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Emicida compara Racionais a Pelé, critica rappers conservadores e lamenta exposição da vida pessoal

Emicida compara Racionais a Pelé e lamenta exposição da vida pessoal
Em dezembro de 2025, Emicida voltou aos noticiários com um novo álbum, “Mesmas Cores e Mesmos Valores”, que faz uma homenagem ao Racionais MCs e ao álbum do grupo paulistano “Cores e Valores”, lançado em 2014.
No entanto, nos meses anteriores daquele ano, o rapper viveu momentos “horríveis”, como ele mesmo definiu, com a morte da sua mãe, dona Jacira, e o litígio judicial com seu irmão, Evandro Fióti, por conta da empresa Laboratório Fantasma. Muito reservado, Emicida viu sua vida pessoal exposta.

Porém, a celebração ao trabalho dos seus ídolos foi mais que um refúgio para o cantor. Serviu para a afirmação da sua própria qualidade como artista e para colocar o Racionais no que considera o seu devido lugar.
Ice Blue, KL Jay, Emicida, Mano Brown, DJ Nyack e Edi Rock
Jef Delgado/Divulgação
Em entrevista ao Podpah, o próprio Emicida classificou como “polêmico” colocar o Racionais como maior grupo de rap da história.

Mas por que, se o Brasil consome tanto rap, colocar o maior grupo do gênero entre os grandes da música deixa as pessoas com receio desse tipo de afirmação?
“Não é o paralelo em si, mas o tamanho da tensão que ele provoca. Quando você elogia o Racionais nesse lugar, não é que está fora de propósito. É tipo olhar um gol de barriga e olhar um gol do Pelé.”
“O tamanho do Racionais é o tamanho do Pelé, o tamanho do Pixinguinha, o tamanho da Nise da Silveira. Racionais precisa ser entendido dentro dessa chave.”
Ao g1, o rapper explicou como avalia a recepção do seu álbum, seis meses após o lançamento, com tantas referências incluídas e uma turnê que, neste fim de semana, passará por Curitiba (27/06) e Porto Alegre (04/07), como preparou seu show e como enxerga a relação do rap com uma parcela do conservadorismo brasileiro.
Capa do disco 'Emicida Racional VL.2: Mesmas Cores & Mesmos valores'
Créditos: Walter Firmo/Cecropia
Confira a entrevista completa abaixo:
g1: "Cores e Valores", do Racionais, completou uma década e até hoje se discute se o álbum foi entendido na sua plenitude. O seu novo trabalho tem seis meses, e imagino que ele ainda esteja “em construção” nesse quesito. Como você vê a aceitação do público?
Emicida: Eu fico muito feliz com a qualidade intelectual que os fãs me trazem de volta. A forma como o disco foi absorvido gerou uma experiência muito íntima porque ele tem essa dor e essa luz desenhadas de formas muito sensíveis. Para algumas pessoas, por exemplo, foi e é um disco difícil de ouvir. É louco isso, né?

E isso não sendo entendido como um problema a ser solucionado. Mas, como emocionalmente ele abre tanta coisa que, para não articular em qualquer momento, as pessoas preferem ouvi-lo sozinho, de quebradinha.
g1: Tem alguma mensagem específica que está nesse álbum que você acha que a galera ainda não acessou e você queria que entendessem melhor?
Emicida: Mano, tem muita coisa. Tem um universo muito grande de coisas ali para serem compreendidas. Mas eu acho que não é necessariamente o que elas acessaram ou não acessaram. É a tensão que um artista consegue estabelecer entre a comunidade que acompanha a obra dele.

Esse é um disco que vai ter novidade pelos próximos 100 anos. Te digo com absoluta tranquilidade. Quando as pessoas encontrarem dona Edith do Prato [percussionista brasileira] lá dentro, elas vão ficar: "Meu Deus", sabe?

Emicida: “É um disco difícil de ouvir”
g1: E esse também é um álbum muito imagético. Você já lançou clipe, lyric video… Você pensa em lançar mais coisas? Como está sua relação de produção imagética?
Emicida: A gente captou tudo da produção. Estamos começando a estruturar um documentário agora. A gente tem um material muito rico na mão e, por si só, o material das gravações já é bem emocionante. E a gente quer começar a ter uma presença mais cadenciada nas mídias sociais.

Eu sou um cara que usa as redes sociais de uma forma muito rarefeita, parça. Eu preciso me tornar um criador de conteúdo melhor – é o que meus amigos dizem. Todo mundo fala: "Mano, você tinha que explicar isso aí, as pessoas não vão alcançar isso aí sozinhas, cara".
g1: Você disse achar polêmico que "Racionais é o maior grupo de rap da história” e, por esses dias, o curador musical Lúcio Ribeiro também afirmou que "Sobrevivendo no Inferno" é o maior álbum em língua portuguesa do país. Você acha que essas frases só são "polêmicas" pelas referências a um grupo de rap? Se o rap no Brasil mobiliza massas, vira leitura obrigatória em vestibular e etc. não deveria ser um absurdo falar do Racionais dentro dessa perspectiva, certo?
Emicida: Certo, mano, mas a questão é a seguinte: não é o paralelo em si, mas o tamanho de tensão que ele provoca. Então, nesse sentido, um elogio como esse é um problema parecido com o que talvez a arqueologia brasileira enfrenta. Quando você vai para fora do Brasil, tem um monte de programas de TV mostrando escavações e dizendo: "olha aqui a nossa história". É uma forma de se conectar com o passado e manter suas culturas e tradições vivas. A arqueologia do Brasil tem um paradoxo: em muitas partes do país, o que está enterrado não condiz com o que está escrito nos livros de história.

Quando você elogia o Racionais nesse lugar, não é que está fora de propósito. Tudo isso que você falou é verdade, eu assino embaixo. A questão é que uma vitória desse tamanho é tipo você olhar um gol do Pelé e olhar um gol de barriga, mano. O tamanho do Racionais é o tamanho do Pelé, do Pixinguinha, da Nise da Silveira, do Santos Dumont. O Racionais precisa ser entendido nessa chave. Tom Jobim, Elis Regina, a caneta do Chico Buarque.

Talvez a sabedoria para olhar essa parada seja pensar nos termos da capoeira: é uma dança, mas é uma luta. É assim que compreendo a cultura do Brasil: é uma dança, mas é uma luta. A dimensão intelectual está lá, mas os caras fizeram isso dançando e guerreando ao mesmo tempo. Isso torna a vitória muito mais saborosa para nós.
Racionais é “do tamanho de Pelé”, diz Emicida
g1: Eu queria fazer uma pergunta de dois lados: a primeira parte, em caráter celebrativo, é o tamanho que o rap encontrou no mercado. Você está fazendo uma turnê rodando o país; o BK', por exemplo, vai ser o primeiro artista de rap a fazer um show em um estádio. Como você vê essa chegada no mercado que antes era muito difícil, poucas casas abriam espaço para o rap…
Emicida: Eu acho que isso, primeiro, é uma conquista sem tamanho. É o sonho de todos nós que ajudamos a carregar e construir um tijolinho dessa ponte. Qualquer um de nós que traga a verdade do tamanho da verdade que o BK está trazendo e ocupe os maiores palcos, é uma conquista do movimento como um todo. O tamanho que a cultura alcançou em termos de popularidade tem sido uma parada maravilhosa.
Mas uma coisa é a percepção e o alcance da música rap, outra coisa é o pertencimento à cultura hip-hop. Essa ainda está por ser reconhecida na sua amplitude numa sociedade como a nossa, não por falta de substância, mas porque essa dimensão coletiva soa como uma dimensão radical da postura da cultura hip-hop.

A indústria tende a absorver a parte que está mais próxima dela. Nessa dimensão, a música rap é o mais fácil de ser sintetizado nessa escala. A gente consegue operar aí, mas a verdade de tudo isso só se mantém reluzente e sólida pela parada que mencionei: alguém como o BK' faz essa vitória ser gigante nos dois campos.
g1: Mas, ao mesmo tempo, a gente vê — e essa era a segunda parte da pergunta, a parte mais crítica — como o rap, ao mesmo tempo em que invadiu os festivais nos últimos dois anos, vem perdendo esse espaço. Ouvimos, principalmente de quem trabalha nos festivais, que "falta qualidade nos shows de rap", que tem muita pirotecnia e pouca técnica. Como você vê essa crítica e essa redução do espaço que o rap tinha conquistado dentro de grandes festivais?
Emicida: Eu acredito que o mercado tem várias tendências que se sobrepõem. Nesse momento, inclusive, acho que tem uma efervescência muito bacana rolando de artistas e produtores independentes remapeando sua cena, cidade por cidade. Já aconteceu em São Paulo, no Rio, e tenho certeza de que está acontecendo numa escala muito maior do que a que o Sudeste está conseguindo. Por quê? Porque a dimensão cultural é mais ampla do que a dimensão da indústria. Isso não é um demérito da indústria, porque ela capta num espectro menor, está tudo certo, é nessa dimensão que ela gera valor. Mas o valor da cultura é um valor difícil de colocar em números, porque ela é o que oxigena essas redes.
Essas redes têm se reorganizado para que o valor da música rap não seja somente captado ou fique sob o julgo de pessoas que têm uma concepção contraditória.

Para shows de outros gêneros, esse tipo de qualidade técnica não é um fator relevante, entende? Mas quando é um artista que tem o tipo de discurso que o rap legítimo tem, exige-se que ele chegue lá com a Sinfônica de Paris.
O rapper Emicida em ensaio para o álbum "Mesmas Cores & Mesmos Valores"
Walter Firmo/Cecropia
g1: Você usou o termo ‘rap legítimo’ por algum motivo específico? Não sei se entendi…
Emicida: Hoje muitas pessoas falam do rap, mas nunca foram a um show de rap. Muitas pessoas escutam rap, e tudo isso é maravilhoso, mas não necessariamente estão próximas do que a gente pode dizer que seria o movimento hip-hop. Nesse sentido, quando uso a palavra "legítimo", é porque estou falando de uma trajetória que parte da semente coletiva e vai entender a música rap dentro desse espectro. É isso que compreendo, dentro dos cinco elementos, como sendo uma vitória legítima do movimento hip-hop.
g1: Saíram dois artigos nas últimas semanas, um do [cientista político] Pedro Abramovay e outro da [vereadora do Rio de Janeiro] Thaís Ferreira, que falam sobre a transformação da sociedade brasileira por parte dos governos Lula a partir da obra do Racionais e da sua. Mas, ao mesmo tempo, fico pensando em como o rap, especificamente na última década, viu crescer uma espécie de reação de novos artistas que dialogam com um discurso mais reacionário, neoliberal e flertando com a extrema-direita. Como você vê esse aumento de artistas que dialogam com uma corrente política que é contraditória ao discurso da cultura hip-hop?
Emicida: Tem uma estatística que fala que apenas 10% da população do Brasil tem capacidade plena de interpretar funcionalmente um texto. Esse tipo de recorte acaba se aplicando a cada um dos subsetores de uma sociedade.

O Brasil tem uma sociedade conservadora, por mais contraditório que isso seja. A gente vai se encontrar com esse tipo de discurso dentro de culturas que alcançaram a escala que a música rap alcançou.
Agora, a contradição que não se sustenta aí é querer fazer sentido dentro do ambiente daquilo que chamei aqui de rap legítimo e cultura hip-hop. Porque nesse ambiente — e aqui não estou dizendo que não haja pessoas que possam ter posições conservadoras, o recorte faz sentido no espectro pequeno também —, os pilares que fundamentam o que essa cultura considera mais sagrado são contraditórios com muitos dos discursos desse tipo de artista que você mencionou.

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