Evento com jumento inflável gigante em Salvador oferece apresentações com repentistas e conscientiza sobre o abate do animal
Agência Pauta Social
Pesquisadores brasileiros e internacionais voltaram a alertar para os impactos do abate de jumentos no Brasil e declararam estado de emergência para o jumento nordestino diante do risco iminente de extinção da espécie. Além da redução drástica da população dos animais, especialistas também apontaram riscos sanitários relacionados ao comércio internacional das peles, incluindo possibilidade de disseminação de zoonoses e contaminação por metais pesados.
Os alertas fazem parte da chamada “Declaração de Salvador”, documento oficializado ao fim do IV Workshop Internacional Jumentos do Brasil: Futuro Sustentável, realizado neste mês, na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), em Salvador, entre os dias 6 e 9 de maio.
Em abril deste ano, a Justiça Federal apontou que há maus-tratos no processo de criação dos animais, falhas sanitárias nos abatedouros e o risco de extinção da espécie. Por isso, a prática foi proibida na Bahia.
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Segundo os pesquisadores, a ausência de rastreabilidade dos animais abatidos e as fragilidades nos controles sanitários representam ameaça à saúde pública no Brasil e também nos países que importam as peles dos jumentos, destinadas principalmente à produção de ejiao, produto utilizado na medicina tradicional chinesa.
Mobilização pede fim do abate de jumentos
O documento foi elaborado por especialistas de instituições como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal da Bahia (Ufba), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
De acordo com os pesquisadores, dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do sistema Agrostat mostram que o Brasil perdeu 94% da população de jumentos entre 1996 e 2025. Na prática, de cada 100 animais existentes nos anos 1990, apenas seis permanecem atualmente.
Os especialistas atribuem a redução principalmente ao abate para exportação das peles à China, que as utiliza para produzir "eijiao" — uma substância feita a partir do colágeno extraído de carcaças e muito comum na medicina tradicional do país.
Além da preocupação com a extinção da espécie, os pesquisadores afirmam que há evidências de riscos químicos associados ao consumo de produtos derivados dos animais.
Segundo o médico veterinário e doutor em Saúde Coletiva pela Ufba, José Roberto Lima, estudos científicos já identificaram a presença de metais pesados em tecidos e produtos derivados de equídeos expostos a ambientes contaminados.
“Peles e músculos de equídeos apresentam evidências de altas concentrações de metais pesados, o que reforça a possibilidade desse risco químico para quem consome carne de jumentos e ejiao produzido com peles de animais abatidos na Bahia, sem qualquer informação de origem. Ou seja, são animais com grande probabilidade de bioacumular contaminação ambiental”, afirmou.
Os pesquisadores também destacaram que o modelo econômico baseado no comércio de peles é considerado insustentável, já que as características biológicas dos jumentos são incompatíveis com sistemas intensivos de produção.
A “Declaração de Salvador” ainda cita problemas como maus-tratos, riscos sanitários, trabalho infantil, condições análogas à escravidão ligadas ao abate extrativista e o aumento de crimes ambientais relacionados ao comércio global de peles.
O documento também menciona a decisão tomada pela União Africana, formada por 55 países, que aprovou uma moratória continental contra o abate de jumentos.
Durante o evento, os especialistas manifestaram apoio à decisão da juíza federal Arali Maciel Duarte, da 1ª Vara Federal de Salvador, que determinou, em abril deste ano, a proibição do abate de jumentos na Bahia, além da interrupção da captura, transporte e comercialização de animais destinados a essa finalidade.
Entre as recomendações da declaração estão a manutenção definitiva da proibição do abate de jumentos no Brasil, a criação de políticas públicas voltadas à conservação do jumento nordestino e o incentivo a soluções biotecnológicas sustentáveis como alternativa ao uso das peles dos animais.
Para a PhD em Ciências pela USP e coordenadora de campanhas da organização The Donkey Sanctuary nas Américas, Patricia Tatemoto, a preservação do jumento nordestino é estratégica para o país.
“A proteção do jumento nordestino é estratégica para garantir a biodiversidade, fortalecer a Saúde Única, preservar o patrimônio genético nacional e proteger a integridade socioambiental brasileira”, disse.
Uma ação com um jumento inflável de três metros, realizada no Pelourinho, em Salvador, promoveu, no início do mês de maio, apresentações gratuitas e protestou contra o abate desses animais no Brasil.





