Por que perdedores de guerra civil nos EUA escolheram Brasil como destino
Confederados derrotados na Guerra Civil dos Estados Unidos escolheram o Brasil como destino devido à escravidão até então permitida no país sul-americano. Além disso, a oferta de terras e os incentivos do governo brasileiro eram vistos como atrativos.
A conclusão faz parte das pesquisas do professor Célio Antônio Alcântara, que desde a década de 1990 estuda a imigração confederada com base em documentos históricos de cartórios de Santa Bárbara d’Oeste (SP). Atualmente, ele é docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
Neste ano, a celebração dos descendentes de imigrantes norte-americanos na cidade do interior de São Paulo retornará após sete anos. Marcada para 4 de julho, a festa será realizada sob novas regras, que proíbem o uso de símbolos de apologia ao racismo, incluindo a bandeira confederada.
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Junto com Cuba, o país estava entre os últimos do mundo a manter a escravidão legalizada, o que o tornava uma alternativa para os confederados preservarem o modelo econômico e social baseado nas grandes plantações de algodão e no trabalho compulsório — entenda abaixo.
Segundo o pesquisador, inventários, escrituras e processos judiciais revelam que muitos dos confederados que migraram eram "ex-senhores de escravos". A vinda para o Brasil tinha como objetivo preservar a posição social e econômica.
Ao g1, a Federação dos Descendentes de Americanos (FDA) explicou que não reconhece a versão de que os confederados tenham vindo para o Brasil em razão da escravidão. A federação acredita que a vinda foi incentivada pela produção de algodão e pelo fato de os imigrantes terem encontrado no Brasil uma oportunidade de recomeçar.
A FDA também enfatiza que essa história tem cerca de 170 anos, repudia qualquer forma de discriminação ou racismo e destaca que atuação da entidade é restrita ao cuidado com o Cemitério dos Americanos, criado por preconceito religioso à época.
Descendentes de americanos celebram festa confederada em Santa Bárbara d'Oeste
Thomaz Fernandes/g1
Destino ideal e cartas perguntando o 'preço dos escravos'
O pesquisador apontou que a recusa em aceitar a "igualdade racial" imposta no país de origem após o conflito foi determinante para a fuga dos ex-combatentes.
🔎 Após a derrota nos Estados Unidos, segunda a Unicamp, estima-se que cerca de 3.691 norte- americanos desembarcaram no porto do Rio de Janeiro (RJ) entre 1864 e 1874. Deles, aproximadamente 800 deles se estabeleceram em Santa Bárbara d’Oeste.
Cartas enviadas por sulistas a consulados brasileiros antes da imigração mostravam uma preocupação específica com o preço dos escravos, a legalidade da escravidão e até a possibilidade de trazer antigos escravizados libertos nos Estados Unidos.
"A escravidão era legal [no Brasil] e havia essa disponibilidade de terras, o que, obviamente, era uma condição para a reprodução das condições pré-guerra civil [.] O Brasil, enquanto destino, a gente pode colocar nesses termos: a escravidão é um fator fundamental a se considerar", explicou Célio.
Pesquisas em cartórios de Campinas (SP) e Santa Bárbara d’Oeste identificaram entre 180 e 200 escravizados transacionados por americanos. Segundo a Unicamp, eles eram responsáveis por cerca de um terço das compras de escravos registradas na cidade entre 1866 e 1887.
Violência e extremismo
Segundo Alcântara, as obras memorialistas e as narrativas de descendentes dos americanos tendem a minimizar a escravidão, alegando que os imigrantes eram "bons senhores" e possuíam uma relação de paternalismo.





