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Empreender aos 50+: como experiência de vida ajuda a superar desafios nos pequenos negócios

Empreender aos 50+: como experiência de vida ajuda a superar desafios nos negócios
Em uma padaria da Avenida T-9, em Goiânia, um senhor grisalho acompanha atentamente a movimentação e a execução dos serviços por alguns dos seus colaboradores. É Antônio Alves de Deus, que aos 64 anos viu o sonho de empreender no ramo de alimentos se tornar realidade e hoje é um exemplo de que nunca é tarde para abrir o próprio negócio, com planejamento e dedicação.

O planejamento não foi à toa. Atuando há mais de 25 anos no segmento de mármore e granito, o goiano sempre teve consciência de que era preciso estudar a fundo antes de entrar em um setor completamente diferente.

"Foi um trabalho de oito anos, de muita dedicação, de estudo de projeto, de marca, de identidade. Um trabalho árduo para que isso acontecesse do nível que está acontecendo", contou.
A dedicação à qual Antônio se refere incluiu até a participação na Feira Internacional de Panificação, Confeitaria e Varejo Independente de Alimentos (Fipan), em São Paulo, considerada a maior do setor no país. Bruno Figueiredo de Souza, um dos três sócios de Antônio na padaria, relembra aquele momento, em 2018, quando a ideia ainda estava em sua fase embrionária.
"O Antônio sempre teve esse sonho de montar alguma coisa na área de alimentação. E, há oito anos, ele falou: 'Bruno, vamos lá em São Paulo, vamos começar a analisar, vamos ver, né, começar a estudar o mercado'", relatou.
Referência à Cora Coralina
O nome, Coralí, foi um dos cinco sugeridos por uma empresa especializada em criação de marca. Refere-se à poetisa goiana Cora Coralina, que, coincidentemente ou não, também foi uma empreendedora no ramo de alimentos, uma exímia doceira na cidade de Goiás.
"A gente optou por essa (marca) justamente para trazer uma imagem que dificilmente vai ser apagada em Goiás, que é a de Cora Coralina", disse Antônio, destacando que o registro da marca foi feito obedecendo toda a legislação de propriedade industrial.
Thaís, do Sebrae, explica que a atitude de Antônio, de planejamento e atenção aos detalhes, é uma das mais importantes na criação de um negócio. Segundo a especialista, nem todo empreendedor terá tanto tempo para se preparar, mas é preciso se capacitar, de preferência contando com auxílio profissional, para mapear os desafios que serão enfrentados, entre eles:
demanda pelo produto ou serviço;
estrutura financeira;
análise da concorrência.
"É necessário um planejamento dentro da expectativa e das possibilidades desse empreendedor para ele saber: 'olha, dando tudo certo ou dando um pouco errado, é esse o resultado que eu vou ter aqui no próximo um ano, nos próximos seis meses"", afirmou.

O tempo
Na empreitada de Antônio, o fator tempo assume múltiplos sentidos. Se, por um lado, ele pôde recorrer a quase uma década de planejamento e estudos para colocar o projeto de pé, hoje o sexagenário gerencia os trabalhos na padaria a um ritmo que chama a atenção: acorda às 4h30, chega às 5h e só deixa o local por volta das 21h. De domingo a domingo.

"Está sendo um desafio montar um time que vai me transmitir confiança. Esse talvez seja o trabalho, a coisa mais difícil que eu estou encontrando. Fazer meu time produzir sem eu estar aqui", destacou.
Antônio Alves de Deus é um exemplo de empreendedor da chamada 'economia prateada', formada por pessoas que abrem o próprio negócio após os 50 anos
Fábio Lima/O Popular
Para fazer o time de cerca de 90 colaboradores dar certo também entram em campo os dois filhos de Antônio: Vagner Alves da Silva, de 43 anos, e Valéria Alves da Silva, de 40. Ambos são servidores públicos e ajudam o pai da forma como podem, como explica o primogênito:
"Como o negócio é muito grande, dentro da logística tem muito serviço. Então, a minha irmã está inicialmente auxiliando na parte de RH. E eu brinco que estou jogando em todas as posições. A gente tenta abraçar tudo o que precisa", descreveu Vagner.
Com produtos que incluem itens de minimercado, cafeteria, um variado buffet de café da manhã e também de almoço, além de cestas de coffee break, a padaria envolve atividades que vão muito além de servir aos clientes no salão, como:
recursos humanos;
administrativa;
contábil;
logística.
Nesse contexto, o gerenciamento de múltiplas áreas em um único negócio impõe um cenário desafiador para o empreendedor. Nele, porém, a experiência de vida dos 50+ se torna uma grande vantagem, segundo a especialista do Sebrae Goiás.
"É a capacidade de pensar estrategicamente e ver o todo. Não focar somente em um ponto. Tentar imaginar como que tudo está encadeado com outras áreas. Essa visão estratégica desse empreendedor também é diferente", explicou Thaís.

Ainda no contexto do tempo, a especialista chama a atenção para a quebra de barreiras que empreendedores como Antônio promovem, entre elas o equívoco de que a criação ou a inovação são conceitos próprios da juventude.
"Um ponto que a gente observa, infelizmente, é o etarismo, do tipo 'não. Já deu. Você já cansou, você está aposentado, agora vai dormir, vai assistir a streamming". Mas essas pessoas ainda querem muito contribuir (para a economia)", avalia.
Mortalidade quase zero
Empreender não só em Goiás, mas no Brasil como um todo, não é uma tarefa fácil. Na entrevista ao g1, Antônio atribuiu esse cenário principalmente à carga tributária. "Talvez o principal desafio de empreender no país, que faz muita gente desanimar, é a carga tributária muito excessiva", desabafou, acrescentando que, somando-se todos os impostos e encargos, essa despesa se aproxima dos 18% do seu faturamento.
O descompasso entre as receitas e as despesas de qualquer negócio está entre os principais fatores de mortalidade das empresas nos primeiros anos de vida. Segundo Thaís, de 20% a 25% das empresas fecham suas portas até completar dois anos de existência. "Esse é considerado o período mais crítico, onde a falta de capital de giro e o planejamento deficitário mais pesam", explicou.
Por outro lado, embora não esteja imune aos riscos de um fechamento precoce, o grupo dos empreendedores acima de 50 anos apresenta uma taxa completamente inversa: cerca de 90% desses negócios superam os dois primeiros anos de vida.
Em Goiás, o cenário é ainda mais positivo. De acordo com um levantamento do Sebrae Goiás, a partir de dados da Receita Federal, entre 2020 e 2025 não houve baixa de nenhuma empresa desse grupo. "O que demonstra que a taxa de mortalidade desse grupo é zero no período de 5 anos" afirmou a entidade.
Antônio ao lado do filho Vagner (à esq.) e de Bruno, um dos sócios: parcerias para colocar o sonho da padaria de pé
Rafaella Barros/ g1
Atenção às finanças
De acordo com a especialista do Sebrae, uma das principais causas para o fechamento das empresas é a ausência ou a insuficiência de um capital de giro que viabilize o fluxo de caixa. Por mais que o empreendedor se prepare e tenha uma boa reserva, os recursos investidos nos negócios pode não ter resultados no tempo esperado.
No atual cenário do país, em que a taxa básica de juros da economia, a Selic, está em 14,5% ao ano, o esgotamento de recursos pode levar o pequeno empresário a recorrer a créditos muito caros, que comprometam a saúde financeira do negócio.
🔍 Definido pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, a Selic é a taxa que serve de referência para as taxas de juros de todos os financiamentos no país. Sua definição varia de acordo com diversas variáveis econômicas. Com a Selic alta, quem pega empréstimo com uma instituição financeira, paga mais juros.
"A falta de capital de giro é uma causa muito recorrente para o fechamento das empresas dentro de três anos. O coração é o financeiro", disse Thaís.

Sobre esse aspecto, Antônio buscou se resguardar ao máximo, firmando parcerias com outros três sócios. Embora não revele o montante dos investimentos, uma parte deles veio de empréstimos. Tudo, porém, devidamente calculado pelo empresário, que também tem formação técnica em contabilidade.
"Tem que ter uma, vamos falar assim, uma previsão do montante que o investimento vai precisar. Começar um negócio sem ter nada, com as taxas de juros muito alta, é inviável", afirmou.
Outro sonho
Ao refletir sobre a sua trajetória e a decisão de abrir um negócio próprio, o empresário reconhece que, hoje, possui a cabeça mais equilibrada do que quando era jovem, o que lhe permitiu ter mais segurança e serenidade ao abrir a empresa. Ele acredita que, vencidos os momentos iniciais de dificuldades, como alinhamento com a mão de obra, a panificadora "tem tudo para deslanchar".
"Eu acho que se eu tivesse 30 anos de idade não teria enfrentado um desafio tão grande quanto esse", disse.
Thaís endossa essa avaliação, dizendo que as pessoas com mais de 50 anos costumam ter maturidade emocional, uma característica extremamente necessária diante da imprevisibilidade do desempenho de uma empresa.
"Esses empreendedores lidam de outra forma ao enfrentarem as adversidades ao empreender. Quando começam as dificuldades, eles observam isso com menos ansiedade, por exemplo", afirmou.
Ansiedade, aliás, é o oposto do Antônio planeja para a sua vida, para daqui a cerca de um ano. Esse é o prazo que ele se deu para deixar toda a equipe e a panificadora alinhadas, para, então, realizar outro desejo.

"Eu tenho um sonho de morar numa chácara e estar vindo aqui um ou dois dias na semana", explica.

Para Thaís, a estratégia do empreendedor está correta, alinhada ao que as capacitações do Sebrae ensinam, por exemplo, da necessidade de cuidar também da vida pessoal. "Dedicar-se, durante um tempo, sete dias por semana é uma ação muito importante. Mas é necessário que, para a sustentabilidade do próprio negócio, esse empreendedor cada vez mais consiga equilibrar a sua vida pessoal, familiar e os seus momentos de lazer", concluiu.
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