Quando o maior diretor de todos os tempos volta a seu tema favorito, alienígenas, convém prestar atenção. Em "Dia D", Steven Spielberg evoca o encanto que injetou em clássicos como "Contatos imediatos do terceiro grau" (1977) e "E.T. O extraterrestre" (1982) – com resultados variados.
O primeiro blockbuster do cineasta desde 2018 estreia no Brasil nesta quinta-feira (10) com a inocência otimista e pitadas de teorias da conspiração que marcam alguns de seus melhores filmes.
Como na maioria da obra do veterano, estão lá uma aventura desnorteante contrastada com a calma para a elucidação do mistério, o fascínio pelo desconhecido, a pureza de um olhar quase infantil e grandes atuações de excelentes atores.
No caso, de Emily Blunt ("O diabo veste Prada 2"), Josh O'Connor ("Rivais") e Colin Firth ("O discurso do rei").
Infelizmente, é difícil precisar se algo se perdeu nas décadas desde os clássicos que claramente inspiram "Dia D" ou se falta a Spielberg o interesse genuíno por uma inovação – pelo menos uma que vá além da mera técnica.
Os avanços tecnológicos alcançados nesses quase 50 anos que o separam de "Contatos imediatos" são inegáveis. Assim como é praticamente impossível ignorar que, ao final da nova história, entre os inúmeros sentimentos provocados está o de uma leve frustração.
Pelo menos para quem está acostumado a esperar sempre o melhor do diretor.
Assista ao trailer de 'Dia D'
Uma trama elegante para tempos menos civilizados
Como sempre, Spielberg imagina um mundo onde extraterrestres são reais e onde sua existência é escondida por uma organização com motivações escusas.
No roteiro que o cineasta assina com David Koepp, com quem trabalhou em "Jurassic Park" (1993) e "Guerra dos mundos" (2005), os protagonistas são um grupo de pessoas determinado a acabar com esse segredo e uma mulher (Blunt), presa no fogo cruzado.
É uma trama elegante para tempos menos civilizados. O otimismo e a inocência insistentes do diretor que dominam a narrativa soam quase anacrônicas entre tantas superproduções cínicas e cheias de explosões.
Sempre mais interessado no lado humano de seus conflitos, dá gosto ver a destreza com que o diretor costura os fios entre protagonistas, organização nefasta e a natureza verdadeira dos alienígenas.
Em suas mãos, as quase duas horas e meia de duração não têm espaço para gorduras desnecessárias. Cada momento transmite uma sensação. Cada olhar conta uma história em poucos segundos.
Tudo com o auxílio sempre presente da trilha de John Williams – mais um que pode ser chamado de maior de todos os tempos em sua própria categoria. Talvez falte a "Dia D" um tema marcante como suas duas principais inspirações, mas cada nota é tão responsável pelos sentimentos instigados quanto o cineasta em si.
Delaney Anne Cuthbert em cena de 'Dia D'
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O capítulo que não foi
Difícil cravar, no entanto, que o filme se junte aos clássicos maiores da carreira de Spielberg. Talvez por olhar demais para o passado, e até recriar bem demais grande parte de seu charme, o filme se esqueça de construir algo novo.
Não há nada de errado em reverenciar grandes exemplos – mas é preciso cuidado no caso de autorreferências. Não que a obra soe arrogante. Ela apenas, por vezes, parece satisfeita demais consigo mesma, como em pontas deixadas caprichosamente soltas no final.
É possível perdoar um certo sentimentalismo, em especial nas mãos de quem sabe como ninguém como usá-lo. O perdão é sempre mais fácil com o coração quentinho.
Mas, quando o maior de todos os tempos volta a seu gênero preferido, o mundo tende a esperar um novo capítulo, e não apenas uma visita a tempos mais simples – por melhor que ela seja.
Arte/g1
Emily Blunt e Josh O'Connor em cena de 'Dia D'
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