MC Ryan SP Divulgação
A Justiça Federal concedeu habeas corpus e determinou a soltura do funkeiro MC Ryan SP, preso preventivamente desde abril na investigação da Operação Narco Fluxo, que apura um suposto esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado a bets ilegais, rifas clandestinas e tráfico internacional de drogas.
A decisão também beneficia Diogo Santos de Almeida e impõe medidas cautelares, como a proibição de deixar o país sem autorização judicial e a entrega do passaporte (leia mais abaixo).
A decisão foi assinada nesta quarta-feira (13) pela desembargadora Louise Filgueiras, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3). A magistrada estendeu a MC Ryan SP os efeitos de outro habeas corpus já concedido pela 5ª Turma da corte a Henrique "Rato", investigado no mesmo processo.
Segundo a investigação da Polícia Federal, o grupo é suspeito de movimentar mais de R$ 1,6 bilhão por meio de empresas de fachada, contas de passagem, criptomoedas e remessas ao exterior. O inquérito aponta ainda suposta ligação com exploração de apostas ilegais, rifas clandestinas e lavagem de dinheiro oriundo do tráfico internacional de drogas.
No despacho, a desembargadora afirmou que a prisão preventiva não pode ser mantida sem que haja elementos suficientes sequer para o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público Federal. A magistrada destacou que, até o momento, nenhum dos investigados foi formalmente denunciado e que a PF pediu mais 90 dias para concluir diligências e perícias.
“É incongruente entender que não há provas para a formação da opinio delicti e manter a prisão preventiva”, escreveu a magistrada ao citar voto anterior da 5ª Turma do TRF-3.
A decisão também afirma que a prisão cautelar não pode ser usada como instrumento para facilitar investigações e que não havia demonstração concreta de que MC Ryan SP pudesse interferir na produção de provas. Segundo o documento, os equipamentos eletrônicos e materiais necessários para a apuração já haviam sido apreendidos pela Polícia Federal.
Os desembargadores ainda apontaram excesso de prazo na investigação. O entendimento foi o de que, mesmo considerando a complexidade do caso, os prazos previstos no Código de Processo Penal para conclusão do inquérito e oferecimento de denúncia não estavam sendo respeitados.
Apesar da soltura, MC Ryan SP terá de cumprir medidas cautelares impostas pela Justiça. Entre elas estão:
Comparecer a todos os atos do processo;
Informar eventual mudança de endereço;
Comparecer mensalmente em juízo;
Não deixar a cidade onde mora por mais de cinco dias sem autorização judicial;
Não sair do país sem autorização da Justiça e entregar o passaporte, caso possua.
'Narco Fluxo'
A Operação Narco Fluxo foi deflagrada pela Polícia Federal em abril deste ano. Na ocasião, a Justiça Federal aceitou o pedido da PF e decretou a prisão preventiva de MC Ryan SP, do funkeiro MC Poze do Rodo, do empresário Raphael Sousa Oliveira — apontado como criador da página Choquei — e de outros investigados.
Segundo a PF, o esquema funcionaria por meio da movimentação de recursos ligados a apostas ilegais, rifas digitais e lavagem de capitais. As investigações apontam o uso de empresas de fachada, “laranjas”, operações com criptoativos e remessas internacionais para ocultar a origem do dinheiro.
No documento judicial, MC Ryan SP é apontado pela Polícia Federal como “beneficiário final” da estrutura investigada. A PF afirma que empresas ligadas ao setor musical e de entretenimento teriam sido usadas para misturar receitas lícitas com recursos provenientes de apostas ilegais e rifas digitais.
A investigação também cita outros nomes apontados como integrantes da estrutura financeira do grupo, entre eles Tiago de Oliveira, Alexandre Paula de Sousa Santos, Rodrigo de Paula Morgado e Henrique Alexandre Barros Viana.
Justiça mantém prisão de funkeiros e influenciadores
A operação
A 5ª Vara da Justiça Federal em Santos, no estado de São Paulo, aceitou em 23 de abril o pedido da Polícia Federal e decretou a prisão preventiva do MC Ryan SP, MC Poze do Rodo, Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei e de outros investigados por envolvimento em um esquema bilionário de lavagem de dinheiro.
O pedido foi feito após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) conceder habeas corpus. Com o avanço das investigações e a análise de provas apreendidas, a PF avaliou que há elementos suficientes para a conversão das prisões temporárias em preventivas.
Após a decisão judicial, a esposa de MC Ryan SP, Giovana Roque, foi vista deixando o Centro de Detenção Provisória de Belém, na Zona Leste de São Paulo, aos prantos. O cantor segue detido no local.
🔍A prisão temporária é usada no começo das investigações, quando a polícia ainda está reunindo provas. Ela tem prazo definido, geralmente de 5 ou 30 dias, e pode ser prorrogada em alguns casos. Já a preventiva não tem um prazo fixo. Ela é determinada por um juiz quando há risco, por exemplo, de a pessoa atrapalhar as investigações, fugir ou continuar cometendo crimes.
Os alvos tinham sido presos temporariamente no último dia 15 em uma operação da Polícia Federal. Segundo a investigação, o grupo é suspeito de movimentar mais de R$ 1,6 bilhão por meio de bets ilegais, rifas clandestinas, tráfico internacional de drogas, uso de empresas de fachada, “laranjas”, criptomoedas e remessas ao exterior.
A esposa do MC Ryan SP, Giovana Roque, sai aos prantos após saber que seu marido Mc Ryan continuará preso
Edu Araujo/Agnews
No habeas corpus, o ministro Messod Azulay Neto, relator do caso no STJ, considerou ilegal o decreto de prisão temporária por 30 dias. Segundo ele, a própria Polícia Federal havia solicitado prazo de apenas cinco dias, período que já havia se encerrado.
Contudo, segundo a PF, a prisão preventiva é necessária para garantir a ordem pública diante da gravidade do caso e do volume de recursos envolvidos.
A PF também apontou risco de continuidade das atividades criminosas, além da possibilidade de interferência nas investigações, com destruição de provas ou alinhamento de versões entre os investigados.
Com a decisão judicial, 36 investigados tiveram suas prisões temporárias convertidas em prisões preventivas e 3 em prisões domiciliares. São eles: Rodrigo de Paula Morgado: prisão preventiva. Apontado como contador e operador-chave;
Ryan Santana dos Santos: prisão preventiva. Conhecido como MC Ryan SP, apontado como líder e beneficiário final;
Tiago de Oliveira: prisão preventiva. Braço-direito e gestor financeiro de Ryan;
Alexandre Paula de Sousa Santos: prisão preventiva. Conhecido como “Belga” ou “Xandex”;
Lucas Felipe Silva Martins: prisão preventiva;
Sydney Wendemacher Junior: prisão preventiva;
Arlindma Gomes dos Santos: prisão preventiva. Vulgo “Nene Gomes”;
Raphael Sousa Oliveira: prisão preventiva. Criador da página “Choquei” e operador de mídia;
Marlon Brendon Coelho Couto da Silva: prisão preventiva;
Diogo Santos de Almeida: prisão preventiva;
Vinicius dos Reis Pitarelli: prisão preventiva;
Rodrigo Inacio de Lima Oliveira: prisão preventiva;
Luis Carlos Custodio: prisão preventiva;
Jose Ricardo dos Santos Junior: prisão preventiva;
Ellyton Rodrigues Feitosa: prisão preventiva;
Caroline Alves dos Santos: prisão preventiva;
Mateus Eduardo Magrini Santana: prisão preventiva;
Henrique Alexandre Barros Viana: prisão preventiva;
Mauro Jube de Assunção: prisão preventiva. Contador;
Chrystian Mateus Dias Ramos: prisão preventiva;
Luis Henrique Matos Maia: prisão preventiva;
Orlando Miguel da Silva: prisão preventiva;
Sun Chunyang: prisão preventiva;
Xizhangpeng Hao: prisão preventiva. Controlador da empresa Golden Cat;
Sergio Wegner de Vargas: prisão preventiva;
Thiago Barros Cabral: prisão preventiva;
Vitor Ferreira da Cruz Junior: prisão preventiva;
Yuri Camargo Francisco: prisão preventiva;
Leticia Feller Pereira: prisão preventiva;
Alex Lima da Fonseca: prisão preventiva;
Jiawei Lin: prisão preventiva;
Thadeu José Chagas Silveira: prisão preventiva;
Renan Costa da Mota: prisão preventiva;
Marcus Vinicius Rodrigues de Assis: prisão preventiva;
Guilherme Ricardo Fuhr: prisão preventiva;
Jonatas Cleiton de Almeida Santos: prisão preventiva;
Fernando de Sousa: prisão domiciliar;
Débora Vitória Paixão Ramos: prisão domiciliar;
Estefany Pereira da Silva: prisão domiciliar.
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De bets ilegais a contratos com influenciadores: como funcionava esquema que levou à prisão de MCs Ryan SP e Poze do Rodo, segundo a PF
Em uma rede social, a defesa de MC Ryan SP comentou a solicitação da PF de mais tempo de prisão e disse que "causa perplexidade o caráter manifestamente extemporâneo do pedido".
"Se presentes estivessem, desde antes, os requisitos da preventiva, por que não foi ela requerida no momento oportuno? Espera a defesa que a medida seja indeferida e a decisão do Superior Tribunal de Justiça efetivamente cumprida", escreveu.
O MC Ryan SP, o MC Poze do Rodo e Raphael Sousa Oliveira, dono do perfil ‘Choquei’, das Redes Sociais.
Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais
Em nota, o advogado Felipe Cassimiro, que faz a defesa do MC Ryan SP, disse que a decisão reconhece a "ilegalidade das prisões de MC Ryan, Diogo 305 e dos demais investigados no âmbito da Operação Narco Fluxo" e que "a consequência natural e jurídica desta decisão é a revogação da prisão, medida que decorre diretamente da própria decisão ao ser reconhecido o erro no prazo fixado para a prisão temporária".
Já o advogado de Poze do Rodo, Fernando Henrique Cardoso Neves, afirmou que o novo pedido feito pela PF não apresenta fatos novos e criticou a condução do caso.
A defesa de Raphael Sousa Oliveira, proprietário da página Choquei, informa que vai recorrer imediatamente ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região, ao Superior Tribunal de Justiça e, se necessário, ao Supremo Tribunal Federal, para restabelecer a Constituição.
O advogado criminalista Pedro Paulo de Medeiros afirma que a nova decisão repete vícios já apontados pela defesa desde a decretação da prisão temporária, especialmente pela ausência de fundamentação individualizada em relação a Raphael Sousa Oliveira, pois o juiz sequer menciona o nome dele na decisão.
Segundo a defesa, a decisão não apresenta elementos concretos e específicos que justifiquem a imposição da medida extrema em relação ao investigado.
Pedro Paulo de Medeiros sustenta que a decretação da prisão preventiva "mantém a mesma ausência de fundamentos concretos já questionada pela defesa e viola a exigência constitucional e legal de motivação das decisões que restringem a liberdade, sobretudo pela falta de individualização dos motivos atribuídos a Raphael Sousa Oliveira".
"A defesa também argumenta que a decisão não demonstra, de forma específica, por que a prisão preventiva seria necessária no caso concreto, nem apresenta fundamentos individualizados que autorizem a custódia cautelar. Por isso, questionará imediatamente a decisão nas instâncias superiores", afirmou o advogado, em nota.
Operação Narco Fluxo
A Operação Narco Fluxo foi resultado de uma investigação que começou muito antes dos mandados de busca e prisão.
Segundo a Polícia Federal, o ponto de partida foi a análise de arquivos armazenados no iCloud, sistema de armazenamento em nuvem da Apple, do contador Rodrigo de Paula Morgado, obtidos durante uma operação anterior, a Narco Bet, que já era derivada da Operação Narco Vela, ambas deflagradas em 2025.
O g1 reuniu o que se sabe sobre o caso até agora.
Como a investigação começou?
O que dizem as defesas?
O que foi apreendido?
Qual era o papel dos influenciadores?
Quem eram os operadores do esquema?
Qual seria o papel de MC Poze do Rodo no esquema?
Qual seria o papel de MC Ryan SP no esquema?
Por que o iCloud foi importante?
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O que o iCloud armazena e como ele pode revelar a rotina do usuário
Como a investigação começou?
Da esquerda para direita, MC Ryan SP, Poze do Rodo e Rodrigo Morgado
Reprodução/YouTube e Instagram
A investigação atual nasceu de provas reunidas durante a Operação Narco Bet, de outubro de 2025, instaurada após a Narco Vela, de abril do mesmo ano. As operações apuravam lavagem de dinheiro ligada a apostas, tráfico internacional de drogas, grandes quantias em espécie, transferências bancárias e criptoativos.
Segundo a decisão judicial, o núcleo de inteligência da PF analisou arquivos do iCloud de Rodrigo de Paula Morgado, identificado como contador e operador financeiro do grupo.





