O ex-traficante que viralizou ao correr com tornozeleira eletrônica no Rio
“Treinando para correr da polícia” e “no fone ele toca sirene para acelerar” foram alguns dos comentários feitos quando Alex Lopes publicou vídeos se exercitando com uma tornozeleira eletrônica pelo Rio. Ex-integrante do tráfico de drogas do Morro da Previdência, o "cria" da comunidade viralizou ao transformar a própria história de prisão em discurso de ressocialização pelo esporte.
Alex Lopes é mais um entrevistado da série Influência de Cria, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop.
Hoje universitário, atleta e meio maratonista, Alex, de 38 anos, reúne milhares de seguidores nas redes sociais ao compartilhar treinos, corridas e reflexões sobre o passado no crime.
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O que começou como vídeos espontâneos sobre rotina fitness acabou se tornando uma forma de incentivar jovens da favela a buscarem outros caminhos.
Alex Lopes
Arquivo pessoal
Ao lado de amigos, criou o Corre dos Crias, grupo de corrida que reúne moradores entre o Centro e a Zona Sul do Rio e já acumula mais de 50 mil seguidores nas redes sociais.
Nascido em Salvador (BA), Alex passou parte da infância em São Paulo antes de se mudar para o Rio, aos 8 anos. Foi no Morro da Providência que cresceu entre futebol, praia e a rotina da comunidade. "Me considero cria daqui”, contou.
Ele conta que, apesar de vir de uma família que sempre trabalhou honestamente, acabou entrando para o tráfico ainda jovem, influenciado pelo ambiente e pela sedução do dinheiro fácil.
“Muitos jovens acabam se perdendo e eu me perdi nessa ilusão do tráfico”, disse.
Alex foi preso algumas vezes. A última delas aconteceu no Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, quando retornava de uma viagem à Bahia para conhecer o pai biológico, com quem nunca havia tido contato até então.
“Foi tipo um filme de cinema ali no Galeão”, relembrou.
Ele passou quase cinco anos preso no Complexo de Bangu e afirma que o período foi decisivo para mudar de vida.
"Comecei a produzir conteúdo muito influenciado por outros influenciadores. Acho que a gente tem essa tendência de ver algo maneiro e tentar reproduzir para mostrar o nosso jeito, a nossa rotina, o nosso dia a dia.
No início, eu fazia muitas receitas, porque gosto de cozinhar. Meus primeiros conteúdos para a internet eram receitas fitness, musculação e treino, até a corrida entrar na minha vida.
Quando a corrida entrou, comecei a mesclar os conteúdos e foi muito bem aceito pelo público. Até hoje continuo produzindo. É muito bacana poder mostrar minha rotina e, de alguma forma, incentivar outras pessoas a terem uma vida mais saudável e praticarem esportes.
Quando tenho uma corrida marcada, já começo a pensar antes no conteúdo. Faço uma espécie de checklist: entrevistar alguém, encontrar alguma história de superação no meio da corrida e tentar abordar isso. Mas eu não forço muito. É algo natural: pegar o telefone e filmar o que estou fazendo de forma espontânea."
Alex Lopes
Arquivo pessoal
Como você cresceu nas redes sociais?
"Eu viralizei depois de um vídeo que eu tinha de quando eu fui preso e passei em várias emissoras. Eu peguei um pedaço desse vídeo noticiando minha prisão e mesclei, fiz um antes e depois de como a minha vida mudou, como o esporte mudou, como o meu estilo de vida mudou. E, cara, foi surreal! Eu não esperava. Foi algo despretensioso que deu um 'boom'.
Muitos seguidores no mesmo dia, mais de 25 mil curtidas num dia. Eu não estava acostumado com isso, mas sempre foi o meu sonho, claro, de poder ter um conteúdo legal, de poder mostrar para as pessoas de alguma forma, foi muito bacana. E no decorrer desse eu fiz outros também. Eu usava a tornozeleira eletrônica e eu procurei abordar isso de uma forma que eu mostrasse que eu não poderia me excluir de fazer o que eu gostava por causa da tornozeleira, embora isso me trouxesse muito constrangimento em alguns momentos.
As pessoas olham com medo, as pessoas falam. E eu falei que ia parar de treinar, de malhar, por causa da tornozeleira, e um amigo falou que a minha vida tinha que seguir, continuar.
E aí eu fiz um conteúdo de corrida com uma parte do aplicativo que marca o tempo e velocidade e muitas pessoas fazem o cálculo saindo da geladeira ou comendo um alimento e eu falei ‘mano, vou usar a tornozeleira e fazer do limão uma limonada’. Deu muito certo e viralizou de uma forma incrível e foi tipo um grito de ‘cara, não é porque eu estou nessa situação que vou me excluir’."
Como você começou na corrida?
"Eu comecei com um amigo meu aqui da comunidade que corria, ele que me convidou para correr e eu peguei o gosto. Então eu fui influenciado por ele. A partir do momento que a gente monta um projeto voltado para o social, que o nosso projeto é isso, o Corre dos Crias foi fundado para isso, para inclusão social. Muita gente não corre porque não tem companhia, muita gente não corre porque não tem um local. E aqui nós temos isso, nós temos companhia e temos um local propício para isso. É um local aberto, público. É bem legal esse movimento e para mim é muito gratificante fazer parte dele."
Alex Lopes e o Corre dos Crias
Arquivo pessoal
Como foi a sua prisão?
"Eu não conheci o meu pai, vim conhecer justamente quando teve aquela notícia de que fui preso. Eu fui conhecer o meu pai quando eu tinha 28 anos. Então, eu me envolvi com o crime muito mais por influência, porque a minha família sempre foi uma família honesta, trabalhadora.
Minha mãe sempre trabalhou, a minha avó, meus tios sempre foram pessoas dignas e, cara, para a gente que mora em comunidade e às vezes com a mentalidade um pouco mais fraca, deixa se levar, deixa seduzir. Isso aconteceu comigo e é o que acontece com muitas outras pessoas. Muitos outros jovens acabam se perdendo e eu me perdi nessa ilusão do tráfico e fiquei por muitos anos.
Fui preso algumas vezes e nessa última vez que fui preso, eu estava na casa do meu pai, fui conhecer meu pai, que eu não conhecia. Conheci ele através do Instagram, ele mandou as passagens, eu fui para lá. Quando eu retornei, eu não sabia, nem imaginava que estava grampeado. Foi tipo um filme de cinema ali no Galeão.
Cheguei no Galeão, desci quando pensei que não já estava sendo abordado e foi um divisor de águas para mim, porque nessa última cadeia que tirei fiquei quase cinco anos no Bangu 3 e ali me fez pensar muito, não só no meu sofrimento, como no sofrimento da minha família. Chega um momento da nossa vida que a gente tem que amadurecer e eu acho que aquele tempo recluso me fez pensar não só em mim, mas no sofrimento das pessoas que vivem, que viviam comigo.
E acho que o que me motivou a largar tudo isso foi, sim, a minha família e a minha força de vontade de querer viver. A vida é tão boa que a gente está vivendo. Se eu não tivesse tido essa virada de chave, eu não estaria aqui conversando com vocês.
E foi a melhor decisão que tomei na minha vida, porque através dela eu modifiquei a minha e estou tentando ajudar a modificar de muitas outras pessoas, porque a minha história se repete em muitas outras comunidades.
Há muitos Alex por aí espalhados, perdidos, que às vezes só precisam de alguém para instruir, para mostrar aquele caminho. Então eu estou aí para isso, para tentar conscientizar, eu creio que influencio porque é um trabalho bem legal do que eu faço, que o esporte me proporcionou a fazer.
Então, quanto mais pessoas puderem mostrar sua rotina, estarem incentivando, não só mexendo com o esporte, mas com outros tipos de conteúdos que vão agregar para a gente, para nossas crianças e adolescentes, eu sou muito a favor e cara, se não fosse isso, acho que seria um pouco mais difícil de chegar as informações."
Alex Lopes e o Corre dos Crias
Arquivo pessoal
Hoje você trabalha com o quê?
"Eu vivo do meu trabalho informal. Eu sou motoboy, faço no decorrer do dia. Eu sou técnico em administração, formado para trabalhar em algumas outras empresas. Mas eu vou te contar aqui uma história bem rápida. Eu trabalhava em uma multinacional de petróleo e gás, sendo que nesse meio tempo eu estava trabalhando lá e a Justiça me estipulou que eu tinha que usar tornozeleira. Eu tive que colocar a tornozeleira numa época tipo Natal e Ano Novo.
Tirei uma selfie, apareceu a tornozeleira, alguém viu, levou para o gerente da empresa e aí me desligaram. Foi um momento bem difícil, mas hoje em dia eu consigo viver assim, com um trabalho informal, sou mototáxi e estou na luta procurando emprego também. Eu entendo que poxa, eu tenho família, então um trabalho de carteira assinada, CLT, é bem mais favorável pra mim do que viver com motoboy informalmente, se eu me acidentar, não vou ter direito nenhum."
Você pretende deixar de morar na favela?
"Cara, deixar de morar na favela acho que é o sonho de qualquer um, até pela estrutura para a minha família. Se eu tiver uma condição melhor, óbvio que eu vou querer ter uma casa legal, um lugar melhor, uma condição melhor, mais segurança. E eu tenho sim esse sonho de poder um dia sair daqui, de ir morar em um outro lugar melhor, com mais espaço para a minha família, um lugar mais amplo. Esse é o meu sonho."
Você ficou conhecido na comunidade pelo seu trabalho nas redes sociais?
Alex Lopes
Arquivo pessoal
"Hoje em dia aqui na comunidade sou reconhecido pelo corre, pela musculação. Então quando as crianças me veem, os moleques já falam ‘olha o cara do Corre dos Crias e tal’, até as pessoas me abordam também hoje em dia pra falar sobre corrida, pedir para montar um treino, uma série.
Como isso se modificou, né? Antigamente eles tinham medo e hoje em dia eles têm total acesso a mim pra poder falar qualquer tipo de coisa. E é bem bacana, bem legal essa troca."
Que mensagem você deixaria para jovens da comunidade?
"Eu queria dizer para os jovens das favelas que tem um caminho a seguir corretamente. Estudem e foquem em vocês. Procurem absorver as coisas mais positivas da vida, porque muitas ilusões têm um preço muito caro a se pagar enquanto você está vivo. Beleza, mas e aí você perde a vida, né? Então o sofrimento fica para a família e a tua história acaba. E muitas das vezes a pessoa não chegou nem a semear nada.
Então o recado que eu tenho a dar para os jovens é que estudem, foquem em vocês, cresçam mentalmente, procurem ajudar as pessoas, se ajudarem também. A gente entende que tem muitos caminhos fáceis, mas aquele atalho que você pega pode te levar ao teu declínio, pode te levar a morte.
Então estudem, se valorizem, procurem absorver o que o pai e a mãe de vocês dizem. A mãe nunca quer o mal para o filho. Eu teria que ter escutado muito mais a minha mãe. Se eu tivesse escutado ela, certamente eu teria me privado de passar por muitas coisas. Então é muito importante vocês estudarem, focarem em vocês e se possível, mais na frente poder ter o seu próprio negócio, ser independente."





