Como pessoas LGBT+ de Sorocaba e Jundiaí viveram o processo de se entender e se assumir
Indo além de ser apenas mais uma data no calendário ou motivo para usar as cores do arco-íris com fins publicitários, o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado neste domingo (28), permite que a sociedade tenha um momento de reflexão sobre diversidade, identidade e liberdade.
Para celebrar a data, o g1 conversou com representantes da comunidade das regiões de Sorocaba e Jundiaí (SP) que compartilharam suas histórias de autoentendimento, amor e coragem por serem quem são e por amarem quem amam.
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Além dos depoimentos pessoais, cada pessoa respondeu à pergunta: "Por que se orgulhar?" Veja as respostas mais abaixo.
Parada LGBTQIAPN+ em Sorocaba (SP) em 2025
@anallops/Reprodução
A sigla, que hoje soma nove letras, um dia foi apenas "GLS", referindo-se a gays, lésbicas e "simpatizantes", englobando pessoas aliadas à causa. Ao longo dos anos, as identidades de gênero e as orientações sexuais, que sempre estiveram entre nós, começaram a "ganhar forma" com o aumento dos debates sobre o assunto e receberam termos específicos, incluídos na sigla da comunidade.
Atualmente, as letras que compõem a sigla LGBTQIAPN+ referem-se a lésbicas, gays, bissexuais, pessoas transgênero, queer, intersexo, assexuais, pansexuais e não binárias. Outras identidades são representadas pelo símbolo “+”.
🏳️🌈 Lésbica (L)
O Dia do Orgulho representa uma conquista que não para por aqui. Representa o início de uma jornada que não é leve ou fácil; é contínua. (.) A gente tem de sair para as ruas, falar sobre isso, mostrar na mídia. A gente tem de lembrar sempre que nós existimos, estamos aqui, e o Dia do Orgulho representa que nós não estamos sozinhos.
Aline Marchetti, de 35 anos, professora e intérprete de Libras, é uma mulher lésbica de Sorocaba (SP)
Arquivo pessoal
Aline é de Sorocaba (SP), tem 35 anos, é professora e intérprete de Libras e se identifica como uma mulher lésbica. Ao g1, ela contou que o processo de entender-se lésbica foi doloroso. Afinal, por muito tempo ela não quis aceitar quem era.
🔎 Lésbica é uma mulher que se envolve romanticamente com outras mulheres, sejam elas cisgêneras ou transgêneras.
"Eu sempre gostei de usar roupas mais largas, roupas masculinas, e eu me via em um cenário no qual usar esse tipo de roupa era uma 'Maria João', como me chamavam na escola. Eu me sentia mal, porque eu gostava de usar aquelas roupas, me sentia confortável, mas incomodava a sociedade. Para não incomodar, eu precisava não ser quem eu era", disse Aline.
A importância da representação Aline casou-se há cinco meses e, depois que assumiu sua sexualidade, disse que se tornou uma pessoa mais livre e feliz. Além disso, ela afirma que tornou-se seu próprio apoio emocional na jornada de autodescoberta.
A professora ainda contou que parte do processo de aceitação e normalização de uma relação lésbica por parte de sua família aconteceu com a ajuda da mídia, porque muitas das novelas a que sua mãe assistia eram protagonizadas por pessoas LGBT.
"Entro de mãos dadas com minha esposa em restaurantes, shoppings e parques, e as pessoas naturalizaram isso, mas a gente também não pode generalizar. (.) Depois que assumi minha sexualidade, houve muito mais lutas e batalhas, principalmente por parte de minha mãe. Mas hoje a gente já superou isso, minha mãe ama minha esposa, e as duas batem altos papos. Meus irmãos também me ajudaram muito", acrescentou.
🏳️🌈 Gay (G)
O Dia do Orgulho é um manifesto de coragem. De coragem de ser. A gente precisa levar em conta que a nossa realidade no Brasil é a do país que mais mata pessoas LGBT no mundo. E ter coragem para ser, viver e permanecer é um ato de bravura. E quem tem essa coragem deve sentir orgulho, sim.
Carlos Eduardo Cardoso dos Santos, de Sorocaba (SP), é um homem gay e representa a letra 'G' da sigla LGBTQIAPN+
Arquivo pessoal
Carlos Eduardo Cardoso dos Santos é analista de relações públicas em Sorocaba (SP) e um homem gay de 24 anos que pôde se assumir com o apoio de familiares e amigos ainda na adolescência.
🔎 O termo gay é popularmente associado a homens que gostam de homens, sejam eles cisgêneros ou transgêneros.
"Me entender como homem gay eu sempre me entendi, desde criança, só não sabia o que era isso ainda. O processo veio mais dos outros do que de mim mesmo. As pessoas me apontavam como uma criança mais sensível, mais afeminada. Eu não me via assim. (.). Enquanto meus colegas estavam paquerando minhas amigas, eu não sentia atração por elas e foi aí que entendi que era diferente mesmo. Mas me permitir ser gay veio bem depois, depois do meu primeiro namorado, inclusive", disse Carlos.
Segundo o sorocabano, muita coisa mudou depois de assumir sua sexualidade, principalmente em suas relações com as pessoas e com a família. Ele não precisou fazer uma "reunião familiar" para revelar sua orientação sexual. Tudo aconteceu de forma natural, o que, segundo ele, foi um alívio.
"Em determinado momento, todos souberam. Com isso, a proximidade fica maior. Minha relação com meu pai, inclusive, melhorou muito mais depois disso. Mas a confiança que se ganha ao não precisar esconder ou ao menos 'pisar em ovos' sobre o assunto traz uma paz interior muito gratificante", pontuou.
🏳️🌈 Transexual (T)
O dia reforça a importância da visibilidade. Muitas pessoas da comunidade, infelizmente, ainda enfrentam preconceito e dificuldade para serem reconhecidas e respeitadas. Por isso, ocupar espaços, ouvir essas histórias e enxergar a luta de tantas outras pessoas LGBTQ+ que vieram antes, abriram caminho e proporcionaram um cenário de maior liberdade para essa geração é tão importante. E continuar para que, cada vez mais, não haja a necessidade de lutar, apenas celebrar.
Mar Carrasco, de Sorocaba (SP), é um homem trans que representa a letra 'T' da sigla LGBTQIAPN+
Arquivo pessoal
Mar Carrasco tem 20 anos e é um homem transexual e bissexual de Sorocaba. Ele estuda jornalismo e é estagiário de comunicação.
🔎 Homem trans é um homem que não se identificou com o gênero de nascimento, diferente de pessoas cisgênero.
Ao g1, o jovem contou que começou a se entender durante a pandemia, em 2021. Antes disso, o universo trans ainda era desconhecido por ele.
"Com 14 ou 15 anos, é muito para um adolescente assimilar, principalmente sem um apoio presente, apenas uma comunidade que você vê na internet. É um processo até hoje (aceitação). Quando você transiciona, o ambiente em que você vive transiciona junto. Então, amigos, meus pais, pessoas que faziam parte do meu dia a dia também tiveram de se adaptar", disse o estudante.
Depois da transição, Mar afirma que começou a se sentir mais confortável e feliz com a forma que poderia se expressar. Mesmo com esporádicos episódios de julgamento, hoje ele reconhece sua imagem no espelho.
"Além de amigos próximos, meus pais (foram rede de apoio). Apesar de ser meu maior receio a recepção da minha família, eles são compreensivos e me dão algum suporte nas minhas decisões", pontuou.
🏳️🌈 Queer (Q)
É uma celebração à nossa vida e à nossa existência, mas, acima de tudo, da nossa resistência, em se manter fiéis a nós mesmos, de reivindicar um lugar que, muitas vezes, é tirado. É um dia para a gente lembrar de tudo o que lutamos para chegar até aqui e de que ainda tem muito avanço pela frente que teremos de encarar.
Bruno Camargo de Abreu é uma pessoa queer não-binária, maquiador e Drag Queen de Sorocaba (SP)
Arquivo pessoal
Bruno Camargo de Abreu tem 29 anos e, além de queer, é uma pessoa não-binária, maquiador e drag queen de Sorocaba.
🔎 Queer é um termo considerado "guarda-chuva", que abrange tanto identidades de gênero quanto orientações sexuais que sejam fora dos padrões. Além disso, Bruno destaca que queer pode ser um posicionamento político, como uma forma de questionar normas sociais sobre gênero.
"Desde pequeno, sempre fui muito expressivo, e minha família sempre estimulou muito a minha criatividade. Quando me entendi como uma pessoa LGBTQIA durante a adolescência, foi algo natural para mim. Me senti à vontade para me expressar e reivindicar a minha individualidade de ser quem eu sou", disse Bruno.
"Principalmente por vir do interior de São Paulo, acho que nunca é fácil ser a pessoa diferente, mas quando eu comecei a me maquiar e criei a minha drag, usei isso como um escudo contra o preconceito de uma cidade conservadora, e senti que minha confiança em ser quem eu sou tinha se firmado", acrescentou.
O maquiador ainda relata que sua mãe sempre esteve presente em seu processo de autodescoberta e foi a pessoa que mais lhe apoiou enquanto artista e pessoa queer. "Foi minha defensora desde que eu era criança. E, apesar de não ter me ensinado a revidar uma briga, eu sei que, se ela precisasse, ela iria brigar por mim até hoje."
🏳️🌈 Pansexual (P)
O dia do orgulho aparece para mim do mesmo jeito que a representatividade LGBTQ+ com figuras públicas, me faz sentir como se estivesse numa grande parada. É entender que, mesmo sob alguns olhares mal dados, nossa moral não deve baixar. (.) Portanto, somente nos mobilizando juntos é que poderemos acabar com o preconceito contra a comunidade.
Matheus Henrique Pinheiro Massari, de 20 anos, é fotógrafo e uma pessoa não-binária pansexual de Sorocaba (SP)
Arquivo pessoal
Henrique Pinheiro Massari tem 20 anos, é fotógrafo e uma pessoa não-binária pansexual de Sorocaba.
🔎 Pansexual é o termo usado para a orientação caracterizada pela atração romântica por pessoas, independentemente do sexo ou identidade de gênero.
"Antes de me permitir entender a atração, houve muita negação. Eu me sentia confuso e até tinha um certo preconceito induzido pela família", iniciou.
"Depois de alguns fatos, como conhecer um primo que é assumidamente gay, meu melhor amigo se assumir gay e eu passar a entender um pouco mais sobre política e cidadania, passei a me permitir processar e entender a atração que eu sentia, que era independente de gênero. Eu me atraio pela pessoa, seus traços, sua beleza, personalidade, conversa, sem me importar com gênero", disse.
Massari também contou que demorou para se assumir para a família, e que apenas alguns familiares e amigos sabem de sua identidade e orientação sexual. No entanto, o tempo lhe permitiu entender que não deve satisfação de sua vida particular para ninguém, apesar de que assumir ser pan e não-binário também causa apreensão.
"Com quem ando, com quem durmo, quem eu amo, são assuntos que só dizem respeito a mim. Isso me ajudou muito a buscar independência das opiniões alheias. Sempre fui uma pessoa que sentia medo do julgamento. Hoje, não tenho mais", afirmou.





