Conheça projeto que promove encontros em cafés para falar sobre a morte de forma aberta
Em meio a silêncio, medo e tabu, falar sobre a morte ainda é evitado por muitas pessoas. Em uma mesa de café, entre xícaras e reflexões profundas, o tema que provoca desconforto em grande parte da sociedade começa a ser discutido de forma mais aberta.
Em Porto Alegre, o projeto internacional Death Café reúne pessoas em encontros informais para conversar justamente sobre a finitude.
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A proposta de colocar o assunto em pauta surge como uma tentativa de transformar essa relação, estimulando conversas baseadas na escuta e na troca de experiências. A discussão também abre espaço para reflexões sobre como se vive.
"A gente ressignifica como vai usar o nosso tempo. A gente toma consciência da finitude para viver de forma mais presente na nossa vida, que é a finita", resume a psicóloga Natalia Frizzo.
Death Café
O projeto nasceu nos Estados Unidos, no início dos anos 2000, quando um grupo de pessoas percebeu que não existiam espaços acessíveis para falar sobre finitude. A ideia era criar encontros informais para discutir a morte.
A proposta se espalhou pelo mundo e virou uma espécie de "franquia social", com a missão de estar presente em diversas cidades e culturas.
"O Death Café tem como proposta andar pelo mundo e todas as cidades terem seu próprio Death Café, justamente para desmistificar a morte e aproveitar mais a vida, que este é o objetivo do projeto", explica a fisioterapeuta Cristiane Moro.
Na capital gaúcha, a iniciativa chegou em 2017, trazida pela fisioterapeuta Cristiane e pela psicóloga Natalia. Desde então, o projeto não parou de crescer.
Hoje, o Brasil já conta com mais de 28 grupos do tipo, sendo o de Porto Alegre um dos pioneiros. No Rio Grande do Sul, a expansão continua, com novos núcleos surgindo no interior.
Fisioterapeuta Cristiane Moro e a psicóloga Natalia Frizzo, responsáveis pelo Death Café em Porto Alegre
g1
Como funciona o Death Café
Apesar do nome instigante, a proposta é justamente o oposto do que muitos imaginam. Não se trata de um espaço mórbido. Os encontros acontecem uma vez por mês em cafés variados da cidade e seguem um formato simples: pessoas sentam em roda e conversam livremente.
Não há palestras nem temas definidos previamente. Cada participante traz suas experiências e questões.
"É um lugar de partilha, é um acolhimento seguro para as pessoas partilharem as suas vivências pessoais, experiências sobre o tema, anseios, dificuldades, onde a gente perpassa o tema da finitude", aponta Natalia.
O Death Café também tem uma regra que deve ser cumprida: a ausência de julgamento. Essa liberdade, segundo as idealizadoras, é o que permite que as pessoas se expressem de forma genuína.
"Não existe uma visão correta, uma visão errada, uma espiritualidade correta, uma espiritualidade errada, uma maneira, um desejo de final de vida correto ou errado, porque a morte é muito individual", explica a fisioterapeuta Cristiane.
Os dias e horários dos encontros são divulgados nas redes sociais do Death Café Porto Alegre. O próximo está previsto para acontecer no sábado (30).
Por que falar sobre a morte?
Segundo as especialistas, a morte ainda é um assunto evitado, principalmente na cultura brasileira.
"O que [falar sobre a morte] proporciona? Que a gente consiga desconstruir um pouco, sensibilizar as pessoas, acolher tudo isso, porque, na verdade, o silêncio isola. A gente tem uma falsa ilusão de que ele protege", afirma Natalia.
A ideia central do Death Café pode parecer paradoxal: discutir a morte para valorizar a vida. Mas é esse o objetivo.
A proposta não é encontrar respostas definitivas, mas abrir perguntas. O convite é para parar por algumas horas para pensar no inevitável.
Para a fisioterapeuta Cristiane, a morte não é um evento distante, mas uma companhia constante:
"A vida e a morte estão juntas, de mãos dadas, o tempo inteiro", comenta.
Curiosidade e acolhimento
O público dos encontros é diverso. Há desde pessoas que chegam por curiosidade até profissionais da saúde que buscam um espaço para elaborar experiências com pacientes e perdas.
"Por mais que pensemos que a morte possa fazer parte das formações, das áreas de cuidado, não é uma realidade. Então, onde eu coloco aquelas mortes que eu participo? Onde coloco esses meus anseios também ao longo do meu percurso laboral?", conclui a fisioterapeuta.
Projeto Death Café, em Porto Alegre
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