Divinópolis MG
Anna Lúcia Silva/g1
Muito além da moda e do crescimento urbano, Divinópolis guarda histórias que ajudam a explicar a identidade cultural da cidade. Algumas delas estão presentes no cotidiano dos moradores, outras atravessaram décadas e ganharam repercussão nacional e até internacional.
Tem bairro famoso que oficialmente não se chama como todo mundo o conhece, estabelecimento tradicional que nunca vendeu batatas, festas que paravam ruas inteiras e até um jornal tão pequeno que entrou para o Guinness Book.
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No aniversário de 114 anos Divinópolis, o g1 reuniu curiosidades que ajudam a contar parte da memória afetiva do município. Entre elas estão a coroação de Milton Nascimento como Rei do Congo diante de milhares de pessoas, a importância decisiva da ferrovia no crescimento da cidade e a história do “Vossa Senhoria”, reconhecido como o menor jornal impresso do mundo.
Entre tradição, música, esporte, cultura popular e histórias que sobreviveram ao tempo, Divinópolis mostra que seu passado vai muito além dos livros: ele segue vivo nas ruas, nos bairros, nas festas e na memória dos moradores.
1. O nome oficial do bairro Sidil não é Sidil
Bairro Vila Belo Horizonte fica na região conhecida como Sidil
Anna Lúcia Silva/g1
Um dos bairros mais conhecidos de Divinópolis carrega um nome que, oficialmente, não existe nos registros urbanos. O tradicional Sidil, referência para milhares de moradores, na verdade nasceu como Vila Santo Antônio.
O nome “Sidil” acabou popularizado por influência da Sociedade Industrial Divinopolitana Ltda. (Sidil), que segundo o historiador Elizeu Ferreira, foi instalada na região para venda de loteamentos e desde então, marcou a identidade do bairro ao longo das décadas.
Com o passar dos anos, o nome popular falou mais alto do que o oficial. Hoje, praticamente toda a cidade se refere ao local apenas como Sidil.
"É uma curiosidade que muita gente desconhece. Aquela região tem vários outros bairros como Capitão Silva, Vila Belo Horizonte, mas Sidil mesmo não aparece nos registros", disse o historiador.
2. A Casa da Batata não vende batatas
Casa da Batata em Divinópolis
Anna Lúcia Silva/g1 Outro clássico divinopolitano que intriga moradores e visitantes é a famosa Casa da Batata no bairro Santa Luzia. Apesar do nome, o tradicional estabelecimento não tem a batata como principal produto vendido no local.
Os produtos vendidos na casa da Batata, estabelecimento com cerca de 50 anos de existência, são produtos alimentícios como cerais e grãos ensacados, como milho e feijão.
O apelido surgiu décadas atrás por causa da atividade inicial ligada ao armazenamento e comercialização do alimento que até era vendido no local, mas depois nunca mais passou a fazer parte das gondolas do comércio.
Com o tempo, o espaço mudou de perfil, virou referência e manteve o nome que atravessou gerações, tornando-se um dos pontos mais conhecidos da cidade.
3 .Uma das maiores pistas públicas de skate de MG
Pista de skate Parque da Ilha Divinópolis
Prefeito de Divinópolis/Divulgação
Divinópolis também se destaca no esporte. A cidade abriga uma das maiores pistas públicas de skate de Minas Gerais, localizada no Parque da Ilha. O espaço passou por uma grande reforma em 2012 quando o espaço foi ampliado para cerca de 1,5 mil metros quadrados, superando estruturas tradicionais do estado e se tornando referência para atletas da região.
A revitalização recebeu investimento de aproximadamente R$ 100 mil e contou com participação direta da Associação Divinopolitana de Skate, que acompanhou o projeto para adaptar a pista às necessidades dos praticantes. Com obstáculos modernos e estrutura ampliada, o local passou a receber skatistas de diferentes cidades mineiras.
Além de incentivar o esporte e a convivência entre os jovens, a pista ajudou a fortalecer a cultura do skate em Divinópolis. O espaço também abriu caminho para a realização de campeonatos e etapas de competições de nível estadual e nacional no município.
4 . Ferrovia decisiva para o crescimento da cidade
Linha férrea em Divinópolis
Anna Lúcia Silva/g1
Se hoje Divinópolis é considerada um dos principais municípios do Centro-Oeste de Minas, muito disso passa pelos trilhos da ferrovia. No fim do século XIX e início do século XX, o transporte ferroviário foi essencial para o desenvolvimento econômico e populacional da cidade.
A chegada da estrada de ferro transformou Divinópolis em ponto estratégico de circulação de pessoas e mercadorias. Impulsionou o comércio, atraiu trabalhadores e contribuiu diretamente para a expansão urbana.
Para o historiador Welber Tonhá, o trem simbolizava muito mais do que um meio de transporte.
“O trem não era apenas uma máquina colossal de ferro; era o próprio pulsar de um futuro implacável que se desenhava sobre dormentes de madeira. À medida que os trilhos se estendiam como veias metálicas pela terra vermelha, a pacata Vila Divinópolis começou a despertar”, afirmou.
Welber destaca ainda que cada composição que chegava à cidade trazia não apenas cargas e passageiros, mas também desenvolvimento e transformação social. “Cada vagão que despontava trazia consigo o peso do carvão, das especiarias e também o progresso, então definitivamente, a ferrovia foi decisiva para o crescimento da cidade”, completou.
Por décadas, o apito dos trens fez parte da rotina dos moradores e ajudou a moldar a identidade ferroviária do município.
5 . As gincanas da Savassi mobilizavam multidões
Antes da era das redes sociais e dos eventos digitais, as tradicionais gincanas da região da Savassi movimentavam Divinópolis e reuniam centenas de jovens em disputas que ficaram marcadas na memória da cidade.
A ideia das gincanas partiu da jornalista Sônia Terra e do marido, Coronel Faria, quando ambos estavam à frente do Jornal Agora, o único jornal impresso que circula até hoje em Divinópolis.
Segundo Sônia, a inspiração veio de uma competição estadual chamada “Mineiros Frente a Frente”, que fazia sucesso em Minas Gerais na época.
“Em idos de 1932, quando os ventos da modernidade começavam a sussurrar suas promessas sobre o vasto solo latino-americano, a terra úmida e fértil testemunhou o erguer de uma revolução com cheiro de cana e de futuro. Nascia a Usina Gravatá, imponente e visionária”, afirmou.
Welber destaca ainda o caráter inovador do empreendimento para a época. “Longe de ser apenas mais um conjunto de engrenagens a moer a rotina de seus dias sob o sol inclemente, ela se tornou o caldeirão de uma alquimia inédita, onde a doçura da seiva verde era transmutada, em meio a vapor e fornalhas, na força bruta capaz de fazer girar a roda do amanhã”, completou.
Décadas depois, o espaço foi transformado no Teatro Gravatá, preservando parte da memória de um dos capítulos mais curiosos e pioneiros da história de Divinópolis.
9. Candidés nunca foi uma tribo indígena
Em Divinópolis, o nome Candidés batiza diversos espaços, como a Praça Candidés, localizada antes da ponte do Rio Itapecerica
Reprodução/Tv Integração
Muita gente acredita que o nome Candidés, tradicional bairro de Divinópolis, tenha origem indígena. Mas, segundo historiadores, a história é bem diferente: Candidés nunca foi o nome de uma tribo.
De acordo com o historiador Welber Tonhá, a origem do nome está ligada a Manoel Fernandes Teixeira, um paulista que teria fugido da Guerra dos Emboabas, conflito ocorrido no início do século XVIII entre paulistas e portugueses pelo controle das áreas de mineração em Minas Gerais.
Segundo Welber, ao escapar da guerra, Manoel Fernandes Teixeira se embrenhou na mata da região para fugir dos confrontos e acabou vivendo isolado no sertão.
“Ele era um homem branco, de pele muito clara, e destoava bastante dos habitantes da região naquela época. Por causa da pele ‘cândida’, acabou recebendo o apelido de Candidé”, explicou o historiador.
Com o passar do tempo, o nome acabou associado ao local onde ele viveu e, posteriormente, gerou a crença popular de que existiria uma tribo indígena chamada Candidés.
“O grande equívoco histórico foi transformar a figura de um único homem em uma suposta nação indígena que nunca existiu”, destacou Welber Tonhá.
A história atravessou gerações e se tornou uma das curiosidades mais conhecidas sobre as origens de Divinópolis e de suas comunidades.
10. Primeiro terminal rodoviário funcionava em frente ao Hotel Iris
Ponto de ônibus com as jardineiras na esquina do Iris Hotel, antes da construção da primeira rodoviária, em 1962
Site Colorindo a História de Divinópolis/Vilton Gonçalves Teixeira
Muito antes da construção da atual rodoviária, o embarque e desembarque de passageiros em Divinópolis acontecia de forma bem mais simples: em frente ao tradicional Hotel Iris, ativo até hoje na avenida 1º de Junho.
Segundo o historiador Welber Tonhá, foi em 1925 que a cidade começou a vivenciar os primeiros passos do transporte coletivo rodoviário, com a circulação da chamada “Jardineira de Halin Souki”, um dos primeiros veículos usados para o transporte de passageiros na região.
“O surgimento da jardineira marcou a chegada do transporte público rodoviário em Divinópolis e ajudou a aproximar pessoas e comunidades em uma época em que as viagens ainda eram difíceis”, explicou o historiador.
O ponto de parada da jardineira funcionava justamente em frente ao Hotel Iris, que acabou se tornando o primeiro terminal rodoviário informal da cidade. O local virou referência para partidas, chegadas e encontros de viajantes durante décadas.
Welber destaca que o espaço se transformou em um importante ponto de movimentação da cidade. “Ali aconteciam despedidas, reencontros e a circulação de pessoas que ajudavam a movimentar o comércio e a vida urbana de Divinópolis”, afirmou.
O modelo permaneceu ativo até o crescimento urbano e a modernização do transporte exigirem estruturas mais amplas, já próximo da década de 1960.
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