Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Fintech da Faria Lima movimentou sozinha mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo em esquema com PCC, diz Receita Federal

'Fluxo Oculto': operação faz buscas na Faria Lima, em SP
O secretário especial da Receita Federal, Robinson Sakiyama Barreirinhas, afirmou nesta quinta-feira (28) que uma das fintechs investigadas na Operação Fluxo Oculto movimentou sozinha mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As autoridades não revelaram o nome da fintech.
Batizada de Fluxo Oculto, uma nova fase da Operação Carbono Oculto, a ação conduzida pelo grupo de atuação e combate ao crime organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal cumpriu cerca de 60 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
🔎 Fintech é uma empresa de tecnologia que oferece serviços financeiros digitais, como contas, transferências, pagamentos e empréstimos, geralmente por aplicativos e plataformas online.

No total, os relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas e suspeitas de quase R$ 26 bilhões, além da retomada do uso de fintechs e plataformas de pagamento, que funcionaram como “dutos financeiros” do grupo criminoso.
"Foram desvendadas seis fintechs que movimentaram R$ 26 bilhões. Só uma delas movimentou em dinheiro mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo, o que nem deveria ser possível no caso das fintechs. Claramente em lavagem de dinheiro do crime organizado", apontou Barreirinhas.
"Nós tínhamos no Brasil um vácuo regulatório, de governança, quer permitia às fintechs atuarem sem a transparência, sem os mesmos deveres que são impostos há duas décadas aos bancos e demais instituições financeiras".
"Gosto de lembrar que, quando a Receita Federal foi fechar essa brecha regulatória, fomos vítimas da maior onda de fake news da história da Receita. Mentiras dizendo que a Receita iria monitorar Pix, tributar o Pix. Mentiras que, volta e meia, tentam emplacar novamente", completou.
"Nós vimos quem era o interessado disso: as organizações criminosas, que se valiam e se valem ainda dessas fintechs para a lavagem de dinheiro", destacou o secretário.

É #FAKE que norma da Receita Federal prevê monitoramento de todo PIX acima de R$ 5 mil Segundo o Ministério Público de São Paulo, apesar da deflagração da operação Carbono Oculto em 2025, o grupo não interrompeu as atividades. Pelo contrário, houve aumento do volume de desvio de nafta (solventes petroquímicos importados) e abertura de novas empresas de fachada para ocultar o dinheiro do esquema.
➡️ A Operação Carbono Oculto mirou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro com ligação ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo as investigações, o grupo atuava em toda a cadeia do setor de combustíveis, usando também fundos de investimento para ocultar o patrimônio ilícito.
Os promotores afirmam que a organização ligada à facção PCC se reestruturou rapidamente, expandiu as operações e manteve o mesmo padrão criminoso detectado no ano passado.
Nova operação
Dinheiro apreendido pela ‘Operação Fluxo Oculto’ na manhã desta quinta-feira (28).
Reprodução/TV Globo
Um dos principais pontos da investigação desta quinta-feira (28) foi o acesso às contas gráficas (registros internos) vinculadas às chamadas contas-bolsão, que as fintechs mantinham em bancos tradicionais.

💰 Contas-bolsão são contas bancárias únicas abertas por fintechs em um banco tradicional para centralizar e movimentar dinheiro de um grupo de clientes, como se fosse um cofre comum. Para o banco em que a conta-bolsão foi aberta, o titular da conta é apenas a fintech que a abriu.
Até então, todo o dinheiro que a fintech movimentava em uma determinada conta vinculada a bancos tradicionais não informava qual cliente era dono de cada parte do dinheiro que estava nas contas-bolsão.
Essas contas-bolsão criaram um ponto cego para o sistema antilavagem de dinheiro. Esses mecanismos trouxeram múltiplas possibilidades para a blindagem patrimonial e a lavagem de capitais, segundo revelou a primeira fase da operação.
Com o acesso às contas gráficas, os promotores conseguiram o registro interno das transações, como origem e destino, remetente e beneficiário da conta de pagamento, efetuado pela instituição de pagamento, relacionada à “conta-bolsão”.

Isso só foi possível porque, nessas contas gráficas, os recursos dos usuários transitam por contas mantidas em nome da própria fintech junto a bancos tradicionais.
➡️ De acordo com o MP, quando o dinheiro cai na conta bolsão, o banco só sabe que ele é da fintech, não sabe o CNPJ ou CPF do depositante. A fintech mantém um livro de registro com esses dados, de quem é realmente o dono do dinheiro. Isso é justamente a chamda conta gráfica.
‘Operação Fluxo Oculto’ explica diferença das contas usadas para ocultar dinheiro do PCC através de fintechs na Av. Brigadeiro Faria Lima.
Reprodução/TV Globo
Operação Fluxo Oculto
Operação Carbono Oculto: segunda fase mira novo esquema de lavagem de dinheiro do PCC
O Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal realizam na manhã desta quinta-feira (28) a nova fase da Operação Carbono Oculto.
A ação cumpre 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Os principais alvos são empresários, operadores logísticos e laranjas do esquema, que continuaram atuando mesmo após as operações policiais anteriores.
Um dos prédios alvos da megaoperação na Avenida Faria Lima, famoso centro financeiro do país
David Irikura/TV Globo
O grupo passou, por exemplo, a concentrar movimentações de dezenas de postos para tentar despistar a fiscalização e as investigações.
Em um dos casos, as operações de 56 postos de combustíveis eram feitas em uma única conta. Além disso, os alvos migraram, nos últimos meses, recursos entre várias fintechs e usaram novas empresas para substituir antigas já expostas.
A investigação mostrou que o esquema, liderado por Mohamad Hussein Mourad (o "Primo") e Roberto Augusto Leme da Silva (o "Beto Louco") manteve a lavagem de dinheiro por meio de fintechs, alterando empresas e quadros societários para continuar ocultando patrimônio da adulteração de combustíveis e sonegação de impostos, e mantendo conexões com o PCC.
Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.
Divulgação/MP-SP
Os dois estão foragidos desde agosto do ano passado, mas em decorrência da Operação Tank, deflagrada pela Polícia Federal no mesmo dia da Carbono Oculto.
Eles tentaram fechar um acordo de delação premiada com o MP de São Paulo, mas a proposta foi rejeitada pelos promotores. Para o MP, os empresários omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, conexões do esquema com o PCC e corrupção policial.
Os relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas e suspeitas de quase R$ 4 bilhões e que o uso de fintechs e plataformas de pagamento funcionaram como “dutos financeiros” do grupo.
Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo", e Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco"
Montagem g1/Reprodução/Redes sociais/Polícia Civil
'Máfia do nafta'
Em outras duas frentes de atuação na operação de desta quinta-feira, os agentes cumprem mandados contra empresas e pessoas que atuavam na “máfia do nafta” e adulteração de combustíveis.
O grupo usava empresas de solventes petroquímicos importados, que possuem tributação muito inferior, para serem vendidos ilegalmente como gasolina automotiva.
O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões na diferença tributária contabilizada.
Esta fase está dividida em três frentes. Veja abaixo.
FRENTE 1: Engenharia financeira e lavagem de capitais via fintechs
Esta frente atua como o "duto financeiro" da organização criminosa liderada por "Primo" e "Beto Louco", viabilizando a ocultação do patrimônio bilionário e mantendo conexões com o PCC.
Modus Operandi: O grupo usa instituições de pagamento para lavar dinheiro, valendo-se do modelo de "contas-bolsão" e "contas gráficas". Os recursos de dezenas de postos de combustíveis da organização são depositados em uma única conta bancária sob o CNPJ da fintech ("conta-bolsão").
A separação de quem é o dono do dinheiro ocorre apenas no sistema interno da fintech ("conta gráfica"), criando um ponto cego (camada de ocultação) que impede o Banco Central e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) de rastrearem a origem, o destino e os reais titulares dos recursos. Quando o esquema sofre fiscalização, a organização migra rapidamente os recursos de uma fintech para outra.
Pessoas e Empresas Envolvidas: Lideranças e Operadores: Mohamad Hussein Mourad e "Beto Louco" (líderes), Lucas Tomé Assunção (gerente contábil do grupo).
Fintechs e seus Gestores: BK Bank, Ceopag (ligada a Kawel Rodrigo Lotti), Sispay (Marcelo Artur Motta Ramos Marques e Vera Lucia Teixeira), Vpay, Yaw e Smart Solutions Group.
Conexões com o PCC: A Yaw interligou-se ao esquema via Shelby Holdings, empresa atrelada a Ricardo Romano (investigado por ligações com o PCC). A Sispay revelou vínculos com Luiz Sérgio Ferreira da Mota, alvo de operações anteriores contra a máfia dos ônibus ligada à mesma facção.
Valores Movimentados: A Smart Solutions Group movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de metade unicamente para a GGX Global (holding de postos do grupo criminoso).
A Ceopag registrou movimentações atípicas em curtíssimo prazo de R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos.
No total consolidado, relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas de sujeitos obrigados na ordem de R$ 3,86 bilhões.
FRENTE 2: A máfia do nafta e adulteração de combustíveis
Esta frente expõe a fraude física e tributária: o desvio de solventes petroquímicos importados (nafta), que possuem tributação muito inferior, para serem vendidos ilegalmente como gasolina automotiva.
Modus Operandi: Produtoras e importadoras de solventes emitem milhares de notas fiscais falsas ("espelho") atestando a venda de NAFTA para empresas químicas de fachada. Essas falsas indústrias químicas são registradas em nome de "laranjas" (frequentemente pessoas vulneráveis ou beneficiárias de programas sociais) em endereços fictícios.
Na realidade, o produto físico nunca chega a essas empresas; os caminhões desviam a rota e descarregam o NAFTA diretamente em distribuidoras e terminais terrestres, onde o solvente é misturado à Gasolina Tipo A. O combustível adulterado é, então, revendido aos consumidores finais nos postos.
Pessoas e Empresas Envolvidas: Núcleo de Comando e Produtoras: Raffaele Vestenius Masi e Aldo Antônio Masi (titulares e gestores de fato da produtora Petrodansk), auxiliados por João Eduardo de Albuquerque (gestor operacional). A empresa SMAX também emite notas para a fraude.
Logística e Laranjas: Ítalo Giovanni Bergamo (coordenador do recrutamento de laranjas e emissão de conhecimentos de transporte), Igor de Souza Amorim e Gilmar Amorim (logística). Michele Gomes Vieira Silva e Simone Alves de Oliveira atuaram abrindo dezenas de empresas de fachada (como MGK, Zurk, Kore Transportes).
Distribuidoras e Terminais (Destino real): Distribuidora Saara, Petroriente Distribuidora e os terminais terrestres Tercom (Paulínia) e Arujá Terminais.
Valores e Volumes Identificados: Desvio comprovado de mais de 135 milhões de litros de Nafta em pouco mais de dois anos.
Apenas a Petrodansk emitiu mais de 10.076 notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão.
O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões na diferença tributária auferida.
FRENTE 3: Ocultação patrimonial via fundos de investimentos (FIDCs)
Como complemento direto da Máfia do NAFTA, o grupo utiliza o mercado financeiro formal para liquidar as operações fraudulentas e mascarar os beneficiários do lucro da adulteração.
Modus Operandi: Para que o dinheiro da gasolina adulterada retorne de forma "limpa" para as produtoras (Petrodansk/SMAX), as empresas-fantasma emitem boletos. Quem paga esses boletos são Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP). Contudo, as cessões ocorrem sem deságio (sem desconto) e com prazos curtíssimos (às vezes de 1 dia), o que subverte a lógica do mercado financeiro e prova que a transação é fictícia.
Esses fundos são "fechados", possuindo apenas um ou dois cotistas, funcionando exclusivamente como uma camada final de lavagem de dinheiro (layering) para pagar faturas ilícitas.
Pessoas e Empresas Envolvidas: Fundos: Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global.
Gestores/Beneficiários: Guilherme Mourão Vaz (Diretor da Actual DTVM/Gran Capital), Edward Bertelli Júnior (Libertas Asset), Luis Roberto Zaratin Soares (Ello Gestora). Na ponta dos beneficiários, figuram Gledson Pacheco e Antônio Correa de Freitas Junior (que operam a Nova Rubília Instituição de Pagamento e a distribuidora Saara), e Guilherme Ali de Paula (Pix Card / Atena FIP).
👉 A defesa deles não foi localizada.
Valores Identificados: Para o bloqueio de bens (confisco), a operação mirou o patrimônio líquido dos fundos que serviam de duto: R$ 85 milhões (Zeus), R$ 72 milhões (Gran Capital) e R$ 47 milhões (DB Crédito Global).

Tags:

Gostou? Compartilhe!

Mais leitura
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore