Home office do crime: facção no Rio expandia poder sobre cidade da Paraíba.
A Prefeitura de Cabedelo iniciou o processo que rompimento de contrato com a empresa Lemon, responsável por uma série de serviços na administração municipal, e que é suspeita de fazer parte do esquema que afastou Edvaldo Neto, ex-prefeito interino, para beneficiar membros de uma facção criminosa com desvio de recursos públicos.
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De acordo com o atual prefeito interino da cidade, José Pereira, o processo de rompimento contratual vai ser feito de forma gradual, com objetivo de não interromper os serviços municipais abruptamente. Cerca de 700 pessoas são empregadas pela empresa e prestam serviços terceirizados para a administração municipal atualmente.
Também é previsto uma contratação emergencial de uma nova empresa, para assumir os serviços na cidade. Órgãos de controle, como o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PB), estão sendo informados sobre as etapas dessas contratações.
"Estamos fazendo um processo devagar, pois estamos tratando de empregos, de famílias que necessitam daquele salário para sustentar a casa. Tenham paciência, pois estou fazendo com muita responsabilidade, junto com a Justiça, para que ocorra de maneira correta", disse o atual prefeito interino.
Tanto a Procuradoria-Geral de Cabedelo quanto o Ministério Público da Paraíba (MPPB) emitiram pareceres a favor do rompimento contratual com a empresa Lemon. De acordo com a procuradoria, o contrato tem que ser anulado por vício de finalidade e também em paralelo ao reforço de medidas de fiscalização e apuração de responsabilidades de agentes envolvidos na celebração do contrato.
Sobre eventuais paricipações dos próprios empregados terceirizados no esquema criminoso e a ciência de que estavam participando de uma estrutura ilícita, José Pereira também explicou que a nova empresa que vai ser contratada terá a responsabilidade de colher certidões negativas dos funcionários.
"A nova empresa terá uma grande responsabilidade para trabalhar com as certidões negativas desses trabalhadores. As pessoas serão convidadas a trazer seus documentos (à Prefeitura), haverá a demissão, e depois serão readmitidas pela nova empresa", explicou o prefeito.
As contratações, ainda conforme o prefeito, serão de atribuição exclusiva da nova empresa, seguindo determinações judiciais vigentes após a investigação sobre a atuação do poder público e também de chefes de organizações criminosas em comum acordo.
O que diz a Lemon
Em nota, a empresa Lemon informou que emprega mais de 700 pessoas em Cabedelo e que exige certidões criminais negativas desde 2024. Afirmou que as denúncias de folha paralela atingem centenas de trabalhadores.
Sobre o possível fim do contrato, a Lemon emitiu um outro comunicado em que afirmou que "não foi oficialmente comunicada pela gestão municipal sobre qualquer decisão relacionada ao encerramento ou suspensão contratual" e que "que não vê motivos para um possível cancelamento contratual, ressaltando que sempre colaborou e continua colaborando com as investigações conduzidas pelas autoridades competentes".
Ações da polícia em Cabedelo
A ação de facções criminosas na cidade de Cabedelo, na Região Metropolitana de João Pessoa, na Paraíba, foi destaque em uma reportagem especial do Fantástico exibida no domingo (10). O secretário de Segurança Pública do Estado da Paraíba, Jean Nunes, falou sobre o assunto nesta segunda-feira (11) e afirmou que a correlação entre o crime organizado e o poder público tem dificultado o combate ao avanço das facções no estado.
Jean Nunes disse em entrevista à TV Cabo Branco que "as forças de segurança não têm medido esforços pra trazer tranquilidade ao município de Cabedelo". Segundo ele, entre as maiores dificuldades encontradas pelas forças de segurança para combater o avanço das facções está "a correlação entre o crime e o poder público".
"A correlação entre o crime e o poder público dificulta naturalmente o trabalho, mas não impede. A gente tem feito nossa parte enquanto segurança pública em cooperação com atores como Ministério Público, poder judiciário, Polícia Federal. A gente sabe que precisa continuar persistindo, porque são áreas que têm mais interesse da criminalidade e áreas que a gente precisa naturalmente continuar focado", disse o secretário.
Ainda de acordo com o secretário, desde 2023, quando o avanço das organizações criminosas na Região Metropolitana de João Pessoa começou a ser diagnosticado, mais de 200 pessoas ligadas às organizações já foram presas.
"Desde o final de 2023 a gente começou a diagnosticar e entender o fenômeno que estava chegando ali de maneira mais forte na Região Metropolitana. Em 2024 tivemos uma série de operações realizadas. A Polícia Civil com o Gaeco realizaram fora do estado 98 prisões de pessoas relacionadas ao crime organizado, e também em Cabedelo. Em 2025 foram 110 prisões da Polícia Civil da Paraíba com o Gaeco e com a Polícia Civil de outros estados", explicou o secretário.
O secretário deve participar nesta terça-feira (12) do lançamento do programa "Brasil Contra o Crime Organizado", que prevê um investimento de cerca de R$ 11 bilhões como parte de um conjunto de ações do governo para fortalecer o enfrentamento e a investigação das facções criminosas.
Segundo as investigações, integrantes da facção criminosa Comando Vermelho monitoram a rotina dos moradores de Cabedelo (PB) a partir do Rio de Janeiro
TV Globo/Reprodução
Destino turístico é tomado pelo crime
A cidade de Cabedelo passou a ser comandada, a partir de um esquema investigado, à distância por uma facção criminosa instalada no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A Polícia Federal e o Ministério Público já realizaram mais de dez operações para combater a corrupção e o crime organizado na cidade, onde segundo a reportagem, criminosos ditam regras e interferem na rotina dos moradores.
Um nome aparece com frequência nas investigações sobre a ação das facções: Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka. Aos 43 anos, ele começou na facção Nova Okaida, na Paraíba, e depois fundou a Tropa do Amigão, um dos braços do Comando Vermelho no Nordeste.
Contra ele, há 13 mandados de prisão por tráfico, homicídios e organização criminosa. Fatoka chegou a ficar preso no Presídio de Segurança Máxima da Paraíba, mas fugiu em setembro de 2018 em uma fuga em massa de 92 detentos que usaram explosivos.
Nas ruas de Cabedelo, pichações com a abreviatura do nome de Fatoka e do Comando Vermelho marcam o domínio territorial.
O esquema
Edvaldo Neto, ex-presidente da Câmara Municipal, tomou posse como prefeito interino, mas foi afastado Plínio Almeida/TV Cabo Branco
De acordo com as investigações, os recursos públicos destinados ao pagamento dos postos de trabalho terceirizados voltavam aos líderes da organização e aos agentes politicos na forma de propina. Até mesmo uma "folha de pagamento paralela" chegou a ser implantada. Edvaldo Neto, afastado da prefeitura, é supostamente integrante desse esquema.
Segundo um documento da Polícia Federal, o esquema acontecia da seguiunte maneira:
A Prefeitura de Cabedelo realizava contratações de serviços terceirizados, como de limpeza em prédios e domicílios, por meio de licitações que são suspeitas de serem fraudadas, ou direcionadas, para garantir que determinadas empresas, como a Lemon, fossem sempre vencedoras.
Isso ocorria, por exemplo, com a desclassificação deliberada de empresas concorrentes nessas contratações, mesmo quando apresentavam propostas melhores, mediante decisões administrativas e pareceres jurídicos que davam aparência de legalidade ao processo licitatório.
Uma vez que os contratos eram fechados, essas empresas terceirizadas funcionariam como um mecanismo de contratação de pessoas indicadas por uma facção criminosa, identificada como a “Tropa do Amigão”, um braço do Comando Vermelho, na Paraíba.
As indicações, segundo a investigação, partiam da liderança do grupo criminoso e eram operacionalizadas dentro da administração pública por intermediários e servidores, que recebiam currículos e efetivavam contratações dentro da estrutura das empresas terceirizadas.
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