‘Onde está Rapha?’ Conheça o cria da Maré que conquistou Shakira
“Onde está o Rapha?” Foi assim que Shakira chamou, no palco de Copacabana, o influenciador e dançarino Raphael Vicente, cria do Complexo da Maré que saiu dos vídeos de arte e humor gravados na favela para dançar ao lado da estrela pop diante de milhares de pessoas no Rio.
Rapha é o segundo personagem de série "Influência de Cria", que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop.
A nova série do g1 e do GloboPop mostra como criadores de conteúdo de comunidades brasileiras transformam vivências marcadas pela desigualdade em trabalho, audiência e influência.
'Influência de Cria': Raphael Vicente, cria da Maré
Arte/g1
Aos 25 anos, jovem do Parque União, no conjunto de comunidades na Zona Norte do Rio, conquistou mais de 4 milhões de seguidores nas redes com posts de arte e humor.
Dançarino, coreógrafo, ator, criador de conteúdo, neto da dona Maria Antônia, afilhado de Luciene e irmão da Maria Eduarda, Raphael agora também pode dizer que dançou no palco de Copacabana e gravou um clipe no Maracanã com a Shakira.
Raphael conta que teve uma infância tranquila na comunidade, mas cerceada pela rotina de violência urbana que afeta a vida dos moradores de comunidades. Várias vezes, segundo ele, aulas foram canceladas ou sequer era possível chegar até a escola.
Ao procurar emprego, por exemplo, ele mentia e dizia que era de Bonsucesso para que o empregador não tivesse preconceito por ele vir de uma favela.
Criador de conteúdo há 11 anos, foi na pandemia que ele viu o número de seguidores crescer, e a bolha ser furada, ao ponto de uma diva pop conhecida mundialmente o notar.
Agora ator profissional, empresário e futuramente diretor, ele foca em construir e inaugurar o seu estúdio de dança dentro da Maré e reforça a importância em permanecer em seu território como uma forma de valorização das suas raízes.
Confira a história dele na entrevista completa abaixo.
Raphael Vicente em Paris
Divulgação
Conta sobre a sua história com a Maré?
Eu moro aqui na Maré há 25 anos e eu tenho 25 anos, então é a minha vida inteira aqui dentro e minha infância foi bem tranquila. A minha avó era empregada doméstica, então ela ficava pouco tempo em casa. Então ficava eu, a minha prima e a minha irmã juntos. Mas quando ela chegava, a gente brincava na rua e nunca faltou nada assim pra gente, sabe? A gente sempre teve o básico, a gente nunca teve de tudo muito, mas a gente sempre teve o básico para viver e para a gente já era suficiente.
E tudo que eu aprendi, eu aprendi aqui na Maré. Eu fiz cursos profissionalizantes aqui dentro. Os meus primeiros vídeos eu fiz aqui dentro. As primeiras pessoas que me deram apoio são pessoas aqui de dentro. Então grande parte da minha vida e de tudo que eu faço hoje foi de coisas que eu comecei a fazer aqui na Maré, sabe? E eu sempre morei com a minha avó, a minha mãe trabalhava muito.
Então acabou que eu passei muito tempo com a minha avó e com isso teve um momento da minha vida que eu passei a morar com a minha avó, a minha dinda, minha prima e a minha irmã. Só que aí, com o tempo eu fui tendo as minhas coisas, o meu dinheirinho e eu comprei a minha casa, que é o meu cantinho, que hoje moramos eu, a minha avó e a minha irmã.
Eu optei por a gente ficar perto um do outro, porque a gente grava muita coisa junto e a gente tem essa coisa de ser muito família, sabe? Então acabou que eu escolhi um lugar pertinho.
Como começou a sua história com a Shakira?
A minha história com a Shakira começa em 2022, quando a gente fez o clipe de ''Waka Waka' nessa rua aqui atrás e a gente fez esse clipe aqui. E eu nunca fiz esse clipe com a intenção de que a Shakira visse. Eu nunca achei que ela fosse ver algum dia. Só que quando ela viu o clipe, ela compartilhou aquilo foi para mim um choque muito grande. Enfim, eu já amava Waka Waka, que é uma música que para mim eu tenho muita a memória de que eu com 13 anos e fazendo tipo acho que social com amigos meus e lá na minha laje a gente botava essa música, escutava essa música.
É uma música que tinha um apego emocional muito grande e eu fiz esse clipe aqui da Copa, porque eu sinto que a vibe aqui da favela, em clima de Copa, é uma coisa que é muito forte. A gente pinta chão, a gente põe as coisas, bandeirinha, então é uma coisa que é muito ali da favela. Então eu falei: 'por que não pegar a música mais famosa ali da Copa e por que não unir esse clima de Copa aqui na favela e unir tudo em um só? E quando a Shakira e quando a Shakira viu, eu não tenho meio que palavras para dizer para você até hoje, senão um choque, um choque, porque eu não esperava.
Dance Maré e a Shakira
Divulgação/Karina Donaria
Eu não criei expectativas com que ela fosse ver e muito menos expectativa com que um dia ela fosse chamar a gente para dançar com ela no maior palco do mundo, sabe? E disso já saíram várias coisas, a gente já viu ela, no Domingão, a gente fez um clipe para o canal dela e recentemente a gente foi chamado para dançar com ela no palco de Todo Mundo no Rio.
Fui criando um afeto por ela muito forte, porque é muito raro você ver uma artista que é uma estrela global ter essa abertura, de dar essas oportunidades para as pessoas que ela nunca viu. É que assim, tipo para mim, que sou da favela, a gente sabe que essas coisas para a gente não chegam, essas oportunidades. Então você vê uma estrela global abrir margem para estar próxima de pessoas assim é uma coisa muito legal, sabe?
Então, durante esse tempo, o meu carinho por ela foi crescendo mais ainda. A minha admiração por ela, pela pessoa dela, foi crescendo muito mais, hoje em dia é meio que minha amiguinha, a gente ficou próximo, coisas assim.
Como que foi gravar um clipe com ela?
E durante esse processo que a gente teve lá para o show, teve um break ali de dois dias antes de ir para o show, e ela chamou a gente para gravar um vídeo com ela lá no Maracanã. Só que a gente não sabia o que era. A gente foi muito às cegas, ela falou ‘A gente tem um vídeo nosso aqui para gravar e tals, querem ir?’, e a gente topou. Quando a gente chegou lá e ficou aquela produção toda, ficou sem entender.
A gente teve um ensaio antes, a gente viu que era uma música para a Copa de 2026 e a gente ficou ‘Meu Deus, a Shakira vai lançar a música de novo e meu Deus, a gente vai fazer um clipe com ela’. Foi muito legal, eu nunca tinha ido lá no Maracanã. Então foi um combo de coisas.
A gente ficou lá o dia inteiro, a gente ficou ensaiando o dia inteiro lá e quando chegou a noite, ela abraçou todo mundo. Essa mulher é um poço de simpatia. Eu acho que em outra vida ela foi brasileira.
Como foi sua reação ao saber que o pai dela tinha sofrido uma isquemia?
Eu só soube do que aconteceu com o pai dela após eu ter ido lá no palco. Antes a gente não sabia de nada. A gente só soube que tinha tido um atraso, mas até então não chegou pra gente essa informação de que tinha acontecido alguma coisa com o pai dela e quando a gente saiu ali do palco, a gente viu o que tinha acontecido.
Primeiro que eu fiquei mais admirado ainda com ela, porque você subir em um palco diante do maior show da sua vida, do maior público da sua vida, e você se manter ali em cima mesmo tendo em mente o que aconteceu com o seu pai é uma coisa muito séria e profissional. É de uma admiração muito grande e é de uma garra muito grande. Então, esse amor que eu tinha por ela, a admiração que eu tinha por ela após isso cresceu mais ainda.
Como são os vídeos que você grava com a sua família?
Raphael Vicente e a família
Divulgação
Esses vídeos que eu gravo com eles são vídeos que eu faço desde quando eu tinha 15 anos. Só que no início era uma coisa mais bobinha, tipo eu estava à toa em casa e gravava. Só que depois eu fui pegando um gosto porque eu vi o quanto as pessoas estavam mudando de vida por conta do Vine, do Facebook, do YouTube, sabe? Eu tinha algumas referências, como Kéfera, Whindersson e aí eu comecei a gravar esses vídeos assim também.
E em 2020 que chegou a pandemia, eu tive mais tempo para ficar em casa. Eu voltei a gravar esses vídeos. Alguns desses vídeos eu coloquei a minha família e foram os meus primeiros vídeos que bombaram após todos esses anos que eu criava esses conteúdos.
Como é o seu conteúdo?
Meus vídeos são de humor, que pega meio cotidiano de famílias brasileiras, só que mais voltado para a minha família, que é uma família que não é nada de tradicional, sabe a minha avó, minha dinda, não tem uma mãe, um pai de base. Então, acho que as pessoas se identificam muito por conta disso, porque a gente pensa muito na família com essa coisa de ter a base de pai e mãe, sendo que aqui no Brasil não é assim.
Mas também a gente grava muito sobre a nossa realidade, eu falo muito sobre a favela, sobre a Maré, sobre a minha vida aqui, com a intenção de que as pessoas que assistam tenham uma outra perspectiva sobre um olhar de quem realmente mora aqui em uma comunidade.
Como foi a sua educação?
Eu estudei aqui na Maré a minha vida inteira, só teve um período assim da minha vida que eu não estudei aqui, mas eu estudei muito perto daqui, que foi ali na Avenida Brasil, na Clotilde, a gente era muito impactado quando tinha tipo operação, eles já entendiam que a maioria de todos os alunos deles eram alunos aqui de dentro, então eles não teriam alunos em dia que tivesse tiroteio. Então, já teve muitas vezes que eu não fui para aula por conta de tiroteio, que eu já que eu não ficava aqui na rua por conta de tiroteio, sabe?
Eu sei que eu não tive o mesmo desempenho escolar de alguém que não mora em uma favela. Por muitos dias eu ter ficado sem aula por conta de tiroteio, então o meu desempenho, os meus estudos não seriam iguais às pessoas que não estudam em uma favela, sabe? E é chato para mim, como criança, não poder sair na rua por conta de coisas assim, que eu sei que tem pessoas que nunca vão viver isso.
Como é a sua relação com o Dance Maré?
Dance Maré
Divulgação
Eu sempre fui muito assim do coletivo. Eu não sei se é por conta da minha família, por a gente ser sempre unido. Mas acho que por conta também do meu território, porque eu sinto que aqui na favela a gente é muito de ajudar o outro. ‘Ah, eu quero açúcar’ e chega o vizinho e dá açúcar. Chegou ali uma ajuda. Então eu sinto que aqui dentro esse senso de coletividade é muito grande. E aí tudo que eu penso hoje em dia em fazer, eu nunca penso que eu vou sozinho.





