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Do Oeste Paulista para o mundo: ator de ‘Avenida Brasil’ relembra trajetória, soma prêmios e conta planos para o futuro

Outro destaque foi o “Picardias do Picadeiro”, ou as “Maluquices do Picadeiro”, porque a censura dividiu o espetáculo em dois. “Um eu tinha três cenas a mais, e eu apresentava só para adultos, 18 anos, e três cenas a menos eu apresentava para crianças de todas as idades. E eu fazia os dois no mesmo teatro, à tarde e à noite”, continua.
“Eu rodei 18 anos com esse trabalho e eu rodei 15 países com ele. Tem prêmios na Europa, em Madrid, tem prêmios aqui na Argentina, de ‘Melhor Espetáculo Latino-americano’, e cheguei aqui. Ano que vem eu estou completando 50 anos de carreira”.
Vicentini Gomez soma premiações nacionais e internacionais
Arquivo pessoal/Vicentini Gomez
Atuações
Nos palcos, Vicentini tem grandes sucessos, com destaque para o espetáculo “Confidências de um Espermatozoide Careca”, que ficou 15 anos em cartaz.

“Nesse período aí, nós temos três fenômenos. ‘Confidências de um Espermatozoide Careca’, ‘Trair e Coçar é Só Começar’, que ficou quase 30 anos em cartaz, e o ‘Mistério de Irma Vap’, com o Nanini e o Ney Latorraca, que ficou também 12 ou 13 anos em cartaz”, recorda.
Formado inicialmente em cinema, Vicentini Gomez conta que nunca planejou seguir carreira como ator. A virada aconteceu quase por acaso, quando precisou substituir um artista em um espetáculo e acabou permanecendo em cena durante toda a temporada, desempenho que lhe rendeu, inclusive, um prêmio de “Melhor Ator”.

Ao longo da trajetória, ele acumulou influências importantes, como o diretor italiano Justino Marzano, ligado à tradição europeia do teatro, e a preparadora de elenco Paula Martins, com quem trabalhou por três anos.
Com o tempo, Gomez ampliou sua atuação para a direção e passou a desenvolver projetos próprios, transitando entre teatro e cinema. Entre os trabalhos, estão produções como “Rio da Minha Terra”, filmado na barranca do Rio Paraná, em Presidente Epitácio (SP), com participação de dezenas de pessoas da região, e “Paúra”, gravado na praça central de Presidente Prudente, com um elenco que reuniu nomes conhecidos da televisão brasileira.
É justamente nesse ponto que a trajetória do artista se cruza com o Oeste Paulista. Em diferentes momentos da carreira, Vicentini Gomez transformou paisagens, histórias e personagens da região em cenário e matéria-prima para seus filmes.
Vicentini Gomez soma premiações nacionais e internacionais
Arquivo pessoal/Vicentini Gomez
Produções no Oeste Paulista
Além de circular por festivais e plataformas internacionais, Vicentini Gomez também faz questão de manter as produções ligadas ao Oeste Paulista. Em vários projetos, ele valoriza cenários da região, como fazendas centenárias e casarões, e ruas e pontos conhecidos de Presidente Prudente em parte da narrativa cinematográfica.
“Eu tenho cenas lindíssimas aqui em Epitácio. Prudente, nós temos várias fazendas da região aqui que são fazendas centenárias. Você tem cenas de agricultura, casarões, a gente tem esses cenários aqui. É uma cidade a ser explorada, né?”, afirma.
Um exemplo é o curta “Encontro Inoportuno”, gravado na cidade e exibido na plataforma internacional de curtas WeShort. Parte das filmagens ocorreu em cenários bastante reconhecíveis para os moradores, como um apartamento de Presidente Prudente, ruas da área central e até o primeiro motel da cidade.
Outro exemplo é o documentário “Cantando para as Cadeiras”, que reúne depoimentos de cantoras da cidade e também circulou por festivais internacionais.
Para o cineasta, levar essas paisagens para as telas é também uma forma de projetar a cidade além das fronteiras da região.
“Eu sempre procuro privilegiar Prudente. Acho que, aliás, eu digo isso sempre: Acho que eu sou a pessoa que mais leva Prudente para o mundo inteiro”, destaca.
Vicentini Gomez no set do filme “História e Estórias – 100 Anos de Presidente Prudente"
Reprodução/Vicentini Gomez
‘Nunca mais escrevi poemas’
Antes de consolidar a carreira no teatro e no cinema, Vicentini Gomez também viveu episódios marcantes durante o período da Ditadura Militar no Brasil. Segundo ele, um poema crítico sobre o momento político acabou chamando a atenção da repressão.
“Fui torturado pela censura por conta de um poema. Fiquei cinco horas dentro do Dops, no porão do Dops”, conta.
O artista lembra que teve a bolsa roubada por uma mulher e que, dentro dela, estava um texto que havia sido publicado em um jornal estudantil. O material acabou chegando às autoridades, que o convocaram para ir até o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo.

“Eu fiquei 5 horas vendo ‘pau de arara’ e tortura. Torturavam seis pessoas, [agressões] pesadas, pessoas desmaiavam na minha frente. O cara passava, dava um tapa na orelha e falava: ‘o próximo é você, ô, poeta’.”, recorda.
Embora não tenha sido agredido fisicamente, Vicentini afirma que a experiência deixou marcas profundas.
“Eu saí de lá e tenho certeza que eu não fui torturado porque a minha chefe na época, ela falou que ligou para o governador e pediu para não me torturarem. Mas eu fui torturado psicologicamente”, afirma.
O episódio também mudou sua relação com a escrita. “Eu acho que eu fiquei uns dois ou três anos com medo de escrever bilhete para as pessoas.”
E teve uma consequência ainda mais duradoura em sua produção artística.
“No começo achei que era uma brincadeira do cara, que um monte de gente me chamava de poeta. Nunca mais escrevi poemas na minha vida. Eu escrevia bem poema naquela época, nunca mais escrevi poema na minha vida”, diz.
Ao lembrar do período da ditadura militar, Vicentini afirma que ainda se surpreende ao ver pessoas defendendo o retorno daquele regime. “Eu fico assustado hoje vendo as pessoas pedindo a volta da ditadura, as pessoas não sabem o que é isso”.
Vicentini Gomez, natural de Presidente Prudente (SP), participou de diversas novelas e atuou em vários espetáculos teatrais
Reprodução/Vicentini Gomez
Ele lembra, também, que a censura atingiu diretamente seu trabalho no teatro.
Uma de suas peças teve 85% do texto cortado dois dias antes da estreia, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo. Sem tempo para preparar outra montagem, o grupo decidiu levar o espetáculo ao palco mesmo assim, com uma forma inusitada de protesto.
“A gente levantou uma placa, na hora que a gente balbuciava as palavras, levantava ‘corte da censura’. Aí onde não tava cortado a gente baixava a placa e falava. Ficava coisa nada com nada, sem ninguém entender”, relembra.
Para evitar um prejuízo ainda maior, ele precisou montar rapidamente outra produção para cumprir a temporada no teatro.
Para o artista, aquele período deixou marcas profundas na cultura brasileira. “Era um período crítico da história brasileira.”
A vida continua…
Aos quase 70 anos, Vicentini Gomez diz que o que o mantém ativo é justamente o encantamento com a vida e com o processo de criação. Mesmo após enfrentar um problema de saúde recente, ele afirma que segue disciplinado com os cuidados médicos e com a rotina.

“Eu falo da vida, eu falo do ser humano, eu escrevo sobre o ser humano, eu represento o ser humano, eu me divirto com as histórias trágicas do ser humano. Essa magia, esse encantamento que o ser humano tem é o que me move”, destacou.

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