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Starbase: como é a vida na cidade formada por funcionários de Elon Musk

Sede da SpaceX, no Texas, que agora é oficialmente a cidade de Starbase
Miguel Roberts/The Brownsville Herald via AP
Na última vez em que a SpaceX lançou um foguete no sul do Texas, o capitão de barco Eddie Reyes estava a menos de 3 quilômetros da plataforma, com um grupo de passageiros. Uma explosão de chamas irrompeu, e ondas de choque sacudiram a embarcação enquanto o foguete subia aos céus.
A chegada da SpaceX trouxe bons negócios para Reyes e sua família. Desde a criação da Starbase, a cidade-estado de Elon Musk, o negócio de aluguel de barcos prosperou, com a chegada de turistas interessados em acompanhar os lançamentos. O sobrinho de Reyes trabalha na SpaceX como soldador e dirige uma Tesla Cybertruck.
Mas os mesmos foguetes que impulsionam a renda da família também estariam causando danos à casa da mãe de Reyes. Segundo ele, as ondas de choque dos lançamentos racharam o teto, soltaram as vedações das janelas e estão comprometendo a estrutura da residência. Ele está entre dezenas de moradores que processam a empresa de Musk pelos prejuízos.
“Não se pode parar o progresso”, disse Reyes.
Agora no g1
Muitos moradores do Vale do Rio Grande, ao redor da Starbase — cidade centrada nas operações da SpaceX — chegaram a uma conclusão semelhante. Elas estão dispostas a embarcar na onda das ambições interplanetárias de Musk e aceitar as consequências que vêm com isso.
Embora a rápida expansão da SpaceX traga empregos, visitantes e atenção global, também tem provocado processos judiciais, preocupações ambientais e uma crescente divisão entre os 1,4 milhão de habitantes do Vale do Rio Grande.
Às vésperas da oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da SpaceX — que pretende captar US$ 75 bilhões, o maior valor obtido já obtido em uma oferta como essa — as pressões enfrentadas pelos moradores ao redor da Starbase tendem a se intensificar.
“Essa empresa está literalmente sacudindo a terra”, disse Tino Villarreal, comissário municipal de Brownsville, uma cidade de 185 mil habitantes que faz fronteira com a Starbase. “Pela quantidade de mão de obra que pretende gerar, pelas ondas de frequência que estão realmente sacudindo nosso solo.”
A SpaceX se recusou a fazer comentários à Reuters para esta reportagem.
As diferentes visões sobre a Starbase ficaram ainda mais evidentes antes do lançamento da Starship no mês passado, quando o trabalhador terceirizado José Bautista, de 25 anos, morreu após sofrer uma queda em uma instalação da SpaceX nas proximidades.
O caso se soma a outros episódios envolvendo mortes ou ferimentos graves de trabalhadores ligados à empresa.
No TikTok, um vídeo publicado pelo pesquisador de políticas públicas Etienne Rosas, cobrando que a empresa assumisse responsabilidade pelo caso, acumulou milhares de curtidas. Um primo de Bautista agradeceu nos comentários e escreveu: “Minha família precisa de orações”.
Outros usuários, porém, saíram em defesa da SpaceX, afirmando que a empresa não seria responsável pela morte.

Um deles chegou a dizer que Bautista, mesmo morto, seria capaz de “enxergar o acidente pelo que ele é”. O comentário, feito por um usuário que não respondeu ao pedido de posicionamento da Reuters, acrescentava: “Projetos de grande magnitude, como a Represa Hoover, sempre ceifam vidas — e ainda assim continuam. É o jeito americano.”
Um porta-voz da cidade de Starbase se recusou a comentar. A Administração de Segurança e Saúde Ocupacional (OSHA), responsável pela investigação do caso, também não se manifestou. Um representante da família de Bautista igualmente não comentou.
O gabinete do xerife do condado de Cameron encaminhou os pedidos de comentário da Reuters à SpaceX.
A SpaceX não respondeu aos questionamentos e ainda não reconheceu publicamente a morte de Bautista.
Starbase transforma região no Texas
Quando a construção da base da SpaceX começou, em 2014, Boca Chica era um pequeno conjunto de casas na fronteira com o México e uma praia popular entre moradores de Brownsville. Agora, duas plataformas de lançamento se elevam a quase 150 metros acima da praia e dos bairros em expansão, com trailers Airstream, casas minúsculas e novas mansões.
A SpaceX planeja, no futuro, fabricar componentes para até 1.000 foguetes Starship na Starfactory da cidade – uma instalação de fabricação avançada de 93 mil metros quadrados – e no Gigabay, uma estrutura de 116 metros de altura para a montagem dos foguetes.
A cidade tem suas peculiaridades. Um funcionário da SpaceX, Bobby Peden, foi eleito prefeito no ano passado, logo após a formalização da cidade. A cidade está criando uma força policial e discutiu a possibilidade de abrir seu próprio tribunal municipal – no qual Peden atuaria como juiz interino.
Na escola local, Ad Astra, crianças pequenas aprendem a lidar com "números na casa dos milhares – muito além dos padrões do jardim de infância", de acordo com o site da escola. O bar local, Astropub, só é aberto para funcionários da SpaceX.
“Quando cheguei, tínhamos apenas uma rua com casas, construíamos foguetes em tendas e não tínhamos água nem sistema de esgoto”, disse Kathryn Leuders, que era gerente geral da Starbase antes de sua incorporação. Agora, “você cria famílias e cria filhos nesta comunidade que é a Starbase, que também tem uma plataforma de lançamento no quintal. É algo realmente incrível.”
Assim como a colônia em Marte retratada em um enorme mural na lateral do Gigabay, a cidade serve como um modelo potencial para o futuro das colônias interplanetárias.

Em uma noite recente, antes do lançamento da Starship, as ruas fervilhavam com funcionários saindo dos prédios da Starbase em bicicletas, enquanto comboios de Cybertrucks se alinhavam na rodovia para Brownsville, passando por esculturas de Musk e uma placa que dizia: “Embaixada em Marte. Futura Localização.”
“Já estive na NASA, e você não chega nem perto de algo assim”, disse Nicholas Poindexter, um controlador de pragas e entusiasta do espaço que viajou de Indiana para ver o lançamento da Starship. “Da última vez que estive aqui, pensei: ‘Nossa, dá para jogar uma pedra e acertar um foguete’”.
Impacto econômico divide moradores
Muitos líderes locais veem a Starbase como uma oportunidade para uma das regiões mais pobres dos Estados Unidos.

Um relatório de impacto produzido pela Greater Brownsville Economic Development Corporation em março afirmou que a Starbase criou 5 mil empregos e gerou US$ 100 milhões em receita com turismo no último ano.
Vestindo uma camiseta da SpaceX com a nave Starship estampada, o vereador de Brownsville, Villarreal, apontou para novos restaurantes que atendem à força de trabalho cada vez mais abastada, em meio a lojas com as janelas e portas fechadas com tábuas e casas em ruínas.
Musk “agiu na velocidade da luz, e acho que isso ajudou Brownsville a crescer e se desenvolver muito mais rapidamente”, disse Villarreal. “Foi como injetar um esteroide em Brownsville.”
Alguns moradores do Vale do Rio Grande inicialmente receberam bem a SpaceX. Maria Pointer morou na região por quase duas décadas até vender sua casa para a SpaceX em 2020, após se encontrar com Musk. "Estávamos animados", disse ela. "Na época, eu realmente sentia que merecíamos a Lua como ponto de partida para todos os Elons do mundo que quisessem ir no espaço interestelar."
Com o tempo, Pointer se tornou menos otimista e passou a ver a região como menos acolhedora. Em abril, ela foi à Starfactory para gravar uma entrevista com uma equipe de reportagem italiana, sob um enorme “X” perto da entrada do prédio, onde ficava sua cozinha. Um segurança se aproximou e ordenou que eles se retirassem. “Foi muito militar”, disse ela.
Outros moradores de cidades vizinhas – Laguna Vista, Port Isabel e South Padre Island – alegam que os lançamentos da Starship estão danificando suas casas, segundo uma ação coletiva apresentada em abril contra a SpaceX.
Uma das autoras da ação, que preferiu não se identificar a pedido de seu advogado, mostrou à Reuters sua casa em Port Isabel. Os armários estão desnivelados, as portas não fecham e placas de madeira cobrem o piso deformado — que, segundo ela, foi danificado por mofo após o rompimento de um cano do chuveiro depois do lançamento de um foguete.

Ela estima que os reparos na fundação custarão cerca de US$ 100 mil, mais da metade do valor da casa.
“Eles querem chegar a Marte”, disse ela. “Mas e nós que estamos aqui? Eu estou aqui agora. E ninguém está pensando em nós.”

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