As pessoas traumatizadas por divórcios repentinos
Serenity Strull/ BBC/ Getty Images
Eve Simmons estava em um relacionamento amoroso havia oito anos e meio e casada havia seis meses quando seu marido colocou um prato de macarrão na mesa à sua frente, acompanhado da frase "Não estou feliz". Foi completamente inesperado. Alguns dias depois, ele disse que não queria tentar salvar o casamento.
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Segundo Simmons, foi uma "separação brutal".
Existem inúmeros tópicos no Reddit e em outros fóruns online com histórias semelhantes sobre ex-cônjuges que afirmam ter vivenciado um "divórcio abrupto". Às vezes, isso é chamado de "síndrome do divórcio repentino".
Mas, na opinião dos especialistas, quais são os motivos que levam um cônjuge a querer o divórcio de repente, e o que uma separação repentina pode nos dizer sobre o estado do amor e dos relacionamentos modernos?
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O choque de uma separação repentina
Adam Davis (cujo nome verdadeiro foi omitido por motivos de privacidade) estava com sua esposa havia 10 anos e casado havia quatro quando ela saiu de casa uma manhã para ir às compras e nunca mais voltou.
Preocupado com o paradeiro dela, Davis contatou a polícia, que confirmou que ela estava bem e segura, mas disse que ela não tinha intenção de entrar em contato com ele. Várias semanas depois, ele recebeu os papéis do divórcio pelo correio.
"Não houve nenhuma explicação, não houve nenhum encerramento, não houve nenhuma despedida", diz ele.
Davis começou a apresentar sinais de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) quando sua esposa o deixou.
"Eu não conseguia dormir, não conseguia comer. Não conseguia me concentrar no trabalho. Eu tinha dificuldade para realizar tarefas diárias, como sair da cama de manhã ou simplesmente tomar banho e escovar os dentes", diz ele.
Para mulheres em casamentos homoafetivos, pesquisas recentes sugerem que as perdas materiais após o divórcio podem ser menores.
Para os homens, os riscos são sutilmente diferentes, segundo estudos. Pesquisas mostram que, embora os homens tenham maior probabilidade de se recuperar financeiramente após um divórcio do que as mulheres, eles tendem a ser menos ricos do que os homens que permanecem casados.
Os homens também podem enfrentar um risco maior de problemas de saúde graves após o divórcio, em comparação com as mulheres.
Seus riscos para a saúde mental incluem um risco maior de suicídio após a separação conjugal, em comparação com homens casados e com mulheres.
Os homens geralmente são mais propensos do que as mulheres a depender de suas cônjuges para intimidade, apoio social e relacionamentos com amigos e familiares, o que pode colocá-los em risco de isolamento social após o divórcio.
O choque de um divórcio repentino pode ser difícil de processar e não deixa espaço para se preparar para as consequências mentais e práticas
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"As mulheres são orientadas para relacionamentos, o que significa que tendem a manter e formar novas amizades com forte conexão emocional", diz Rhoades.
"Os homens são mais propensos a enfrentar dificuldades emocionais ou sociais, porque não possuem os mesmos recursos interpessoais ou sociais que as mulheres costumam ter."
Para as mulheres, um divórcio repentino pode ser particularmente surpreendente devido ao papel que desempenham nos relacionamentos amorosos, afirma Rhoades.
"Muitas vezes, as mulheres acabam assumindo o papel de iniciar conversas — quase como barômetros de como o relacionamento está indo. é por isso que um divórcio repentino, especialmente partindo do marido, pode ser surpreendente, porque as mulheres estão bastante atentas ao equilíbrio do relacionamento ou a como as coisas estão indo para cada parceiro", diz Rhoades.
Nos casos de divórcio repentino, ter menos tempo — ou nenhum tempo — para se preparar para a separação também pode dificultar o enfrentamento das consequências práticas, como ter que encontrar uma nova moradia, mas também das consequências psicológicas do choque.
Davis conta que, após o choque inicial passar, começou a sentir uma tristeza intensa — e a falta de um desfecho tornou tudo mais doloroso.
Para se salvar do "abismo do desespero", ele começou a se exercitar e a se alimentar bem. Eve se refugiou no sofá da mãe e contou com o apoio de amigos e familiares.
Ambos também procuraram terapeutas para ajudá-los a lidar com as consequências emocionais de seus divórcios. Refletindo sobre seus respectivos casamentos, tanto Simmons quanto Davis concluíram que havia diferenças nos estilos de comunicação.
"Como muitos relacionamentos, nós tivemos problemas", diz Simmons. "Não era perfeito, porque relacionamentos não são. não foi um mar de rosas. E estávamos juntos há muito tempo, desde o início dos nossos vinte anos", diz Simmons.
Eli Finkel, professor de psicologia social na Universidade Northwestern, nos EUA, afirma que o estado atual do casamento nos EUA é "uma mistura de coisas boas e ruins". Em seu livro, The All or Nothing Marriage ("O Casamento Tudo ou Nada", em tradução livre), ele argumenta que a mudança em nossas expectativas e crenças sobre o casamento teve duas consequências.
"Primeiro, tornou o casamento mais frágil. Muitos de nós estamos decepcionados com um nível de conexão conjugal que teria sido totalmente suficiente para nossos avós", diz ele.
"Mas, em segundo lugar, fez com que os melhores casamentos ficassem melhores do que nunca. Aspiramos a nos conectar em um nível psicológico mais profundo do que em épocas anteriores, e os casamentos que correspondem a essas aspirações são profundamente gratificantes."
Curiosamente, uma análise de dados de uma pesquisa publicada pelo Pew Research Center em novembro de 2025 mostrou que os estudantes do ensino médio nos EUA estão menos propensos hoje em dia a dizer que querem se casar — com 67% dos jovens de 17 a 18 anos do país dizendo que escolherão se casar um dia, uma queda em relação aos 80% em 1993.
Os meninos são mais propensos a dizer que vão se casar do que as meninas.
Finkel adota uma abordagem cautelosa ao interpretar as diferenças de gênero em relação ao casamento e ao divórcio, já que as razões para a divergência não são totalmente claras.
"Minha leitura das evidências é que as mulheres são muito mais propensas do que os homens a iniciar o divórcio", diz Finkel. "Há muita especulação sobre o que impulsiona essa diferença de gênero, mas não me sinto confiante em afirmar que alguma delas tenha um respaldo particularmente forte."
Os relacionamentos modernos explicam o divórcio repentino?
No mundo ocidental, as pessoas têm uma abundância de opções, o que certamente mudou a trajetória do amor e do casamento modernos.
Tomemos como exemplo os aplicativos de namoro, que aumentaram a acessibilidade a relacionamentos sexuais casuais. Sua popularidade coincidiu com a mudança na idade média de casamento e com o desejo das pessoas de construir uma carreira antes de se estabelecerem em um relacionamento estável.
Embora o número de usuários de aplicativos de namoro tenha diminuído, ele ainda é alto — no Reino Unido, estima-se que haverá 12 milhões de usuários em aplicativos de namoro até 2028.
A maior parte da receita da indústria global de aplicativos de namoro vem dos EUA, com três em cada dez adultos americanos afirmando já ter usado um aplicativo de namoro. No Brasil, a expectativa é de que o número de usuários de aplicativos de relacionamento continue a crescer, passando de 16,7 milhões em 2023 para 18 milhões em 2028, de acordo com projeções da plataforma de dados Statista.
Os aplicativos de namoro podem levar à "paralisia da escolha" ou "sobrecarga", já que os usuários são expostos a uma "abundância" de parceiros em potencial.
Embora essa abundância possa dar a impressão de que é mais provável que uma pessoa encontre um parceiro, pesquisas sugerem que, na verdade, pode ter o efeito oposto — tornando as pessoas mais propensas a permanecerem solteiras.
O psicólogo americano Barry Schwartz escreveu sobre esse paradoxo e sobre por que mais é menos. Mais opções não equivalem a mais liberdade, argumenta ele em seu livro. Em vez disso, ele diz que as pessoas podem sentir mais responsabilidade e culpa se estiverem insatisfeitas com uma escolha feita.
No mundo moderno dos encontros, a abundância de parceiros em potencial percebidos pode levar à 'paralisia da escolha'
Serenity Strull/ BBC/ Getty Images
Há também um fenômeno chamado monitoramento alternativo.
"Quanto mais você pensa em alternativas, seja um amor do passado, alguém do trabalho por quem você se sente atraído ou, nos dias de hoje, toda a disponibilidade de outros parceiros em potencial, mais difícil pode ficar se comprometer com o relacionamento e se dedicar ao trabalho que relacionamentos de longo prazo exigem", diz Rhoades.
Pesquisas sugerem que o monitoramento alternativo precede tanto términos quanto infidelidade.
É claro que isso também pode levar a uma relutância em se comprometer — daí o "medo de rotular" e o uso de termos como "relacionamentos casuais" (um relacionamento romântico ou sexual vago e ambíguo, que não envolve compromisso).
"Parece haver essa cultura do descartável", diz Simmons. "[A ideia de que] estou com alguém há muito tempo, mas haverá algo melhor em breve, algo muito fácil de alcançar, que exigirá o mínimo de esforço e resolverá todos os meus problemas." "Não sei se isso se deve em parte à cultura dos aplicativos de namoro [ou] também à influência das redes sociais, porque estamos nesse [estado de] consumo constante", diz ela.
Em última análise, os relacionamentos exigem trabalho, comprometimento e esforço. "Relacionamentos felizes não surgem do nada", acrescenta Finkel. "Eles exigem investimento inteligente de tempo, atenção e recursos", afirma.
E para os apaixonados, nem tudo está perdido. Um amplo estudo recente realizado em 90 países mostrou que as pessoas ainda valorizam o amor romântico ao considerar um relacionamento de longo prazo, inclusive em países onde os casamentos arranjados ainda são comuns.
O estudo descobriu que o amor romântico funciona como um mecanismo de compromisso — o que significa que é "universalmente percebido" como uma força que incentiva as pessoas a cultivarem o compromisso em seus relacionamentos.
A vida após um divórcio repentino
Davis ainda está passando pelo processo de divórcio e tentando seguir em frente. "Não tenho a menor esperança de reconciliação", diz ele.
Embora possa especular e considerar os motivos pelos quais sua esposa poderia ter desejado o divórcio, ele ainda não recebeu uma explicação dela.
Simmons agora está em um relacionamento feliz e deu à luz recentemente. Olhando para trás, ela diz que havia sinais de que ela e seu ex-marido não eram muito compatíveis. Mas isso é fácil de dizer depois do ocorrido.
Ela acabou escrevendo um livro inspirado em seu divórcio repentino, chamado What She Did Next ("O Que Ela Fez Depois"), no qual conversou com dezenas de homens e mulheres que passaram por experiências semelhantes.
"Em todos os casos que conheci, sem dúvida alguma, a pessoa que foi pega de surpresa classificou [o ocorrido] como a melhor coisa que já lhe aconteceu. No fim, ela conseguiu tudo o que sempre quis", diz Simmons.
"Relacionamentos nem sempre dão certo, e tudo bem."





