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PF cancela porte de arma de GCMs de Ribeirão Pires, na Grande SP

Guardas civis municipais de Ribeirão Pires, na Grande São Paulo.
Divulgação/PMRP
A Polícia Federal (PF) cancelou na quarta-feira (17) a autorização de uso de arma funcional de os 114 guardas-civis municipais que atuam na cidade de Ribeirão Pires, na Grande São Paulo.

Todos os guardas da cidade estão impedidos de sair às ruas usando armamento oficial da corporação já a partir desta quinta-feira (18). Até o comandante-geral da corporação, Wenderson Ferreira, teve o porte funcional cancelado.
O documento emitido pela Delegacia de Controle de Armas de Fogo (Delearm) da PF em São Paulo, ao qual o g1 teve acesso com exclusividade, aponta que o comando da Guarda Civil Municipal da cidade deixou de cumprir vários itens de um acordo de cooperação técnica assinado em 2021, que eram obrigatórios para que a guarda da cidade pudesse manter as licenças de uso de armamentos.

Segundo apuração do g1, entre as exigências da PF estão a criação de um órgão de controle interno e externo independentes da Guarda (Corregedoria e Ouvidoria) que funcione e um controle eletrônico do uso e do armazenamento das armas da corporação, por exemplo.

A apuração aponta também que a GCM de Ribeirão Pires não tem controle eletrônico do uso de armas nem do ponto dos funcionários. Tudo é feito à mão, o que dificulta os trabalhos de fiscalização, auditoria e controle de ocorrências, arquivo e guarda de armas na base policial da cidade.
Isso, segundo as autoridades federais e estaduais, favorece fraudes, destruição e falsificação de registros e provas de eventuais irregularidades. O município destoa das cidades vizinhas, que já têm o controle eletrônico há anos.

Ofício da Polícia Federal enviado à GCM de Ribeirão Pires comunicando o cancelamento dos portes de arma.
Reprodução/TV Globo
👉 A Polícia Federal tem a responsabilidade de conceder os portes para as guardas no país inteiro e fiscaliza o cumprimento de condições de manutenção destes equipamentos.

Segundo o g1 e a GloboNews apuraram, o que se observou em Ribeirão Pires é que documentos e avaliações que deveriam ter sido providenciadas pela corporação não foram encaminhados à entidade ou não preencheram os requisitos do acordo de colaboração de 2021.

Isso, segundo fontes da PF, constitui uma falha grave que exige a suspensão preventiva dos portes de arma dos agentes até a devida regularização. A situação de Ribeirão Pires foi agravada com as informações encaminhadas pelo MP-SP à corporação, demonstrando o descumprimento legal dos acordos firmados entre as duas corporações.

Reunião de emergência Por causa das licenças cassadas, o secretário municipal de Segurança Pública de Ribeirão Pires, o Comando da GCM da cidade e os membros da Polícia Militar da Grande SP fizeram uma reunião de emergência na noite da quarta, com a presença do Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Na reunião, ficou definido que a GCM de Ribeirão Pires vai recolher o armamento usado pelos guardas, enquanto a Polícia Militar vai reforçar o policiamento na cidade, até que a situação da Guarda seja regularizada na Polícia Federal e as licenças dos GCMs sejam retomadas.
O promotor Jonathan Vieira de Azevedo, do MP-SP, que participou da reunião, afirmou que a população da cidade não ficará sem policiamento.

"O desarmamento da GCM cria um vácuo operacional que o Ministério Público identificou e para o qual tomou providências imediatas. A Polícia Militar estadual foi acionada para preencher essa lacuna de policiamento. (.) É importante salientar, mais uma vez, que a população não ficará sem policiamento ostensivo e preventivo durante esse período. O policiamento será mantido e reforçado pela Polícia Militar estadual, garantindo a segurança e a ordem pública em Ribeirão Pires. A população não fica desprotegida; apenas o policiamento muda de instituição temporariamente, enquanto a GCM é saneada institucionalmente”, declarou.
Guardas civis da cidade de Ribeirão Pires, na Grande São Paulo.
Reprodução/Redes Sociais
Por meio de nota, a Secretaria municipal da Segurança Pública de Ribeirão Pires da gestão do prefeito Guto Volpi (PL) confirmou o cancelamento dos “portes funcionais de parte da corporação da GCM, em razão de divergências documentais”.
“A Secretaria de Segurança Pública tomou conhecimento quanto ao apontado e, após verificação, reconhece a validade das divergências apontadas e a falha administrativa, que serão brevemente sanadas pela pasta. Nesse sentido, o Poder Executivo juntamente com o Ministério Público já alinhou com a Secretaria de Segurança Pública do Estado o envio de efetivo da Polícia Militar, em número suficiente, para suprir a necessidade da segurança na cidade, até se sanar as divergências”, disse a pasta.
O g1 procurou a Secretaria Estadual da Segurança (SSP) que disse, também por nota, que a Polícia Militar "já adota as medidas necessárias para garantir a segurança da população, atuando em harmonia com o trabalho suplementar realizado pela Guarda Civil Municipal".

"A PMESP mantém diálogo permanente com a Prefeitura e com os demais órgãos competentes, de modo que o policiamento ostensivo seja adequado às necessidades locais com base em criteriosa análise técnica e no planejamento operacional da Instituição. Por questões estratégicas e de segurança, informações sobre quantitativo de efetivo e cronograma de ações não são divulgadas", afirmou.

"A Polícia Militar reafirma seu compromisso e sua confiança junto à comunidade de Ribeirão Pires, assegurando que todas as providências cabíveis estão sendo adotadas para preservar a ordem pública e a tranquilidade dos moradores", declarou a nota.
O prefeito de Ribeirão Pires, Guto Volpi (PL), e o promotor Jonathan Vieira de Azevedo: ação civil pública para renovação da frota de ônibus na cidade.
Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais
Formação de milícia
Paralelamente ao cancelamento das licenças, o Ministério Público de SP investiga uma possível formação de milícia por parte de membros dessa mesma guarda, que foi denunciada por um grupo grande de GCMs que atuam na cidade.

Pelo menos 20 guardas prestaram depoimento na Promotoria da cidade relatando casos de assédio por parte dos superiores.
Os guardas denunciaram ao MP que a Corregedoria da GCM da cidade age com parcialidade, apontando indícios de conivência aos abusos de alguns superiores contra subordinados.

Despacho da Promotoria de Ribeirão Pires apontando ilegalidades dentro da GCM de Ribeirão Pires, na Grande SP.
Reprodução/TV Globo
Os guardas também afirmam que o órgão ignora denúncias de crimes dos policiais na cidade, direciona medidas disciplinares apenas contra os que não se submetem a desmandos que ocorrem na corporação, encobrindo até abusos e crimes.

“As testemunhas descrevem tratamentos rudes e humilhantes, incluindo xingamentos, desrespeito em reuniões e rebaixamento de subordinados, como a negação de treinamentos ou escalas favoráveis em retaliação a meras discordâncias. Há menções a ameaças e coações verbais destinadas a silenciar dissidentes, com intimidações, instrumentalização de medidas e procedimentos disciplinares, confisco irregular de armas de fogo sem aparente justificativa, dentre outros”, diz o documento.
As denúncias estão sendo investigadas pelo promotor Jonathan Vieira de Azevedo, que, em dezembro do ano passado, já tinha oficiado a Prefeitura de Ribeirão Pires sobre o assunto.

No despacho a que o g1 também teve acesso, o promotor afirma que as denúncias dos guardas “revelam um preocupante padrão de condutas, capazes de comprometer a coesão interna da corporação e a prestação de serviços essenciais à população de Ribeirão Pires”.
Antônio Carlos de Brito Araújo e o corregedor da GCM Edvaldo Rhein: amizade que tem atrapalhado o andamento de denúncias dentro da tropa.
Montagem/g1/Reprodução
No documento, ele recomendou o afastamento do Subcomandante Antônio Carlos de Brito Araujo e do corregedor Edvaldo Rhein.

O promotor afirmou que há nas denúncias de “indícios de assédio moral e abuso de autoridade por parte do Subcomandante Antônio Carlos de Brito Araujo, retratado como autoridade que centraliza o poder e exerce controle excessivo sobre as operações da GCM”, com a conivência do corregedor Edvaldo Rhein.
"Outro ponto refere-se ao uso indevido de recursos públicos e atos potencialmente ilícitos, com múltiplos depoimentos indicando possível desvio de bens da GCM, envolvendo o Subcomandante Antônio Carlos de Brito Araujo e o ex-Secretário Sandro Torres Amante na utilização de viaturas, pessoal e materiais para serviços particulares de segurança privada. Há narrativas de furto de equipamentos e manipulação de registros manuais de armas e documentos, além de deficiências na segurança de armamento, com remoções irregulares e sem registros adequados", escreveu Vieira.
Em dezembro do ano passado, o g1 já havia publicado que o subcomandante Brito Araujo era alvo de denúncias de assédio contra guardas da cidade.

GCMs discutem com subcomandante de Ribeirão Pires
Ele foi gravado por uma dupla de GCMs fazendo humilhações e xingados contra os guardas. Na ocasião, ele já tinha sido afastado temporariamente do cargo, mas não foi exonerado. Continua no cargo, gozando de férias, segundo o apurado pela reportagem.

Em entrevista ao telejornal SP1, da TV Globo, o promotor Jonathan Azevedo afirmou que as denúncias em Ribeirão Pires são indícios fortes de que há "atividade criminosa organizada" dentro da Guarda de Ribeirão Pires.
"Dezenas de depoimentos sigilosos de integrantes da própria Guarda Civil Municipal convergem para a existência de um esquema organizado, caracterizado por assédio moral sistemático, perseguição interna, desvio de finalidade administrativa e, principalmente, a prática de crimes. Estamos falando de uso indevido de bens públicos — viaturas, pessoal e estrutura da corporação — para prestação de serviços de segurança particular e proteção de interesses privados. Esses elementos indicam não apenas má gestão, mas atividade criminosa organizada. Estamos diante de fatos em apuração robusta, não de meras suspeitas”, declarou.
Na nota enviada ao g1, a gestão Guto Volpi (PL) afirmou que, “com relação ao questionamento sobre a possível milícia, assim que a Justiça informar os nomes dos GCMs que estão sendo investigados nesta suposta situação, os mesmos serão afastados imediatamente e as medidas cabíveis serão tomadas”.
Despacho da Promotoria de Ribeirão Pires apontando ilegalidades dentro da GCM de Ribeirão Pires, na Grande SP.
Reprodução/TV Globo
Líder da suposta milícia
Outro nome que aparece no despacho do promotor é do ex-secretário de Segurança da cidade, Sandro Torres Amante.

Amante já tinha sido denunciado pelo g1 e pelo telejornal SP2, da TV Globo, em abril de 2025, após ter sido condenado por furto de dois açougues na cidade, no ano de 2018, quando era subcomandante da Guarda Civil Municipal de Ribeirão Pires.

A condenação foi a 2 anos e 11 meses de prisão. Por conta da repercussão pública da condenação e a pressão política, ele pediu exoneração do cargo, apesar de na época ter contado com apoio do prefeito Guto Volpi, que dizia acreditar na inocência de seu subordinado.

Secretário de Segurança de cidade da Grande SP condenado por furtar açougue deixa o cargo
No despacho de dezembro do ano passado, o promotor de Ribeirão Pires disse que os gcms afirmaram nas denúncias que Sandro continua dando as cartas dentro da corporação e seria o líder da suposta milícia formada no coração da GCM municipal.

“As declarações apontam influência persistente do ex-secretário Sandro Torres Amante, mesmo afastado da GCM, como aliado próximo do atual subcomandante, com ligações a negócios privados que explorariam recursos da guarda, incluindo pressões para participação em eventos políticos partidários, sugerindo possível coação eleitoral”, escreveu Jonathan Azevedo.
Na entrevista concedida ao SP1 nesta quinta-feira (18), o promotor afirmou que o atual comando da guarda está colaborando com a resolução da situação e espera que a PF retome o mais breve possível as credenciais para retomada das funções da GCM de Ribeirão Pires.

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