o Ministério Público do Ceará (MPCE) informou que acompanha as investigações por meio do Grupo de Atuação Especial em Segurança Pública (Gaesp) e do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), "que atuam de forma integrada para assegurar a devida apuração dos fatos".
Na manhã do dia 29 de junho, André Fernandes informou que protocolou a denúncia sobre a plantação de maconha na Polícia Federal. Ao ser procurada pelo g1, a PF informou que "não comenta investigação em andamento".
Polícia Civil chegou a divulgar um vídeo de parte da plantação de maconha sendo derrubada por um trator e incinerada.
Polícia Civil/ Divulgação
Governador pediu depoimento de deputado
No dia 29 de junho, quando visitou a fazenda, o governador Elmano de Freitas questionou as falas do deputado federal André Fernandes no vídeo publicado nas redes sociais, no qual o parlamentar indagou o porquê da droga ter sido abandonada no local, sugerindo que a operação foi interrompida.
"Quem foi que interferiu nessa megaoperação? Quem foi que deu a ordem para que os policiais que estavam aqui simplesmente fossem embora? Que ligação poderosa foi essa que alguém do alto escalão recebeu para fingir que nada disso aconteceu?", perguntou André.
Elmano visita área de apreensão de maconha após denúncia de falha em operação em Acopiara
Em resposta, Elmano afirmou que o deputado deveria prestar depoimento à Polícia para apresentar o nome do suposto indivíduo que interferiu na operação.
"Quero pedir ao deputado André Fernandes que ele tenha a honra de poder em depoimento dizer que autoridade teria ligado para suspender o trabalho da Polícia Civil aqui", disse Elmano. "Nós vamos apurar tudo e queremos a colaboração do deputado André Fernandes, daqueles que lhe deram informação, para que a gente possa ter tudo absolutamente esclarecido".
Elmano visita área de apreensão de maconha após denúncia de falha em operação; tratores aparecem ao fundo
Reprodução
Prisão de proprietário
A Polícia Civil do Ceará divulgou, no início da noite da quinta-feira (2), que prendeu um homem de 59 anos apontado como o proprietário do terreno onde foi encontrado a plantação de maconha. Ele é investigado pelos crimes de tráfico de drogas e associação para o tráfico.
João Holanda Neto foi preso temporariamente por 30 dias, em uma investigação da Polícia Civil por tráfico de drogas e associação para o tráfico. Ele se apresentou a uma delegacia para prestar depoimento sobre o caso, e teve o mandado de prisão cumprido.
Porém, o suspeito foi solto nesta sexta-feira (3), um dia após ser preso. Familiares do dono das terras afirmam que o verdadeiro responsável pela droga um homem que arrendou a área em 2025.
Segundo a família de João Holanda, ele está em tratamento devido a um câncer de pele e, como estava afastado das atividades, arrendou o terreno para outra pessoa. De acordo com a advogada da defesa de João Neto, Maria Lopes, desde a formalização do aluguel, o cliente não adentrou mais nas terras.
Nos últimos meses, ele teria ido apenas até a frente da propriedade, “onde tem uma casinha pequena na qual guardava um carro velho e outras coisas do sítio e que, desse ponto de referência, não dava para ver nenhuma plantação”, segundo a advogada.
"Eu peço até pela alma de sua mãe, de seus filhos”, diz João Neto para o arrendatário da propriedade, em vídeo chorando.
E complementa: “Eu pensando que você era uma [boa] pessoa. E você faz isso comigo? Você conhece a gente há mais de 15 anos, tomava café na casa da minha mãe. Pelo amor de Deus, se apresente. Como você faz uma coisa dessa comigo? Você é de casa. Se eu soubesse que era para uma coisa dessa comigo, eu jamais faria [o contrato]"
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