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A indústria global de falsos médicos feitos por IA que usa o medo para viralizar entre idosos no Brasil: ‘Achei que fosse real’

Vídeos gerados por IA com médicos viralizam entre idosos no Brasil e superam 70 milhões de visualizações
Getty Images/BBC
Celi Ferreira, de 82 anos, decidiu não fazer a cirurgia de catarata recomendada por seu oftalmologista. Avaliou que ainda enxerga bem e que o procedimento não seria necessário.
Enquanto assistia a vídeos no YouTube, recebeu uma recomendação sobre o tema, narrada por um suposto médico que prometia proteger a visão por meio do consumo de frutas.
"Não me animei [com a orientação do oftalmologista], pois ainda vejo bem. Agora vou seguir sua orientação", escreveu ela nos comentários do vídeo.
O médico do YouTube não existe. É um avatar criado por inteligência artificial.
Agora no g1
Embora o YouTube sinalize que o conteúdo foi gerado por IA, o vídeo alcançou quase 300 mil visualizações e cerca de 300 comentários, muitos de pessoas como Celi, que buscam informações sobre saúde na terceira idade e acreditam estar recebendo orientação de um profissional de saúde real.
A publicação faz parte de uma estratégia adotada há pelo menos um ano por criadores de conteúdo em diversos países, que enxergam no público idoso um nicho lucrativo.

Celi Ferreira recebeu e comentou em videos de médicos gerados por IA
Arquivo pessoal
Dezenas de comentários atribuídos a pessoas que dizem ser idosas relatam ter seguido orientações dos "médicos" gerados por IA, seja iniciando tratamentos caseiros, seja interrompendo medicamentos já prescritos.
Em um deles, um usuário que afirma ter 85 anos diz ter trocado o omeprazol por batata-doce. Em outro, uma mulher de 77 anos afirma que não vai ao médico há três anos e agradece ao "médico" de IA pelos conselhos sobre Alzheimer.
Há também o relato de uma mulher de 80 anos que diz acordar cinco vezes por noite para urinar.

Ela conta que interrompeu o medicamento prescrito por sua ginecologista e passou a tomar, por conta própria, 20 gramas de óleo de abóbora por dia.
70 milhões de visualizações
Esta reportagem partiu de uma pesquisa da organização sem fins lucrativos CTRL+Z, que mapeou 29 canais em português dedicados a esse tipo de conteúdo, a maioria deles criada no último ano.

Juntos, esses canais já somam ao menos 70 milhões de visualizações, de acordo com a CTRL+Z. A produção dos vídeos ocorre em "escala industrial", segundo a organização: são cerca de 10 vídeos por dia e aproximadamente 267 mil visualizações diárias.

O levantamento aponta ainda indícios de uma operação em rede — a reportagem encontrou vídeos com conteúdo idêntico publicados em diferentes canais do mapeamento.
A partir desses dados, a BBC localizou vídeos com títulos praticamente iguais em inglês e espanhol, além de tutoriais que ensinam a produzir material para esse nicho, conhecido como "saúde sênior".
Ele é apresentado como uma forma de faturar milhares de reais por mês trabalhando sozinho, apenas com um computador e ferramentas gratuitas de IA.
Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da CTRL+Z, diz que viu um dos vídeos por acaso, e que os seguintes vieram por recomendação do próprio YouTube.

A prática é uma versão dos chamados canais dark ou faceless (sem rosto), em que o criador não aparece nem utiliza a própria voz, prática que se popularizou em canais em inglês e foi impulsionada com a chegada da inteligência artificial, que reduziu custos de produção.
Os conteúdos dos canais de bem-estar para idosos misturam informações reais, exageros e pseudociência.
Um dos vídeos, por exemplo, fala sobre "o chá que pode curar a gastrite em 15 dias".

Para ser convincente, o falso médico de IA cita o caso de um paciente idoso que chegou ao seu consultório com gastrite severa e diagnóstico de H. pylori (bactéria que causa infecção no estômago ou duodeno) e que se recusava a tomar antibióticos. E que o convenceu a fazer um tratamento com plantas medicinais que funcionou.
Essa estratégia de citar pacientes com nomes se repete em diversos vídeos.
Jaime Zaladek Gil, médico gastroenterologista do Einstein Hospital Israelita, diz que o uso de chás pode até aliviar os sintomas, mas que a presença da bactéria exige o tratamento com antibióticos.
“O risco maior é a pessoa tomar substâncias que não são eficazes, que podem piorar o quadro ou até mesmo atrasar o diagnóstico. Ainda mais em pacientes idosos, que têm maior risco de lesões nessa área, mais graves. É necessária uma investigação, uma rede de diagnóstico melhor, não só um vídeo que fala que algo vai resolver todos os seus problemas", diz.
Criadores podem responder por crimes de falsa identidade e exercício ilegal da medicina
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que esse tipo de material pode levar a situações perigosas, ao desestimular tratamentos legítimos ou incentivar práticas sem respaldo científico.
"A saúde das pessoas é algo individualizado. Uma medicação ou orientação pode ser benéfica a uma pessoa e maléfica a outra, a depender das comorbidades, da interação com outros medicamentos. Vemos isso como um grande risco", diz o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Jeancarlo Cavalcante.

O risco, segundo ele, é maior entre idosos, que podem deixar de buscar atendimento adequado — como visto pela reportagem nos relatos de idosos em diversos comentários dos vídeos.

Ele afirma que o Conselho pode denunciar esses conteúdos ao Ministério Público e à polícia.
Para Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio, o conteúdo em si não é crime — mas passa a ser quando o falso médico age como profissional.

"O problema é quando alguém que não é médico, seja pessoa real ou inteligência artificial, atua como médico, prescrevendo medicação, dizendo qual seria o tratamento adequado. É um caso de exercício irregular da medicina, que é crime previsto no Código Penal." Ele acrescenta que os criadores também podem responder por falsa identidade ao se passarem por médicos sem avisar que são personagens de IA — algo comum nos vídeos analisados pela reportagem, em que os apresentadores alegam anos de experiência e relatam supostos casos de pacientes.
Personagens de IA se apresentam como médicos de verdade
Uma análise da BBC News Brasil da descrição dos vídeos e das legendas mostra que praticamente todos os perfis tentam se passar por médicos de verdade, com afirmações de que possuem "anos de experiência" ou menções a títulos acadêmicos e especializações.
Filipe Medon, professor da FGV Direito Rio e coordenador adjunto do AI Hub, resume onde está o problema: "Você pode criar um canal que fale sobre conteúdos de medicina, pegue artigos científicos e fale sobre eles. O que você não pode, e aí que mora o dano, é criar uma persona que simula uma pessoa real e, a partir dessa simulação, enganar pessoas que, por conta desse engano, podem adotar condutas que causem danos à sua saúde." Para ele, um aviso claro de que se trata de um personagem de IA mudaria a natureza do conteúdo.
Medon afirma ainda que o crime pode respingar nas próprias plataformas.

Com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet, avalia ele, um avatar que finge ser médico pode configurar falsa identidade — o que torna o YouTube corresponsável caso não retire o conteúdo após ser avisado.

"A plataforma passa a ser responsabilizada civilmente se, após uma notificação extrajudicial, ela não retirar esse conteúdo." A responsabilidade é ainda maior, segundo ele, quando há impulsionamento pago: nesse caso, a plataforma teria de remover os vídeos mesmo sem qualquer notificação, por se tratarem de contas inautênticas.
Conteúdo é copiado e reproduzido em massa com apoio de IA
Vídeo em inglês ensina a criar canais de IA para dar dicas de saúde e bem estar a idosos
Reprodução/Youtube
O conteúdo dos vídeos é, em boa parte, produzido em escala, sem qualquer revisão, em um esquema deliberado de copiar e adaptar roteiros com apoio de IA.
A BBC News Brasil identificou ao menos 50 vídeos em português com avatares de médicos que tinham títulos semelhantes aos de outros publicados em canais em outros idiomas dias ou até meses antes.
Algumas adaptações nem sequer trazem exemplos do Brasil. Citam supostos pacientes americanos, futebol americano e estatísticas de saúde dos Estados Unidos.

Identificamos que um mesmo roteiro foi reaproveitado entre canais sem sequer alterar a identidade apresentada pelo narrador.

Em um dos vídeos analisados, por exemplo, a voz se apresenta como uma médica cardiologista com mais de 15 anos de experiência, apesar do vídeo ter sido publicado em um canal que utiliza a identidade de um falso médico homem.

Essas situações não são por acaso.
Instrutores de criação de conteúdo com dezenas de milhares de seguidores ensinam como produzir canais com base na cópia e na produção em massa, para aumentar o número de visualizações.
Um dos tutoriais, por exemplo, ensina a capturar a tela de um canal em inglês, enviar a imagem ao ChatGPT e solicitar a criação de títulos e roteiros equivalentes em português. Há também o caminho inverso, de fazer em português e depois traduzir para outros idiomas.
"Vou mostrar a vocês um dos nichos mais lucrativos do YouTube, sem apresentadores, que está bombando no momento: o nicho de saúde e nutrição para idosos. Estes canais estão crescendo a uma velocidade insana, usando vídeos 100% criados por IA, avatares simples e edição básica. Mesmo assim, alcançam dezenas de milhares de inscritos em apenas alguns meses."
A descrição acima é de um vídeo publicado em novembro do ano passado pelo canal AI Maskman no YouTube. Tem 18 mil visualizações. A identidade de quem o produz não é divulgada.
"O público da terceira idade é enorme, pouco atendido e altamente receptivo. Essas pessoas assistem por mais tempo, compram mais produtos e confiam nos criadores de conteúdo que as ajudam com problemas reais, como pernas fracas, dores nas articulações, dificuldades para dormir, perda muscular e nutrição", explica o canal AI Maskman.
O mesmo canal ensina a fazer vídeos virais com personagens fictícios e até de acidentes de carro para viralizar, tudo feito com IA.
A página divulga em sua descrição um clube de criadores de conteúdo de IA com cerca de 6 mil membros. Há ainda um grupo no WhatsApp com dicas de como criar os vídeos que já tem quase 10 mil números cadastrados.
A BBC News Brasil tentou entrar em contato com o canal, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.
'Não, não dá problema': brasileiros estimulam criação de vídeos e prometem ganhos elevados
Youtuber mostra canal de médico gerado por IA
Reprodução/Youtube
A prática de ensinar outros criadores a fazer vídeos de IA para idosos também chegou ao Brasil.
Um desses instrutores é Jhef Coimbra, que tem 10,7 mil inscritos em seu canal. Ele cita ganhos de R$ 30 mil por mês e afirma que o uso de avatares de médicos gerados por IA não é um problema.
Ao mostrar um canal do tipo com uma médica falsa, ele diz: "Antes que você pergunte: não, não dá problema. O YouTube, o que ele vai pegar mais é a questão da sua cópia, a questão de que você fala dentro do vídeo e o que você coloca dentro do link de afiliado."
O exemplo que ele cita leva para uma página que vende um "guia médico para proteger a próstata depois dos 60", com um avatar de médico gerado por IA.
A BBC procurou Coimbra por um número de WhatsApp que ele divulga em seu canal, mas não obteve resposta. Após o contato, o acesso ao vídeo foi bloqueado.
Outro canal no YouTube, Lucrando com IA, ensina como criar páginas que usam médicos gerados por IA e até a copiar outros perfis semelhantes com o ChatGPT.
"Muita gente não gosta desse nicho porque é um doutor e tudo mais. Mas pra quem não tem frescura e já quer entrar no nicho que monetiza fácil, você passando informações verdadeiras, ou seja, ajudando as pessoas, então você consegue monetizar."
A reportagem tentou entrar em contato com o canal por meio de um número de WhatsApp deixado pelo criador da página nos comentários, mas não obteve resposta.

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