Capela 'São Benedito de Santos Pretos' preserva tradição ligada à escrava Anastácia no Sul
Em meio às ruas de Lavras (MG), a Capela São Benedito de Santos Pretos se tornou, ao longo dos anos, mais do que um espaço religioso. Localizada dentro do quilombo urbano São Benedito, a capela reúne histórias de fé, tradição, acolhimento e preservação cultural mantidas pela própria comunidade.
📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram
O espaço ganhou destaque nesta semana durante a visitação especial realizada em homenagem ao dia 13 de maio, data marcada pela assinatura da Lei Áurea e também pela devoção popular à escrava Anastácia, figura considerada símbolo de resistência e proteção por muitos frequentadores da capela.
A história da Capela São Benedito de Santos Pretos começou a partir da união de lideranças religiosas, culturais e moradores do quilombo urbano São Benedito.
Lavagem do Cruzeiro durante as celebrações do Mês da Consciência Negra em Lavras (MG)
Acervo Pessoal
O espaço integra a Associação Sociocultural Castelo de São Jorge, iniciativa criada para preservar manifestações culturais, religiosas e saberes populares ligados às tradições afro-brasileiras presentes na comunidade.
Participaram da criação do projeto nomes como o mestre de capoeira Emerson Ferreira, Pai Thallyson Fideles Grego, Rafael do Maracatu, Pai Vítor Pereira da Silva e Mãe Maria Aparecida Pereira de Andrade. Com o tempo, a capela passou a funcionar não apenas como local de celebrações religiosas, mas também como ponto de convivência e fortalecimento comunitário. Segundo os responsáveis pelo espaço, um dos principais objetivos da capela é acolher pessoas em situação de vulnerabilidade e manter viva a ideia de apoio coletivo dentro da comunidade.
“A capela também tem o propósito de acolher os irmãos desamparados, oferecendo um espaço de escuta, fé e apoio para quem precisa”, explicou Pai Tales de Ogum, responsável pelo local.
Congada realizada em homenagem a São Lázaro em Lavras (MG)
Acervo Pessoal
Devoção à escrava Anastácia atravessa gerações Entre as imagens presentes na capela, a da escrava Anastácia ocupa lugar central. Apesar de não ser canonizada pela Igreja Católica, ela é venerada na religiosidade popular e também em religiões de matriz africana, como a Umbanda Nagô.
Para os frequentadores da capela, Anastácia representa resistência, proteção e esperança. “A escrava Anastácia é a rainha do quilombo. Essa devoção vem dos nossos avós e dos nossos antepassados”, afirmou Pai Tales. Segundo ele, a figura simboliza a força diante das dificuldades enfrentadas historicamente pelas comunidades tradicionais. “A importância dela está justamente nessa resistência. Hoje ela representa liberdade e proteção para muitas pessoas”, disse.
Celebração cultural do Novembro Negro em Lavras (MG)
Acervo Pessoal
Espaço se tornou ponto de acolhimento para frequentadores Moradora do bairro Judith Cândido de Andrade, na região da Cohab, Lucineia da Silva Balbino frequenta a capela há cerca de quatro anos. Trabalhadora de serviços gerais em um condomínio, ela conta que encontrou no local apoio em um dos momentos mais difíceis da vida.
“A capela pra mim é minha segunda casa, onde eu me sinto acolhida, onde eu me sinto muito bem, onde faço meus pedidos. Foi onde eu fui recebida após a morte do meu filho, onde busco forças”, relatou.
Segundo Lucineia, a devoção à escrava Anastácia também representa força para enfrentar as dificuldades do dia a dia. “A escrava Anastácia é símbolo de luta pra nossa comunidade e força pra continuar nossas lutas diárias”, afirmou. Ela destaca que manter as tradições da capela ainda é um desafio diante do preconceito enfrentado pelas religiões de matriz africana. “Manter a tradição é uma luta diária, porque ainda temos muito preconceito com a cultura afrodescendente. Mas, com fé em Deus, temos conseguido”, disse.
Lucineia também afirma que faz questão de transmitir os ensinamentos e valores aprendidos no espaço para a família.
Lucineia da Silva Balbino encontrou na fé forças para seguir em frente após a perda do filho
Acervo Pessoal
“Tenho um neto de cinco anos e já ensino pra ele sobre essa cultura. Acho que todos os jovens deveriam conhecer o local, pra ver como é um ambiente de paz”, contou.
Para ela, o aumento da visitação à capela mostra que mais pessoas têm buscado conhecer e respeitar as tradições mantidas pela comunidade. “Fico muito feliz com as pessoas visitando a capela, porque isso mostra que as pessoas já têm mais conhecimento sobre as religiões daqui”, afirmou. Tradições e saberes populares seguem preservados Além das celebrações religiosas, a capela também abriga atividades culturais e ações voltadas à preservação dos saberes tradicionais da comunidade.
No local são realizadas oficinas de artesanato, encontros culturais, atividades ligadas à culinária típica e rodas de conversa sobre memória e ancestralidade. Capela em quilombo urbano de Lavras celebra história de escravizada
“A gente preserva os saberes dos mais velhos e tenta manter essa tradição viva todos os dias”, explicou Pai Tales. A comunidade também mantém viva a tradição dos reinados, das manifestações culturais afro-brasileiras e das práticas populares transmitidas entre gerações.
Memória preservada dentro do quilombo urbano Mesmo passando por reformas, o espaço segue aberto para atividades religiosas e culturais promovidas pela Associação Sociocultural Castelo de São Jorge.
Mais do que um templo religioso, a Capela São Benedito de Santos Pretos se consolidou como um espaço de preservação da memória, valorização das tradições populares e fortalecimento dos laços comunitários dentro do quilombo urbano São Benedito, em Lavras.
“Aqui a gente não preserva só uma capela. A gente preserva a história dos nossos antepassados e mantém viva uma herança que passa de geração em geração”, disse Pai Tales de Ogum.





