IOC-Fiocruz
Os casos de hantavírus em um navio de cruzeiro que saiu da Argentina rumo à África provocou temor em vários países, já que passageiros de mais de 20 nacionalidades estavam a bordo e começaram a ser repatriados – não há registro de brasileiros entre eles.
O episódio reacendeu dúvidas sobre uma doença até então pouco falada, mas que está presente no Brasil há mais de três décadas. Apesar de rara, a hantavirose preocupa por sua alta taxa de letalidade e pela rapidez com que pode evoluir para quadros graves.
No Brasil, a doença é considerada endêmica pelo Ministério da Saúde. Isso significa que o vírus circula de forma contínua em determinadas regiões do país, principalmente em áreas rurais.
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Mesmo não tendo um número de casos elevado, a hantavirose nunca deixou de circular no país, uma vez que o animal contaminado dificilmente é capturado. A subnotificação pode ser um problema, principalmente em áreas rurais com menor acesso a exames laboratoriais. Apesar disso, os especialistas afirmam que não há risco de uma nova epidemia, como a Covid-19.
"A maioria dos hantavírus não apresenta transmissão entre pessoas. Entretanto, uma variante específica, chamada vírus Andes, identificada em alguns países da América do Sul, já demonstrou possibilidade de transmissão interpessoal em situações muito específicas e de contato próximo. Mesmo nesses casos, trata-se de uma transmissão muito menos eficiente do que a observada em vírus respiratórios, como o SARS-CoV-2, sem evidências de potencial pandêmico semelhante ao da covid-19", detalha o infectologista.
Apesar da maioria dos hantavírus não serem transmitidos de pessoa para pessoa, o vírus Andes que causou o surto no navio, tem uma peculiaridade que é justamente a possibilidade de transmissão entre pessoas.
Este tipo de transmissão é considerada excepcional já que são necessárias características muito particulares para que ela ocorra, como contato muito próximo e ambientes fechados. Essa cepa foi documentada principalmente em países como Argentina e Chile.
"O surto que ocorreu gerou preocupação porque envolveu casos graves e mortes em um ambiente fechado, com circulação internacional de pessoas, como em um navio de cruzeiro. O caso também ganhou grande repercussão porque ocorreu em um momento de maior atenção global para surtos infecciosos após a pandemia de Covid-19. Porém, é importante destacar que o hantavírus tem comportamento muito diferente do coronavírus, com transmissão muito menos eficiente e sem evidências de potencial pandêmico semelhante", explica o infectologista.
Os hantavírus podem podem causar duas grandes síndromes: uma renal hemorrágica, comum em cepas encontradas na Europa e Ásia; e outra pulmonar, mais ligada ao continente americano, incluindo o vírus que circula no Brasil.
Atualmente, não existe um tratamento antiviral específico para a doença. O atendimento é baseado em suporte clínico com monitoramento respiratório e cardiovascular. Em muitos casos, os pacientes precisam de internação em unidades de terapia intensiva (UTI).
Embora pareça contraditório, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil, doenças com mortalidade elevada normalmente encontram mais barreiras para se espalhar em grande proporção. Isso porque, quando um vírus provoca sintomas graves rapidamente, o paciente tende a ser hospitalizado, isolado, fazendo com que o vírus não seja transmitido.
Como medida preventiva, o Ministério da Saúde recomenda evitar contato com roedores silvestres e limpar locais fechados, como galpões, com cuidado, sem levantar poeira. Ambientes abandonados ou pouco ventilados devem ser umedecidos antes da limpeza para reduzir a dispersão de partículas contaminadas no ar.
Além disso, autoridades sanitárias orientam a armazenar alimentos corretamente, eliminar entulhos e evitar acúmulo de lixo que possa atrair roedores.
Teste rápido para o diagnóstico
Na tentativa de agilizar o diagnóstico e de reduzir a subnotificação da doença, a Fiocruz e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram, em 2025, um teste rápido que é capaz de detectar a hantavirose em até 20 minutos e com apenas uma gota de sangue.
Antes, o diagnóstico era feito apenas após análise laboratorial da amostra de sangue do paciente, o que, na maioria dos casos, retardava o início do tratamento já que o resultado pode demorar dias para sair, dependendo da demanda laboratorial de cada unidade de saúde.
Nos experimentos foi obtida sensibilidade de 94% e especificidade de 100%, sinalizando alta capacidade de detectar a doença e baixíssima probabilidade de reações falso-positivas em amostras verdadeiramente negativas para hantavirose ou referentes a outras doenças.
"Ele é um teste imunocromatográfico para detecção de anticorpos específicos do tipo IgM contra o vírus, incluindo o Andes. E pode ser utilizado a amostra de soro, sangue e plasma dos pacientes. E como o próprio nome indica, esse teste possibilita um resultado imediato, em até 20 minutos e não requer o uso de infraestrutura laboratorial. Isso permite a sua utilização em unidades de saúde em áreas remotas e em áreas rurais, onde ocorre a maioria dos casos", lembra Renata Carvalho de Oliveira Pires dos Santos, chefe do laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses.
O teste rápido já obteve registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a distribuição dos kits está atrelada à demanda do Ministério da Saúde.
A BBC News Brasil questionou o Ministério da Saúde sobre os locais onde o teste rápido está disponível, porém não obteve retorno até a publicação desta reportagem.





