Carla Madeira se tornou fenômeno da literatura brasileira com os livros Tudo é Rio, A Natureza da Mordida e Véspera
Divulgação/Agência Riff via BBC
As primeiras páginas que deram origem a "Tudo é Rio", o romance mais popular de Carla Madeira, foram escritas 14 anos antes de sua publicação.
Depois de criar uma cena especialmente violenta, o processo da autora entrou em hiato. Mais de uma década depois, no entanto, o livro foi concluído em apenas oito meses — "jorrando, em processo de transbordamento", como ela descreve em entrevista à BBC News Brasil.
"Eu escrevia direto. Meus filhos eram pequenos, eu chegava em casa depois de uma jornada de trabalho pesada [Madeira era publicitária], botava os meninos para dormir e escrevia. Era só o que eu fazia nos finais de semana também. Em oito meses, eu escrevi o livro, na ordem que o leitor lê. Então é um jorro mesmo, é um transbordamento", diz.
"Acabei o livro, acabei um casamento, então também foi muito catártico para mim. Eu sei que organizei muitas coisas, muita coisa inconsciente veio. Foi um livro sem contenção nenhuma."
A mineira de Belo Horizonte afirma que não imaginava o alcance que a história teria — a primeira tiragem teve apenas 700 exemplares.
Ela conta que evita acompanhar de perto as reações nas redes, sobretudo quando deixam de dialogar com a obra: "Tem pessoas que são agressivas, que não ficam na literatura, que querem agredir o autor."
Há quem ame, quem rejeite — e quem tente enquadrar os personagens a partir de uma régua moral.
É verdade que os personagens criados por ela — e as circunstâncias em que são colocados — quase inevitavelmente despertam julgamentos no leitor. É difícil não reagir: achar absurdo que alguém tome determinada decisão, perdoe certos atos ou trate um filho daquela maneira.
Mas Madeira diz que a ideia não é concordar ou discordar com as ações dos personagens, 'escolher um lado.'
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Ela defende que o papel da arte está em provocar deslocamentos — e não oferecer respostas fechadas. "Eu não quero simplificar, quero acolher. A grande experiência artística é acolher a subjetividade, acolher as possibilidades da existência humana, e não as certezas, não as verdades."
Para Madeira, há uma tendência de confundir a experiência literária com julgamento moral: "Não é um manual. É uma imersão numa experiência particular."
Nesse sentido, o incômodo também faz parte da leitura. "Acho que o barato é esse: a gente consegue se pôr em um lugar que, na vida, não consegue. A literatura não pode se colocar num lugar utilitário. Você não pode escrever um livro como se fosse um manual."
Processo criativo: intuição, excesso e um 'caderninho'
Quarto romance da autora mineira está previsto para agosto
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Se a recepção dos livros passa pela subjetividade de quem lê, a escrita, no caso de Carla Madeira, também nasce longe de fórmulas.
"Eu não tenho uma pauta. Nunca sentei para escrever pensando em tese, em provar alguma coisa. É uma imersão numa experiência particular."
A autora conta que o primeiro romance foi construído de forma quase intuitiva — e que só depois, com a experiência, passou a reconhecer melhor seus próprios caminhos de criação. Ainda assim, resiste a organizar demais o processo.
Essa recusa ao maniqueísmo aparece diretamente nos personagens.
"Eu não queria nenhum personagem que fosse só legal, só bonzinho", explica, citando o 'elenco' de "Tudo é Rio".
"Você vai para a Lucy, fica com raiva dela, mas tem um momento em que ela se humaniza. Vai para o Venâncio, você sente ódio, quer se vingar, mas de repente entende um lado dele também. E a Dalva, que é vítima, também quer promover o castigo, a punição dela."
Segundo Madeira, é esse movimento que prende o leitor — mesmo quando há rejeição. "Tem leitor que não gosta do final, mas fala: 'não consegui parar de ler'. Eles são pegos por uma espécie de correnteza."
Ela reconhece que, com o tempo, passou a ter mais consciência técnica do próprio trabalho, mas sem abrir mão do impulso inicial.
"Às vezes vem uma imagem, uma frase, alguma coisa que eu ainda não sei o que é, e eu guardo. Eu anoto muito. Tenho um caderninho. Quando estou no processo, brinco com quem convive comigo que é necessário ter cuidado, porque qualquer coisa falada pode ir parar nas minhas páginas."
Véspera e a adaptação para a TV
"Véspera", publicado em 2021, chegou com um teaser quase irresistível: Vedina, uma mulher adulta, decide, em um momento de descontrole, abandonar o filho, largá-lo em uma via pública.
Pessoalmente, foi o primeiro livro que me fez chorar em muitos anos — e um dos motivos pelos quais concordo com Carla Madeira quando ela diz que o papel da literatura é nos fazer sentir para além das possibilidades da nossa própria vida.
Em 2025, Ana Paula Maia se tornou a única representante do Brasil e da América Latina entre os finalistas do International Booker Prize, um dos mais prestigiosos prêmios da literatura mundial. Jeferson Tenório venceu o Prêmio Jabuti com "O Avesso da Pele" e ganhou projeção internacional; nomes como Aline Bei, Itamar Vieira Junior e Geovani Martins passaram a circular com mais força em traduções, festivais e listas internacionais.
Para Madeira, há uma sensação de movimento coletivo acontecendo.
"É muito bom quando a gente cria essa onda, esse volume. Muita gente escrevendo, sendo premiada, publicando fora, brilhando, ocupando espaço em clubes de leitura, em festivais, em programas de literatura. Todos os dias tem um convite para uma roda, uma entrevista, uma festa literária. Está muito interessante ver isso acontecer."
Ela cita especialmente a recepção em Portugal, onde "Tudo é Rio" venceu o Prêmio Bertrand de Livro do Ano. "Alguns editores me disseram que o livro abriu uma atenção para a literatura contemporânea brasileira, porque eles publicavam muito pouco."
A autora vê esse crescimento quase como um efeito em cadeia. "Uma autora falou do meu livro para um editor, ele me publicou, depois meu livro ajudou outro, e outro. É muito bonito entrar numa livraria e ver literatura brasileira ocupando aquelas mesas de destaque."
Ainda assim, ela ressalta que o entusiasmo não apaga um problema estrutural. "No Brasil se lê muito pouco. A gente tem um déficit imenso. Mais gente tem que entrar, mais gente tem que ler."
Na visão da escritora, uma das formas de ampliar esse alcance passa justamente pela recomendação espontânea entre leitores. "É muito difícil furar a bolha. Eu lembro dos meus 700 exemplares e pensava que ia ter que panfletar livro em porta de academia. Quando alguém lê e fala 'isso aqui é maravilhoso', muda tudo."
A reportagem pediu para Carla Madeira indicar alguns títulos justamente para quem tem o objetivo de ler mais. Os títulos escolhidos por ela: Para quem está de luto.
Diário de Luto, de Roland Barthes Para quem terminou um relacionamento.
Poeta chileno, de Alejandro Zambra. "Justamente para não pensar no relacionamento (risos)."
Para quem está apaixonado.
Sobre a Terra Somos Belos por um Instante, de Ocean Vuong.
Para quem gosta de personagens ambíguos.
Primo Basílio, de Eça de Queiroz
Para quem quer chorar.
A vida pela frente, de Romain Gary
Para expandir horizontes.
Imortalidades, de Eduardo Giannetti e Quando Deixamos de Entender o Mundo, de Benjamín Labatut.
Carla Madeira é a convidada do podcast Frango com Quiabo
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