Antes de ser fuzilado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, o corretor de imóveis Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, acusado de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), relatou a promotores do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que vivia sob medo, insegurança e episódios de transtorno após se tornar alvo da facção e de policiais civis suspeitos de corrupção. Foi sugerido a ele, então, a adesão ao Provita, programa de proteção a vítimas e testemunhas, mas o corretor recusou (leia mais abaixo).
Em vídeo inédito obtido pelo Metrópoles (assista abaixo), Gritzbach aparece em uma reunião com integrantes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), durante as tratativas de sua delação premiada. Na conversa, ele diz não querer transformar o acordo em uma negociação, mas recuperar sua honra.
“Eu queria meu nome, eu queria minha honra, eu queria minha segurança”, disse o corretor aos promotores.
A colaboração de Gritzbach foi homologada pela Justiça em abril de 2024. Meses depois, em novembro do mesmo ano, ele foi morto.
Tribunal do crime
Gritzbach havia narrado ao MPSP que fora sequestrado em janeiro de 2022 e levado a um tribunal do crime do PCC. O corretor era acusado por integrantes da facção de envolvimento nas mortes de Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, e de Antônio Corona Neto, o Sem Sangue, assassinados em dezembro de 2021.
No julgamento paralelo, segundo o relato dele, criminosos o pressionaram a explicar contratos imobiliários milionários ligados a Cara Preta. Gritzbach negou ter ficado com dinheiro dos negócios e disse não ter domínio sobre os valores.
Depois do tribunal do crime, o corretor passou a relatar outra frente de pressão, protagonizada por policiais civis que, segundo ele, tentaram explorá-lo durante a investigação do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
Sítio e relógios de luxo
Em outra reunião com o Gaeco, Gritzbach afirmou que policiais pediram entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões para aliviar sua situação na apuração sobre o duplo homicídio. Além da tentativa de extorsão, ele também disse que agentes ficaram com patrimônio dele, incluindo um sítio em Biritiba Mirim, na Grande São Paulo, e relógios de luxo apreendidos sem registro formal. Veja abaixo:
O corretor apresentou ao MPSP áudios, documentos, contratos e comprovantes que, segundo ele, sustentavam as denúncias contra policiais civis.
16 imagensFechar modal.1 de 16PM da ativa que executou Gritzbach a mando do PCC é presoReprodução2 de 163 de 16Gritzbach denunciou ao MPSP relação de policiais com PCCReprodução/MPSP4 de 16Reprodução/MPSP5 de 16Ele intermediou a compra de imóveis por membros da facção Reprodução/MPSP6 de 16Os imóveis comprados pela facção eram colocados em nome de terceirosReprodução/MPSP7 de 16Corretor foi levado à tribunal do crime para esclarecer morte de dois membros do PCCReprodução/MPSP8 de 16Alessandra Ferreria / Metrópoles9 de 16Viúva de motorista de app morto durante ataque ao corretor de imóveis Gritzbach diz que "perdeu tudo" com a morte do marido em seu depoimento na manhã desta segunda (22/6)Alessandra Ferreira /Metrópoles10 de 16Antônio Vinicius Lopes Gritzbach11 de 16Antônio Vinícius Lopes Gritzbach voltava de uma viagem com a namorada quando foi executado na tarde de 8 de novembro, na área de desembarque do Terminal 2 do Aeroporto Internacional de São PauloCâmera Record/Reprodução12 de 16Empresário, preso sob suspeita de mandar matar membros do PCC, foi solto por determinação do STJDivulgação13 de 16Tenente também fotografou relógios de luxo em estojoReprodução/Polícia Civil14 de 16O delator do PCC Vinícius Gritzbach deixa o aeroporto ao lado da namorada, Maria Helena PaivaReprodução/TV Record15 de 16Delator do PCC, Vinícius Gritzbach foi executado no Aeroporto de GuarulhosReprodução/SBT16 de 16Rogerinho é citado em delação de Antonio Gritzbach
Na conversa final com os promotores, Gritzbach voltou ao tema da própria segurança. Disse que, depois de sair da prisão e tentar retomar a vida empresarial, havia conseguido se reorganizar.
“Eu estava retomando a minha vida empresarial, eu estava sendo muito bem recebido por empresários, eu estava conseguindo manter a minha cabeça sã”, afirmou.
Em seguida, relatou que o medo voltou a “balançar” sua rotina. “Com esse fato do dia 25, dá uma balançada, porque eu voltei a tomar remédio. Você fica meio preocupado, preocupado com a família.”
O fato mencionado por Gritzbach foi uma tentativa de homicídio enquanto se encontrava na varanda de seu apartamento, no Jardim Anália Franco, bairro valorizado da zona leste paulistana, na noite de Natal com familiares, em 2023. Ninguém foi atingido. Por determinação da Justiça, ele havia deixado a prisão em junho daquele ano.
Veja momento do ataque a tiros:
“O Estado não vai conseguir”
Durante a reunião, promotores mencionaram a possibilidade de incluir Gritzbach no Provita, programa de proteção a vítimas e testemunhas. O corretor recusou a ideia, alegando que o modelo “não se encaixava em seu estilo de vida”. Gritzbach disse aos promotores que precisava de recursos para manter a própria proteção.
“Infelizmente, com o momento que eu me deparo, eu tenho que ter algum subsídio para manter a minha segurança. Porque o Estado não vai conseguir manter a minha segurança.”
Ele alegou que pretendia resolver pendências decorrentes de separação da esposa, partilhar bens e criar uma reserva financeira para bancar medidas de segurança. “Na rua, eles não me pegaram. Eles tentaram me dar um tiro dentro de casa [Natal] porque a gente nunca ia imaginar uma cena dessa”, disse.





